segunda-feira, fevereiro 26, 2024

Crítica | Eureka – Viggo Mortensen Estrela Faroeste Dramático com Ator Indígena Brasileiro Adanilo Reis [Festival do Rio 2023]

Entre 2022 e 2032 a Unesco declarou a década das línguas indígenas no mundo. Para além disso, as questões referentes aos povos originários estão cada vez mais em voga, uma vez que não é mais possível ignorar a coexistência contemporânea das pessoas indígenas no mundo. Isso tem se refletido também no cinema, em produções nacionais e internacionais que buscam incluir, falar sobre e trazer à luz as pautas e reivindicações dos povos originários, seja em forma documental ou na ficção. Alguns filmes com essa pegada foram exibidos no Festival do Rio 2023, como o longa de ficção ‘Eureka’.

Murphy (Viggo Mortensen) viaja para um povoado no meio do deserto no Velho Oeste estadunidense atrás de sua filha desaparecida. Ao chegar lá, depara-se com um cenário degradante de bebedeiras, bang-bang e total descontrole. Tempos se passam, estamos agora em território indígena em Oklahoma, Estados Unidos, onde acompanhamos uma jovem policial em sua patrulha de ronda madrugada adentro às vésperas de uma nevasca cair na reserva. Ao mesmo tempo, conhecemos Sadie (Sadie Lapointe), moça indígena que trabalha ensinando basquete a jovens que tenham cometido pequenos delitos e precisem ser reinseridos na sociedade. Em uma terceira história, estamos no Amazonas brasileiro, acompanhando um pequeno grupo indígena contando os seus sonhos ao cacique, até que um deles (Adanilo Reis), se vê obrigado a deixar seu povo para trás e, sem escolhas, vai trabalhar com o garimpo.

Escrito a seis mãos por Lisandro Alonso, Martín Caamaño e Fabian Casas, ‘Eureka’ poderia ser dividido em três curtas com enredos independentes, mas faz muito mais sentido colocados um após ao outro entrelaçados por uma poesia de fundo que transforma esses eventos isolados em uma produção de longa-metragem. A intenção por detrás dos núcleos é traçar um panorama da situação dos povos indígenas nas Américas ao longo do último século: primeiramente, tendo seus territórios invadidos por conta do ouro e a representação caricata nos filmes de faroeste; em seguida, na contemporaneidade, a crise existencial e social que muitos corpos indígenas sentem por viverem em reservas constantemente ameaçadas, e, portanto, não conseguindo uma total imersão na sociedade, que não os reconhece; por fim (e talvez evidentemente), a história é trazida para o Amazonas, uma vez que esse local ocupa o imaginário coletivo de território ocupado por indígenas, onde voltamos às mazelas do ouro e do garimpo e de como ainda hoje esta prática atinge e prejudica as populações originárias.

Eureka’ é um filme com muitas camadas, belamente trabalhadas pelo diretor Lisandro Alonso, que ao mesmo tempo que faz crítica e alerta social sobre as violências infligidas aos povos indígenas em muitos aspectos, também faz uma autocrítica e um retrato de como anteriormente o cinema contribuiu para a construção dessa imagem do indígena como inimigo do Velho Oeste.

Hipnótico, com uma fotografia de tirar o fôlego e elementos metafóricos que transformam a narrativa circular, ‘Eureka’ é um filme impactante desde sua primeira cena, e experimenta diversos formatos e estéticas para contar uma história sufocada pela História. Dessas oportunidades únicas que um festival dá ao bom cinéfilo.

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