Crítica de Álbum | Cuz I Love You (Deluxe) – O hibridismo musical de Lizzo

Crítica de Álbum | Cuz I Love You (Deluxe) – O hibridismo musical de Lizzo

Nota:


Melissa Vivianne Jefferson pode não ser um nome muito conhecido, mas seu alter-ego Lizzo certamente nos roubou a atenção neste ano. Começando sua carreira no início da década, não foi até 2013 que a rapper de Minnesota lançou seu primeiro álbum de estúdio, o incrível Lizzobangers. Porém, a fama despontaria no começo de 2019, alavancando sua carreira de modo exponencial ao divulgar o single principal de sua nova obra, Cuz I Love You. O aclamado CD endossou seu patamar como uma das melhores artistas do gênero, bem como uma compositora com incrível talento que merece mais reconhecimento pelo público do que atualmente tem.

Inclusive, é bem provável que Lizzo seja uma das surpresas da próxima premiação do Grammy – e não é por menos: Cuz I Love You é nostálgico, envolvente, inebriante do começo ao fim, e tem uma capacidade já vista em nomes como Lady Gaga e Beyoncé de unir diversos estilos musicais em um único lugar. E foi misturando sonoridades como funk, pop e R&B que a cantora inaugurou um novo caminho em sua ainda jovem carreira, arquitetando ao longo de catorze belíssimas faixas uma jornada que explora empoderamento feminino, amor, tragédias e comédias – tudo pincelado com um delicioso sarcasmo lírico.

O álbum abre com a faixa-titular, em um estrondo que nos remete imediatamente ao escopo sonoro do musical ‘O Fantasma da Ópera’; porém, a explosão da guitarra logo cede a uma brusca mudança instrumental, deixando que a sutileza demarcada do piano acompanhe a voz de nossa lead singer e a profundidade exuberante de toques que relembram os anos iniciais do trap. Já aqui, Lizzo usa e abusa de sua extensa tecedura vocal, explorando a proposital dissonância que engloba o chorus, recuando ao falar cantado do rap e até mesmo ousando os extremos do falsetto e do fry. De fato, sua performance tangencia uma teatralidade incrível, que expande-se também para as músicas seguintes.

Vê-se também uma profunda reverência a The Supremes e tantos outros grupos abraçados pela Motown Records nos anos 1960 em “Juice”. A impecável produção de Ricky Reed só não supera a rendição enérgica e narcótica da artista, que nos convida para um sensorial retorno às décadas de 1970 e 1980, sem perder de vista sua repaginação modernizada. O mesmo também acontece na balada Jerome que, se restringe a uma cíclica construção (como as vistas nas obras de Amy Winehouse e Michael Jackson). A arriscada verborragia felizmente encontra um fértil território para emergir em primeiro plano, aliado ao slow-tempo e à perfeita presença dos trompetes sinfônicos com a chegada do segundo refrão.

Ao longo do álbum, percebe-se que Lizzo não pensa duas vezes antes de escrever versos sarcásticos, almejando a uma paradoxal narrativa que, como visto na track supracitada, nos dá ares de um romance não correspondido, mas na verdade se isola em frases como “vá para casa e volte quando tiver crescido”. O mesmo se repete na overdose de R&B e funk de “Crybaby”, cuja sensual entrega funciona como uma propriocepção de autonomia e independência chocante – ainda que não abra mão de alguns práticos convencionalismos, principalmente no tocante aos bridges e as oscilações vocais.

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Ela também se une à lendária Missy Elliott para uma das melhores faixas do álbum: “Tempo” abre com uma poderosa guitarra que pode nos guiar para uma investida do mais puro rock – mas isso até a canção realmente começar. Elliott e Lizzo optam pela volta ao rap e, mais que isso, a um minimalismo sintético executado com minúcia e com máxima atenção aos detalhes sonoros, caminhando para uma interessante conclusão. Enquanto a letra não é a das mais originais ou enaltecedoras, os poucos deslizes aqui encontrados são ofuscados pela presença harmônica das artistas, unindo duas gerações em um metalinguístico e explícito arco.

A obra, como já mencionado alguns parágrafos acima, também não deixa de lado o liricismo empoderador. Temos o classicismo do trap-pop com a divertida “Like a Girl”, e o retorno para o funk-pop com “Exactly How I Feel”, um hino de autoaceitação performado junto ao rapper Gucci Mane. As declarações de amor também surgem na saudosista rendição de “Better in Color”, mostrando que nomes como Nina Simone e Aretha Franklin não podem e devem ser homenageadas sempre que possível. Podemos encarar essa track como uma das mais subestimadas do álbum – e uma que realmente merecia mais atenção, com potencial incrível para se transformar em single: afinal, não é apenas a poderosa voz de Lizzo que se exalta, mas a perfeição estético-fonográfica do escopo instrumental (que varia da sutil guitarra até os contemporâneos sintetizadores).

A grande ideia do álbum é fornecer aos fãs e aos ouvintes em geral uma perspectiva repaginada, ainda mais num momento tão mercadológico da música quanto este em que vivemos. Desde sempre, o hibridismo de gêneros foi acatado por artistas revolucionários dessa imortal indústria, e até seus suis-generis mais inovadores adquiriram um patamar mainstream. Lizzo, por sua vez, não se contenta ao que vem se fazendo, mas ao que poderia estar sendo feito, e é aqui que a delineação refrescante de “Truth Hurts” nos chama a atenção, desconstruindo o trap, o synth-pop e até mesmo o rap em prol de uma reconstituição extremamente sagaz.

Cuz I Love You é mais uma ótima adição para a carreira de Lizzo e, sem sombra de dúvida, é uma produção que ficará para os anos, não apenas por sua competente fusão de estilos, mas também pelo que representa para a música em si. E, dito isso, é meio óbvio comentar que a obra em si é uma das melhores do ano – senão da década.

Nota por faixa:

  • Cuz I Love You – 4,5/5
  • Like a Girl – 4/5
  • Juice – 5/5
  • Soulmate – 4,5/5
  • Jerome – 4,5/5
  • Crybaby – 5/5
  • Tempo (feat. Missy Elliott) – 4/5
  • Exactly How I Feel (feat. Gucci Mane) – 5/5
  • Better In Color – 5/5
  • Heaven Help Me – 4,5/5
  • Lingerie – 4,5/5
  • Boys – 3,5/5
  • Truth Hurts – 5/5
  • Water Me – 5/5


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