Crítica de Álbum | Dedicated - As cartas de amor de Carly Rae Jepsen

Crítica de Álbum | Dedicated - As cartas de amor de Carly Rae Jepsen

Nota:

Carly Rae Jepsen ganhou fama após lançar o famoso single “Call Me Maybe”, que praticamente definiu sua carreira como uma das vozes da geração millenial. Apesar de não fazer o mesmo sucesso estrondoso que suas conterrâneas – talvez caindo no esquecimento após a estreia de sua terceira produção fonográfica, Emotion. Porém, mesmo não ganhando a memorabilidade que merecia, é inegável dizer que Jepsen carrega consigo uma interessante habilidade musical, mantendo-se fiel às suas raízes ao mesmo tempo que explora seu quase infinito conhecimento – não pensando duas vezes antes de homenagear suas grandes inspirações. Logo, não é surpresa que, cinco anos depois, ela retorne com um competente e habilidoso álbum, marcando sua quarta entrada na indústria com Dedicated.

De forma quase autoexplicativa, é bem claro o que podemos encontrar aqui: declarações de amor das formas mais variadas, oscilando entre composições mercadológicas, baladas envolventes e construções miméticas que refletem sua paixão pelos anos 1990 e 2000. É partindo desse preceito que a artista já abre a obra com “Julien”, que busca (e eventualmente alcança) uma mistura demarcada que nos arremessa de volta para Madonna e Cindy Lauper sem perder o tato contemporâneo dos sintetizadores. A canção, pautada numa atmosfera onírica, também aproveita o espaço para cultivar a mensagem que nos será entregue ao longo de quinze faixas: um saudosismo nostálgico que abraça com força uma época em que o amor era menos líquido e mais palpável (“toda noite eu rezo, ‘quando você voltará para casa?’). É quase agonizante perceber que a sutileza com a qual Jepsen delineia sua narrativa é usada de forma confessional e trágica.

Carly retorna com seu belíssimo soubrette, fazendo bom uso das afetações vocais enquanto vai e volta dentro de uma extensão em mezzosoprano que adiciona camadas de complexidade ao CD. O primeiro ápice, dessa forma, insurge com “Now That I Found You”, um retorno drástico para composições que realmente conversam com as entregas inegavelmente únicas de Lauper, passando pelos crescendos e quedas propositais que culminam em uma diversão aprazível, ainda que seja previsível. A lead singer mantém a estruturação para “Want You In My Room”, unindo em uma ambientação a fusão perfeita e notável do dance-pop com o synth-pop – e, de modo mais surpreendente ainda, sem cair nas datações ou em fórmulas cansativas.

Carly perde um pouco de protagonismo quando divide o escopo musical com CJ Baran e Benjamin Romans em “Everything He Needs”, cujo tom confessional e teatral é o que nos chama bastante a atenção. É claro que a entrada sonhadora e romântica de Jepsen harmoniza em uma completude divina, mas é a sensação do início dos anos 2000 que ganha uma força tremenda, principalmente ao abrir uma brecha para uma repetição bem-vinda, cíclica e que reafirma a necessidade não apenas física, mas emocional e espiritual do eu lírico para aquele que deseja – contrastando com a modernizada e fluida “Happy Not Knowing”. Nesse duo, a cantora mostra mais uma vez sua carga musical ao trazer elemento no nu-disco e das investidas do freak que tanto viralizaram nos primeiros anos da década anterior.


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A artista prova, mais uma vez, que sabe de que forma construir um coeso álbum, unindo uma experiência considerável desde seu début em 2008 com Tug of War até o momento atual. Cada uma das tracks funciona como extensão uma da outra, ainda que, em certos instantes, ceda a alguns convencionalismos talvez procurando uma zona de conforto que não quebre a linearidade apresentada: tais equívocos, mesmo não representando um deslize gritante, aparecem nas previsíveis “I’ll Be Your Girl” e “Too Much” (nesta com um pouco mais de força), deixando rastros que invadem a confusão no refrão de “The Sound”.

É claro que, levando em conta que falamos de Carly Rae Jepsen, é óbvio esperarmos que o álbum se reencontre – e ela faz exatamente o que esperamos com a entrega de mais um anthem confessional e melódico com “Feels Right”, uma construção envolvente e interessante carregado de conceitos já vistos antes, mas revestidos com uma nova roupagem. Em “Right Words Wrong Time”, Jepsen nos mostra que não está alheia ao que desponta no cenário musical atual, optando por adicionar notas quase imperceptíveis do trap. E, inesperadamente, retorna para sua memorabília mimética ao emular suas influências de forma impecável com “Real Love”, uma balada travestida competente e escrita de forma muito hábil.

Carly retorna para seus desabafos e suas incompreensões amorosas mais uma vez com “For Sure” com versos cíclicos que dizem “estive pensando que estávamos acabados, com certeza”, retornando para o que sabe fazer de melhor com “Party For One”, faixa que, mesmo se assemelhando a tantas outras construções musicais que lançou ao longo dos anos, funciona como a aguardada conclusão de uma jornada emocional pelo mais puro dos sentimentos que existe.

Dedicated é mais uma entrada aplaudível para a carreira de uma jovem cantora, que não faz questão de esconder quem realmente é quase nunca deixou de nos decepcionar. Em um álbum que poderia falhar em sua totalidade por unir diversos gêneros e suas ramificações, Jepsen prova que tem competência o suficiente para criar algo estruturado e bem agradável.

Nota por faixa:

  • Julien - 4,5/5
  • No Drug Like Me - 4,5/5
  • Now That I Found You - 5/5
  • Want You In My Room - 5/5
  • Everything He Needs - 4,5/5
  • Happy Not Knowing - 5/5
  • I'll Be Your Girl - 3/5
  • Too Much - 3/5
  • The Sound - 3,5/5
  • Automatically In Love - 3,5/5
  • Feels Right - 4/5
  • Right Words Wrong Time - 4,5/5
  • Real Love - 4,5/5
  • For Sure - 4/5
  • Party For One - 4/5

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