Crítica | De volta à Córsega – Catherine Corsini entrega filme honesto sobre descobertas da adolescência

Quase deixado de fora da disputa pela Palma de Ouro deste ano, De volta à Córsega (Le Retour/ Homecoming), de Catherine Corsini, é mais polêmico nos bastidores do que nas cenas projetadas. Acusada de assédio moral durante as filmagens, de forma anônima, a renomada diretora francesa sofreu uma investigação e foi inocentada. Assim, as controversas ocuparam muito mais o centro das atenções do que o simples drama familiar..

Logo no início do filme, Khédidja (Aïssatou Diallo Sagna) esta dentro de um carro com suas duas filhas em uma estrada sinuosa à beira de um precipício. Ao chegar em um porto, ela recebe uma ligação e a notícia aos seus ouvidos é dolorosa, seguida de lágrimas e um grito de dor. Depois de anos, Khédidja com as filhas já adolescentes retorna à Córsega, o seu lar de origem e nascimento de Farrah (Esther Gohourou) e Jessica (Suzy Bemba).

O retorno é motivado por um trabalho de babá de três crianças de uma rica família da região praiana. Assim Khédidja passa os dias cuidando dos filhos alheios, enquanto deixa as duas moças descobrirem o local e, consequentemente, a sexualidade e seus limites durante as férias de verão. 

A filha mais velha, Jessica, só pensa em começar a faculdade na Science Po, isto é, as escolas de ensino superior voltadas ao mercado de trabalho na França. Por outro lado, Farrah não idealiza muito o futuro, ela sempre aproveita uma oportunidade de burlar as regras e conduz a vida com graça e leveza. 

Com uma desenvoltura de malandra e um timing cômico, ela contrasta em todos os graus da sua irmã, vista como responsável e inteligente. Lançada no cinema a partir do polêmico filme Lindinhas (Cuties), distribuido pela Netflix no Brasil, Esther Gohourou mostra-se plena e dona dos melhores momentos da narrativa. 

Em contrapartida, o passado melodramático da mãe não é tão bem desenvolvimento quanto as descobertas de cada uma das jovens. A conexão com a matriarca é dificil principalmente pela distância da atriz com sua personagem. Revelada na obra anterior de Catherine Cosini, A Fratura (2021), pela qual ganhou um César de Melhor Atriz Coadjuvante, Aïssatou Diallo Sagna não estava de modo algum preparada para dramatização necessária deste filme. 

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Em um gigante contraste com as jovens, a artista não encontra os sentimentos para equilibrar o confronto com o passado e as suas escolhas. Tal como A Fratura e Um Amor Impossível (2018), Corsini conta suas intrigas com um tom dramático agudo. De volta à Córsega tem como trunfo o protagonismo de duas jovens negras e questionadoras do seu papel na sociadade, principalmente na Córsega, ilha de domínio francês, mas com forte influência italiana, e de maioria branca. 

O romance lésbico entre Jessica e Gaïa (Lomane de Dietrich) merece destaque, no entanto, a relação parece mais condescendente do que uma paixão juvenil. Entre acerto e tropeços, tanto no elenco quanto no roteiro, De volta à Córsega é um drama bem intecionado, porém mal organizado como uma reconciliação familiar e distante pela invisibilidade da trajetória de uma mãe solo com duas meninas até ali. 

Lançado no Festival de Cannes 2023, De volta à Córsega estreia dia 23 de novembro nos cinemas brasileiros. 

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Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Nascida no Rio de Janeiro e apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.

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