quarta-feira, abril 24, 2024

Crítica | ‘Duna – Parte 2’ é a MELHOR ficção do século XXI

A década de 1960 é um verdadeiro oásis na ficção científica. Nos cinemas e na TV, produções como Perdidos no Espaço, Planeta dos Macacos, Doctor Who, Jornada nas Estrelas e 2001: Uma Odisseia No Espaço tomavam conta das telas do mundo inteiro, fazendo o público sonhar com novos mundos e temer o que a megalomania humana poderia fazer com o futuro. Na literatura, Philip K. Dick estava no auge, e Frank Herbert lançava uma das obras mais influentes da história da Cultura Pop: Duna. Com o passar dos anos, a trama política espacial serviu de inspiração para franquias como Matrix, Avatar, Mad Max e Star Wars, além de ser uma das obras favoritas de Hayao Miyazaki.

O livro gira ao redor da família Atreides e seu envolvimento com o planeta Arrakis. Paul Atreides, um jovem monarca cuja família foi destruída pelas guerra políticas, surge como a principal esperança para os Fremen se revoltarem. Com essa parceria, ele pretende vingar o assassinato do pai. Por anos, muitos não entenderam como a franquia não se popularizou na mesma intensidade que Star WarsO Senhor dos Anéis, por exemplo, mas a adaptação de Denis Villeneuve traz fortes indícios de que mudará isso nos próximos meses.

Em 2021, o primeiro capítulo da saga chegou aos cinemas e atraiu o público geral para apreciar a obra de ficção. Nos últimos anos, o gênero começou a se popularizar, mas chegou a um nível raro com Duna – Parte 1. O que as pessoas comumente chamam de ‘furar a bolha’. E agora, com Duna – Parte 2, Villeneuve parece que vai elevar o interesse do público geral pela ficção científica em níveis poucas vezes vistos.

Isso porque o filme é uma obra-prima. Quando o projeto foi anunciado como o primeiro de duas partes, Denis resolveu adotar uma estratégia narrativa ousada, mas eficaz. Ele trabalhou o ‘grosso’ da construção política desse universo no longa de 2021, abrindo espaço para uma expansão meticulosamente trabalhada dessa mitologia na parte 2, que é muito mais dinâmica e épica. Não que a política seja deixada de lado – ela está intrínseca à trama e a movimenta o tempo inteiro -, mas aqui entra um fator fundamental do livro: a reflexão filosófica sobre o papel de Paul Atreides na sociedade Fremen e as escolhas do rapaz no futuro desse mundo.

Trabalhando aquele conceito de Paul ser ou não o escolhido, o filme ganha ares de épico bíblico. O menino quer ser uma liderança para vingar o pai, mas em momento algum se vê como um messias descrito nas lendas e crenças. Paralelamente a isso, a sociedade Fremen se divide entre aqueles que acreditam na mitologia e nos céticos quanto a ter um estrangeiro liderando sua causa. Fato é que uma trama colossal como essa poderia dar muito errado, mas o preciosismo da direção é tão eficiente que fica impossível não embarcar nas contradições do protagonista e na crueldade da família Harkonnen. É um projeto feito com muito esmero, porque cada detalhe em cena importa para expandir esse universo tão fascinante.

Nesse segundo capítulo, é tudo trabalhado seguindo o manual do épico. Há maquinários impressionantes, paisagens de tirar o fôlego e um protagonista que precisa se provar para o povo e para si mesmo, enquanto reúne uma legião de apoiadores por onde passa. Em meio a uma abordagem praticamente religiosa, a grande novidade da vez é a ação. Enquanto aprende a ser tornar um Fremen, Paul é exposto a diversas atividades dessa sociedade, como lutar, se adaptar ao deserto e a montar nos colossais verme da areia. Villeneuve dedicou cerca de um ano de trabalho junto ao time de design para chegar ao visual perfeito dos vermes. Ele sabia que se essas criaturas não funcionassem em tela, muito provavelmente o filme em si não funcionaria. E toda essa dedicação deu certo, porque é impressionante ver esses monstros em ação.

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Inclusive, há uma cena em especial que vai deixar o público de queixo caído, tamanha a grandiosidade do que é retratado em tela e como os vermes se encaixam nessa sociedade. Por sinal, grande mérito da direção do filme é o trabalho espetacular de escala. Não são todos os diretores que sabem brincar com as diferenças de tamanho de personagens e armamentos para impressionar. Um deles é Gareth Edwards (Godzilla e Rogue One), que é um mestre nessa arte. Neste filme, Villeneuve usa as escalas a seu favor para criar no público uma sensação de perigo. Todas as ações que Paul e os Fremen tomam diariamente são mortais. Por mais que eles tratem com uma naturalidade absurda, enfrentar o maquinário dos Harkonnen, montar os Vermes e viajar pelas intermináveis dunas de Arrakis representam chegar em casa vivo ou não. Essa sensação de perigo iminente permeia a totalidade da obra, muito pela forma como o diretor maneja as escalas.

Por falar em Harkonnen, a grande ameaça da vez é Feyd-Rautha Harkonnen, interpretado brilhantemente por Austin Butler. Ele é psicótico e por menos tempo de tela que tenha, rouba toda atenção para si quando aparece. Sua introdução beira o ridículo de tão ameaçadora que é. O rapaz é sobrinho do Barão Harkonnen e tem no tio uma promessa de assumir o império de Arrakis. Mais do que essa sede por poder, o trabalho de Butler exala carisma e sensualidade, quase como um astro do rock viciado em assassinar os inimigos a sangue frio. Sua caracterização e atuação são perfeitas para criar sensação de risco. Basta ele entrar em cena para que as atenções se voltem para o homicida careca que mata rindo. Faltam adjetivos para descrever o que Butler faz em tela. Fato é que ele vai deixar o público vidrado. O único problema, porém, é que ele tem realmente pouquíssimo tempo de tela. Diante de tudo que ele faz, ficou a vontade de vê-lo em mais cenas.

Além de Butler, Timothée Chalamet mostra uma evolução absurda como protagonista. O garoto é uma das maiores revelações recentes, mas sua escolha de projetos vinha causando uma certa antipatia de parte do público. No entanto, quem duvidava de seu talento vai se surpreender em como ele consegue convencer como Paul Atreides. Seu personagem é cheio de camadas, levando o público do amor ao ódio em questão de segundos, justamente por conta dessas camadas do dilema de seguir seu coração ou ser uma pessoa política. A decepção da vez é a talentosa Zendaya, que não está mal, mas também não faz um trabalho de destaque. É o mesmo problema da personagem da atriz na saga Homem-Aranha (2017 – 2021).

De qualquer forma, Duna – Parte 2 é a melhor ficção científica deste século e o grande filme do ano até aqui. Pode parecer exagero, principalmente diante de filmes como Ex_Machina (2014) e A Chegada (2016), mas é tudo tão meticulosamente reflexivo e impressionante que beira o absurdo não sair da sessão embasbacado com o nível altíssimo de qualidade atingido por Villeneuve neste longa. E caso não tivesse seu lançamento atrasado para 2024, certamente estaria indicado em todas as categorias técnicas das principais premiações de 2023. O mais fascinante do filme é que o épico é tão bem trabalhado que cria no público o mesmo encantamento sentido na saga O Senhor dos Anéis, como se você estivesse vendo nascer, diante de seus olhos, um novo Ben-Hur. É aquela sensação maravilhosa de ver a história ser feita. É uma experiência realmente espetacular e que consegue ser ampliada pela tela e equipamento sonoro do IMAX. É imperdível!

Duna – Parte 2 estreia em 29 de fevereiro de 2024.

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Pedro Sobreirohttp://cinepop.com.br/
Jornalista apaixonado por entretenimento, com passagens por sites, revistas e emissoras como repórter, crítico e produtor.

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