quarta-feira, abril 24, 2024

Crítica | ‘Ferrari’, drama biográfico com Adam Driver, tem uma direção sólida e um roteiro COMPLEXO

Michael Mann é um dos diretores mais reconhecidos da contemporaneidade e é responsável por uma série de produções cinematográficas que, além de sólidas investidas criativas, promovem um encontro entre o mainstream e a arte. Não é por acaso que o cineasta deu vida a títulos como ‘Miami Vice’, ‘Fogo contra Fogo’ e ‘O Últimos dos Moicanos’, mostrando como a linha entre protagonismo e antagonismo, muitas vezes, é mais tênue do que aparenta. Agora, Mann está de volta ao cenário fílmico com seu primeiro projeto oficial em nada menos que oito anos: a cinebiografia ‘Ferrari’, que conta a história do famoso magnata do mundo automobilístico Enzo Ferrari.

A trama nos leva de volta para os anos 1950, quando Enzo (Adam Driver) se preparava para a Mille Miglia, uma exaustiva corrida de carros de extensão de mil milhas que pode colocar em xeque ou em glória a marca pela qual lutou tanto para levar ao sucesso. Enfrentando problemas em seu casamento já falido ao lado de Laura Ferrari (Penélope Cruz), bem como os fantasmas de um passado não muito distante que tirou seu primogênito de seus braços, ele se lança a um trabalho infindável almejando ao prestígio, escalando uma equipe muito talentosa e que pode levá-lo à vitória contra seus competidores – a fim de salvar seu império de uma falência iminente.

Como é de costume em produções do gênero, lidamos com convencionalismos estruturais que já foram explorados ad nauseam na sétima arte, desde que o cinema se consagrou como cinema – ora, tivemos até uma recontagem da vida de Cleópatra, vivida por ninguém menos que a icônica Elizabeth Taylor na Era de Ouro de Hollywood. E, pensando nisso, Mann aposta fichas nesses arquétipos para fornecer a conhecida humanidade a um homem que, outrora, era tratado como deidade e como uma força intangível, permitindo que o público seja convidado a refletir sobre sua vida pessoal e sobre os obstáculos que enfrentou em um dos momentos mais cruciais de sua carreira. Enquanto essas investidas são bem familiares e puxam elementos similares de outros títulos, os clichês em potencial são diluído frente a uma performance inabalável de Driver, que navega pela unidimensionalidade comportamental do personagem titular à medida que o mostra mais vulnerável a tantos empecilhos.

Aqui, a ideia do diretor não é eternizá-lo como um homem intocável, e sim como um ser humano dotado de uma visão criativa inenarrável e com grande potencial para cometer diversos erros. Além do casamento que mantém com Laura, ele lida com a morte prematura de seu filho primogênito conforme navega na desequilibrada e temerosa sociedade italiana pós-II Guerra Mundial, escondendo os traumas ao se transformar em um workaholic inveterado; como se não bastasse, ele mantém um relacionamento adjacente com a jovem Lina Lardi (Shailene Woodley), com quem teve um filho bastardo que não consegue reconhecer legalmente frente aos cataclísmicos escândalos que isso desencadearia – apesar de proferir que ama ambos como nunca amou ninguém.

Enquanto Driver faz um trabalho sólido e que o reitera como um dos artistas mais versáteis do escopo contemporâneo, principalmente após ter participado de outra cinebiografia recente (‘Casa Gucci’, ao lado de Lady Gaga), há outros nomes que nos chamam a atenção. Cruz volta às telonas com uma magistral rendição; Woodley se restringe aos bastidores de um magnânimo império, mas sem deixar de explodir nos momentos (por mais que seu sotaque desvaneça em certos momentos); Gabriel Leone veste a camisa de Alfonso de Portago, um dos corredores selecionados para a equipe de Enzo, em uma exibição jovem e que entra em contraste com a experiência de seu chefe; Patrick Dempsey auxilia no ritmo e na comédia ao interpretar Piero Taruffi; cada qual com seu momento de brilhar.

Mann não fica atrás ao se apossar da condução do projeto, pegando tópicos que esquadrinhara em um passado não muito distante, e promovendo uma condensação de inúmeros estilos em um único cosmos. A jogada de campo-contracampo são marcadas por takes mais íntimos, pincelados com uma dura paleta de cores que se afasta o máximo possível das cores vibrantes – exceto quando voltada para a exuberância dos carros Ferrari (a única paixão verdadeira de Enzo). Porém, é preciso comentar que algumas escolhas falham ao desestabilizar a atmosfera arquitetada, como certos close-ups que não fazem muito sentido ou panorâmicas em cross-fade que deixam a desejar no tocante ao rigor e à beleza técnica.

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O roteiro de Troy Kennedy Martin é outro ponto a ser mencionado: conseguindo pegar os aspectos de maior importância do livro de não-ficção assinado por Brock Yates, é notável como a maior parte das incursões tem uma intenção significativa, fornecendo explanações acerca de uma pessoa que nunca foi pública, no sentido mais mercadológico da palavra. Entretanto, o resultado, apesar de cumprindo com o esperado, é intrincado demais para acompanharmos todas as reviravoltas e acontecimentos – com fatos sendo delineados em um frenesi inescapável. Em compensação, é preciso comentar que as mais de duas horas de tela passam em um piscar de olhos, cortesia da parceria entre Mann e sua talentosa equipe.

‘Ferrari’ tem mais acertos do que erros e, por mais que não seja livre de imperfeições, consegue apresentar uma obra aprazível e mais complexa do imaginávamos. De fato, a direção e as performances são os principais ingredientes que garantem o sucesso do longa e que nos convencem a mergulhar mais fundo no espectro de um dos maiores magnatas da história.

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Thiago Nollahttps://www.editoraviseu.com.br/a-pedra-negra-prod.html
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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