Se pararmos para pensar, Jane Austen é, de longe, uma das seletas romancistas a fazer parte do grupo de louvor de realizadores cinematográficos e televisivos. Ao lado de nomes como Stephen King, Austen tem um número gigantesco de obras que já foram adaptadas para as telonas e as telinhas – sendo o mais conhecido a versão de 2005 de Orgulho e Preconceito, dirigido por Joe Wright. O mais interessante é que a maioria dessas adaptações audiovisuais conseguem capturar a essência crítica dos escritos originais, canalizando as mensagens e os ácidos subtextos para criações exuberantes e vibrantes – e é claro que a investida acerca do famoso Emma (aqui adornado com um metódico e atraente ponto final) não ficaria de fora de uma lista de clássicos automáticos do século XXI, mesmo que nunca atinja o mesmo patamar glorioso que outras releituras.

A história gira em torno da heroína titular, uma verborrágica e rica jovem pertencente à família Woodhouse que não filtra o que lhe passa à mente e não pensa duas vezes antes de exprimir o que acha sobre determinado assunto – substancialmente quando esses assuntos envolvem seu pai, suas irmãs, sua amiga mais próxima e um charmoso e cínico galã que a tira do sério. Emma é revestida pela presença instantânea de Anya Taylor-Joy, que volta a provar sua versatilidade com um papel bem distinto dos outros filmes que estrelou; na verdade, a atriz emerge no longa-metragem em uma rendição inesquecível, encarnando o cantado sotaque britânico da era regencial e afastando-se por completo dos estigmas de A Bruxa e Fragmentado.

A obra é uma análise dinâmica e hilária acerca da construção narrativa de personagens, funcionando como um manual envolvente que atenua a extensa duração em um condensado e explícito coming-of-age. Desde o princípio, Emma se mostra como uma egoísta dama que sempre carrega a última fala e nunca está errada – isto é, até os momentos em que é confrontada por George Knightley (Johnny Flynn). Por mais que tente mostrar suas boas intenções, ela se envolve sem ser convidada nos affairs românticos de seus conhecidos e, por vezes, os magoa por não perceber as minúcias nas entrelinhas – ainda mais quando analisamos o relacionamento quase masoquista entre ela e a companheira Harriet Smith (Mia Goth em um papel revolto com camadas de densidade e profusão). E é nesse escopo que ela se vê num beco sem saída e reencontra-se num bondade que vai de encontro aos arcos românticos do século XIX.



Apesar da ambientação antropológica, a diretora Autumn de Wilde escolhe com cuidado o tom certo para se afastar das concepções panfletárias e políticas e nos convidar para uma jornada tragicômica que beira a perfeição – não fosse por alguns vícios técnicos que se tornam repetitivos. Entretanto, não podemos tirar mérito da beleza e da cautela com qual a cineasta conduz sua carta de amor à Austen, inclusive quando consideramos que esta é sua estreia diretorial, saindo de um prolífico mundo da fotografia para uma carreira que tem muito a oferecer para a esfera do entretenimento. E, de fato, sua estética transcendente é pecaminosa (no sentido mais digno da palavra) ao ponto de transbordar com homenagens e repaginações de escolas artísticas que variam do renascimento ao barroco – transformando cada frame em uma obra de arte museológica.

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O pano de fundo trilha um caminho conhecido demais para ousar em originalidades, mas sólido o suficiente para servir como complemento para a protagonista e para o restante dos personagens. Seguindo o curso de um ano, o qual é demarcado pelas estações do ano, o foco é direcionado à Emma: não é ao acaso que ela sempre destoa da massa homogênea de seus acompanhantes, seja com chapéus vultuosos, vestidos marcantes ou um rosto esculpido em desdém (que logo transforma-se numa paixão fraternal para com Harriet e romântica para com George). Eventualmente, sua personalidade altiva recua para uma preocupação com o debilitado pai (Bill Nighy) e para uma gratidão silenciosa quando percebe que as adversidades podem melhorar. Entretanto, o roteiro destoa das resoluções fabulescas para uma desistência altruísta em prol daquilo que lhe importa – por mais que a química entre Taylor-Joy e Flynn seja inegável e nos prometa o exato oposto.

Vale ressaltar que um inesperado aspecto artístico é um dos motivos essenciais que garante a interação cômica entre o público e o longa. Isobel Waller-Bridge, saindo de seu trabalho na premiada série Fleabag, é a responsável pela dicotômica trilha sonora, que é caprichosa o bastante para cultivar uma atmosfera saudosista, mas única (dentro de seus próprios limites) para oscilar entre um minimalismo cênico e um engrandecimento majestoso – que, ainda que redundante em certos momentos, cumpre o que promete com maestria excepcional.



Mesmo não chegando ao nível narrativo de outras adaptações de Jane Austen, o filme é aprazível e deve funcionar para os fãs inveterados da romancista. No geral, sua imagética irretocável compensa deslizes pontuais – principalmente quando auxiliada por performances incríveis e quebras de expectativa surpreendentes.

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