Crítica | Espiral – O Legado de Jogos Mortais – Spin-off da franquia é mais investigação policial do que terror

Se você chegou até aqui na franquia ‘Jogos Mortais’ (depois de 8 filmes em 17 anos), você provavelmente curtiu a proposta inicial dos longas: um filme que colocava pessoas aleatórias que não se conheciam entre si em uma situação de confinamento, na qual deveriam lutar por suas vidas custasse o que custasse, ainda que isso significasse torturar, aleijar ou mesmo matar o coleguinha. Tudo, claro, orquestrado pelo famoso Jigsaw, que por tanto tempo assombrou o imaginário dos espectadores. Então, depois do que deveria ter sido o fim da franquia, chega agora aos cinemas brasileiros ‘Espiral – O Legado de Jogos Mortais’, o spin-off da franquia que, em vez de seguir a sequência, simplesmente pega tudo, coloca num saco e parte para outra coisa.

O Detetive Zeke (Chris Rock) é um policial certinho e pouco amado em seu departamento. Parte dessa animosidade é devido ao seu pai, Marcus Banks (Samuel L. Jackson), ter sido o bam bam bam da polícia de Nova York; parte vem do fato de, no passado, Zeke ter dedurado um colega de trabalho corrupto às autoridades. Até por conta disso, a delegada Angie (Marisol Nichols) designa a ele um novo parceiro, William (Max Minghella), ao mesmo tempo em que aparece no metrô da cidade um caso bizarro de assassinato, e tudo leva a crer que Jigsaw estaria de volta à ativa…

Escrito por Pete Goldfinger e Josh Stolberg, o roteiro do filme obedece a uma fórmula de suspense policial já muito vista – e até melhor trabalhada – em séries como ‘C.S.I.’ ou ‘Criminal Minds’: parte de um investigador protagonista, mal quisto em seu ambiente, que precisa buscar sua redenção e a solução do caso de maneira intrínseca de modo a trazer luz à sua vida obscura. A maneira, porém, como isso foi trabalhado no roteiro de ‘Espiral – O Legado de Jogos Mortais’ é que faz a diferença: uma maneira cansativa e pouco crível de elencar os fatores no filme de Darren Lynn Bousman.

O drama do protagonista não convence, e Chris Rock empenha um tom ainda mais chato a seu personagem, que é um sujeitinho detestável. Aí vem toda o departamento de polícia, que parece ter sido montado em favor desse policial, com a delegada passando a mão na cabeça dele e tendo menos força que ele. Seguimos para o tal assassino, que levemente se inspirou em Jigsaw, mas na real não tem nada a ver com a filosofia da franquia. Por fim, a única coisa boa no longa é a atuação de Samuel L. Jackson – como sempre, um arraso. Fora isso, nem as cenas de tortura valem, por serem poucas, deslocadas e despropositadas.

A bem da verdade, ‘Espiral – O Legado de Jogos Mortais’ promete uma coisa e entrega outra. Valendo-se do nome forte da franquia, busca, com isso, atrair os fãs desse tipo de filme, porém, entrega um suspense policial fraco e sem quase nada de terror, o que gera decepção.

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.