Crítica de Álbum | Reputation - O fundo do poço

Crítica de Álbum | Reputation - O fundo do poço

Nota:

Taylor Swift começou sua carreira ainda em 2004, com apenas quinze anos, e desde então vem encantando fãs pelo mundo inteiro. Porém, ainda que faça bastante sucesso e seja uma das artistas mais lucrativas e comerciais do mundo pop contemporâneo, a cantora talvez tenha perdido o brilho ao afastar-se por completo da música country e se lançar no pop – e aqui não me refiro à redescoberta e à reinvenção do gênero, mas sim a cópias formulaicas sem qualquer tipo de ousadia. Claro que esse triste deslize não havia ocorrido com '1989', seu quinto álbum de estúdio que redefiniu a si mesma e entregou algumas obras-primas visuais e melódicas, e sim à sua próxima investida – um infeliz disco intitulado 'Reputation'.

É inegável dizer que o próprio título já almeja a algo novo para a carreira de Swift, buscando falar sobre sua reputação na indústria musical, os inimigos que “conquistara” ao longo do caminho, almejando uma construção cronológica de sua vida e de sua carreira. Porém, a esperada ousadia nunca se concretiza, criando uma conturbada mancha em sua carreira com uma obra totalmente reciclada, repetitiva e sem qualquer coesão – e mais: tentando nos fazer engolir um conceito que, eventualmente, não vê a luz do dia e morre já nas primeiras faixas, ainda mais pelas péssimas adições ao time de compositores.

No geral, 'Reputation' resgata elementos do pop clássico com um revestimento eletrônico que invade sem escrúpulos o synthpop. O arranjo musical identitário desse suis-generis já se mostra inconfundível com a primeira faixa – e um dos muitos singles do álbum -, "…Ready For It?" Mais uma vez, a cantora retorna como uma das principais compositoras e parece perder a mão de vez, esquecendo-se (propositalmente?) até mesmo das lições mais básicas, incluindo a fluidez musical. Os fortes acordes criados da mistura entre dubstep e trap music funcionam com a linearidade compulsória e crua da primeira estrofe, porém se perdem com uma entrada bizarra e fabulesca que antecede o refrão puramente instrumental – algo que nunca deveria se repetir, mas parece encontrar um terreno fértil para se erguer.

É normal que a primeira música de um álbum, principalmente recostado ao pop, comece com algo medíocre, evoluindo conforme seguimos as tracks. Porém, nesta “pérola” musical, as coisas funcionam exatamente ao contrário: a falta de vontade e originalidade de Swift é angustiantemente preocupante, alcançando pouquíssimos ápices que refletem suas habilidades de outrora – alguns deles fazendo bom uso dos elementos musicais sintéticos com "Delicate", cuja arquitetura é bastante envolvente e interessante, e "Don’t Blame Me", que marca uma semelhança deliciosa com "Take Me to Church", de Hozier – com enfoque na estrofe.


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Por outro lado, algumas canções começam de forma estupenda e se desmantelam conforme os blocos se completam – e essa excessiva bagagem de equívocos é enfurecidamente amadora, iniciando pela brutal entrada de "I Did Something Bad", cujo chorus parece uma peça aleatória costurada a um escopo sem qualquer característica coesiva. O mesmo volta a acontecer em "Gorgeous e "Getaway Car", esta última com um incrível potencial desperdiçado e jogado para debaixo do tapete. Entretanto, nada é mais frustrante que prestar atenção aos arranjos musicais e chegar à imutável conclusão de que o disco não ousa em nenhum momento: cada uma das investidas é extremamente parecida com a anterior e, mesmo com isso, é quase impossível encontrar alguma que não ceda às ruínas da prolixidade.

"Getaway Car", em especial, é um rip-off ligeiramente melhorado de "Delicate" e "End Game", esta se concretizando como uma das piores entradas da obra de Swift. Além da desnecessária e infantilizada fusão de estilos, a parceria com Ed Sheeran não funciona em nenhum âmbito. A artista procura mostrar uma versatilidade profissional ao investir seus esforços em o que se assemelha a um rap, mas nunca chega às glórias do que almeja. Porém, nada alcança a completa falta de senso estilístico e vocal de "King Of My Heart": a única coisa que consegue se salvar em meio a esse vórtice inexplicável é uma letra interessante e cautelosa, ofuscada por uma entrada eletro-pop que não orna com a ideia da música e nem mesmo com o que Taylor deseja transmitir ao público – talvez apenas aos seus fãs.

Swift tenta viralizar algo que já começava a dar as caras desde 2010, com o lançamento de 'Bionic', de Christina Aguilera, aperfeiçoado por Lady Gaga três anos depois com 'ARTPOP': a utilização dos acordes eletrônicos do synth-pop, incluindo a rebeldia e a irreverência instrumentais. Porém, neste álbum, não existe brilho próprio, e sim reutilizações de coisas que já existem, de obras de arte que já se mostraram muito além de sua época e agora já adentram o mundo do convencionalismo – e, comparando aos seus trabalhos anteriores, a sexta obra da cantora é um regresso tremendo em uma carreira permeada por sucessos.

Taylor Swift sabe como vender e criar músicas que serão consumidas por milhões de fãs. Porém, 'Reputation' simplesmente não consegue fazer jus ao que ela já nos apresentou, funcionando mais como um projeto descartado que algo que realmente queria fazer – e, mesmo se quisesse ter se apresentado de um jeito novo, poderia ter encontrado meios muito melhores para isso.

Nota por faixa:

  • … Ready For It? – 2/5
  • End Game – 1/5
  • I Did Something Bad – 3/5
  • Don’t Blame Me – 3,5/5
  • Delicate – 4/5
  • Look What You Made Me Do – 2,5/5
  • So It Goes – 1/5
  • Gorgeous – 2/5
  • Getaway Car – 2/5
  • King of My Heart – 0,5/5
  • Dancing With Our Hands Tied – 1,5/5
  • Dress – 1,5/5
  • This Is Why We Can’t Have Nice Things – 1/5
  • Call It What You Want – 2,5/5
  • New Year’s Day – 1/5

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