Viver de arte não é fácil. Muitos cantores, escritores, pintores, artistas no geral se veem obrigados a admitir um ou mais empregos para conseguir pagar suas contas, pois a arte, em si, não paga o aluguel. Para sobreviver, uns passam a dar aula, se tornam mentores; outros se veem obrigados a deixar um pouco de lado aquilo que se quer fazer em prol daquilo que se precisa fazer para conseguir um dinheiro – o que, em alguns casos, pode significar o total abandono do que se é para assumir uma versão mais comercial/vendável da arte. Esta é apenas uma das inquietações que conduzem o longa ‘Dissonantes’, nova dramédia nacional em co-produção da StarPlus e que estreia essa semana nas salas de cinema do país.


Paulão (Marcelo Serrado) é um homem de princípios. Aí pela faixa dos 40/50 anos, ele vive enraizado ao seu passado de pseudo-sucesso, quando tinha uma banda de rock com seu melhor amigo Ohio (Luís Miranda). Porém, o tempo passou e os anos 80/90 ficaram pra trás. Enquanto Ohio se casou com a baixista da banda deles e se tornou um respeitado júri de um reality de revelação de talentos, Paulão continuou no mesmo lugar, morando de favor nos fundos da casa de uma senhora aposentada, dizendo trabalhar em um novo disco inédito que, há 10 anos, não sai da ideia. É nesse contexto que sua esposa Clara (Maria Manoella) decide deixá-lo para viver com a nova namorada (Emanuelle Araújo), e ele tenta se recuperar do baque amargurando a qualidade do programa ‘A Próxima Canção’, no qual seu amigo Ohio trabalha. Porém, quando Ohio decide levar sua protegida Loly (Thati Lopes) para ensaiar no estúdio de Paulão, o ranzinza terá que aprender a lidar com o furacão pop que é a jovem cantora, e talvez perceba que música boa é aquela que vem do coração.

Numa pegada meio ‘O Grande Lebowski’ com ‘Alta Fidelidade’, ‘Dissonantes’ é uma declaração à música. Mais especificamente, o rock’n roll. Em um pano de fundo o roteiro de Mariana Trench Bastos com colaboração de Fernando Ceylão, Patricia Corso e Pedro Rieira busca construir um retrato do choque de gerações – cringe e millenial – através das aspirações musicais: enquanto um protagonista se agarra na nostalgia de um tempo que não volta mais e define que apenas a experiência que ele viveu é boa, a outra protagonista busca encarar a atualidade com mais foco na vida, disposta a vencer fazendo o que for necessário para, já estável economicamente, começar a cantar aquilo que de fato quer cantar. Nessa equação, não há certo nem errado, mas tem a ver, sim, com a forma com que se encara a vida.


 

 

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É bastante contagiante a direção de Pedro Amorim (‘Carlinhos e Carlão‘), erigindo uma atmosfera grunge com cheiro de cigarro e cerveja em oposição à estética solar e colorida da jovem cantora teen. Dá para sentir e ouvir esses dois ambientes do longa, que nem Bradley Cooper e Lady Gaga em ‘Nasce uma Estrela’. E tal como no oscarizado, em ‘Dissonantes’ o frescor, a energia e as melhores cenas são com a talentosa Thati Lopes – que, oriunda do teatro musical, solta sua voz e mostra ao grande público que é, sim, uma atriz completa.

Voltado para o público adulto e produzido pelo braço da Disney StarPlus, ‘Dissonantes’ chega aos cinemas para arrancar risadas dos cabeludos de plantão que, com suas camisas xadrezes, vão se identificar com o protagonista e rir com ele sobre seu estilo de vida.

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