A polêmica e controversa Moriah Rose Pereira ganhou fama no início da década passada ao dar vida a um alter-ego um tanto quanto inusitado e que misturava diversos gêneros musicais – resultando num pastiche identitário de tirar o fôlego (e viralizando ao redor do mundo). Sua presença marcante, descrita como uma Barbie kawaii-punk saída das profundezas do universo underground e posta no centro de um construção surrealista – algo completamente ilógico, inquietante e cuja persona constantemente busca entender a oscilante compreensão entre a inexistência e a existência. E é dessa forma que Poppy, como a artista ficou conhecida, caminha para seu terceiro álbum de estúdio, ‘I Disagree’.

O próprio título da produção já premedita o que podemos esperar – ou não esperar: afinal, as concepções metafísicas e reflexivas trazidas pelo poderoso e conflitante liricismo serve como negação e rechaça puros de uma arte há muito engessada pela indústria que a produz (um paradoxo muito bem-vindo para um escopo como o que nos é apresentado). Não é surpresa que a faixa-título comece com breves versos soltos que logo explodem no cerne do heavy metal, com notas bombardeadas por uma pesada guitarra e um recuo inesperado para uma rendição mais calma, guiada por declarações inquisitivas que duvidam de qualquer coisa que seu interlocutor diga (“eu não concordo”, servindo de mote para grande parte das estrofes”).



Mais do que isso, é notável o modo com a cantora e compositora utiliza das acepções mais extremas para compor suas incursões sonoras: os instrumentais reverberam suas influências pelo noventismo do J-pop, enquanto buscam referências do dream-pop em diástases vocais conscientes de si mesmas e que seguem o caminho que bem querem, jogando-se em trilhos de uma montanha-russa desgovernada e que não pretende chegar a nenhum lugar. Esse projeto, na verdade, já se ergue com o pós-apocalíptico “Concrete”, que abre o CD em uma viagem psicodélica através de fetiches, pesadelos (e um inexplicável apreço pelo desespero emocional) – cujo resultado bastante palpável se deve principalmente à sua configuração em rapsódia e ao trabalho feito nos anos 1980 pela veterana Cocteau Twins.

Se nos últimos anos presenciamos uma insurgência fenomenal do industrial pop, Poppy levou esses conceitos a um nível muito maior do que o previsto, iniciando o ano com uma catártica e quase frustrante (por todas as razões corretas) regurgitação caótica intitulada “BLOODMONEY”, chocante desde seu minimalismo até sua deliciosa heresia mitológica; em contrapartida, ela também sabe explorar ambiências neo-noirs com “Anything Like Me”, fazendo questão de deixar que a guitarra elétrica seja o elemento em primeiro plano e que divida os holofotes com o contínuo uso de sintetizadores e de moduladores – antes de migrar para uma balada melodramática (sim, tudo isso num mesmo lugar).

No momento em que pensamos entender sua linha de raciocínio, a artista nos surpreende com sua habilidade inegável de arquitetar peças experimentais que conversem com praticamente todo tipo de público: “Fill the Crown”, sem sombra de dúvida um dos grandiosos ápices da produção, inicia com uma ambiência que nos relembra imediatamente de Robyn, e então rende-se sem quaisquer escrúpulos a uma mistura impulsiva e inebriante entre Black Sabbath e Megadeth – cultivando espaço de sobra para substanciais e propositais transgressões tonais que culminam num brusco finale. Já em “Nothing I Need”, o onírico pano de fundo é pincelado com um doloroso niilismo que transita entre a melancolia e a apatia.

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É inegável dizer que, eventualmente, as tracks da obra possam cansar ouvidos menos acostumados à visceral originalidade de artistas alternativas – preferindo refugiar-se em construções mais dançantes e mercadológicas. De qualquer forma, é sempre válido dar uma chance àquilo que não conhecemos, e Poppy é um dos grandes nomes da próxima fase da indústria fonográfica que imprime sua característica única em cada peça artística que se propõe a fazer. E, por mais que sua “bizarrice” não seja abraçada com gosto por todos, é justamente ela que nos tira da zona de conforto – como é visto, mais uma vez, nas faixas finais: temos a enérgica e saudosista “Sit/Stay”, a potente e irreverente “Bite Your Teeth” (que mantém certos diálogos com investidas anteriores) e a atemporal e melódica “Sick of the Sun” (já buscando algumas breves notas que se aproximam do trap e do nu pop).

A performer consegue nos surpreender mais uma vez com “Don’t Go Outside”, uma das melhores músicas do ano e cuja enorme fusão de fato pode servir de inspiração para futuras composições. Seu teor varia desde as realizações mais épicas do grupo Queen até o respaldo idealizado do classicismo do violão e do baixo, valendo-se de certos aspectos que nos recordam longinquamente de Glenn Frey e Don Henley. E, como já era de se esperar, a ativa compleição do rock com a chegada do segundo ato.



‘I Disagree’ é o que podemos encarar como uma das proximidades mais teóricas do conceito de dadaísmo musical – afinal, levando em consideração seu manifesto, parecemos nos deparar com o resultado de uma mixórdia de vários estilos que resulta numa sinestesia bombástica, que funciona de modo mais coeso do que imaginávamos.

Nota por faixa:

  • Concrete – 4/5
  • I Disagree – 4,5/5
  • BLOODMONEY – 5/5
  • Anything Like Me – 4,5/5
  • Fill the Crown – 5/5
  • Nothing I Need – 4/5
  • Sit/Stay – 4,5/5
  • Bite Your Teeth – 5/5
  • Sick of the Sun – 4/5
  • Don’t Go Outside – 5/5
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