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Crítica | John Malkovich está de volta com a açucarada comédia dramática ‘Sr. Blake ao Seu Dispor’


John Malkovich alcançou o prestigiado status de lenda da performance após uma extensa carreira com algumas das melhores atuações das últimas décadas. Indicado duas vezes ao Oscar e dono de algumas rendições extremamente memoráveis – que incluem seu trabalho em produções como ‘Um Lugar no Coração’, ‘Ligações Perigosas’, ‘Juno’ e ‘Morte de um Caixeiro Viajante’, Malkovich eternizou seu merecido lugar na indústria do entretenimento e continua a nos encantar com projetos que, sem sombra de dúvida, mereciam mais reconhecimento. E, dois anos após ter chegado aos cinemas franceses, um título pouco conhecido finalmente será lançado em circuito nacional: Sr. Blake ao Seu Dispor.

A comédia dramática traz Malkovich como Andrew Blake, um recém-enviuvado que deixa seu vibrante cotidiano londrino para trás e resolve visitar um antigo e suntuoso casarão no interior da França, onde conheceu a saudosa esposa e onde se apaixonaram quatro décadas atrás. Porém, ao chegar lá, Andrew é confundido com um aplicante para a vaga de mordomo de uma mansão que, em algum tempo, se transformará em um complexo de hospedagem luxuoso. Ainda que a situação seja esclarecida com a governanta Odile (Émilie Dequenne), ele explica suas nostálgicas memórias com a propriedade e finge ser o tão aguardado mordomo da estonteante proprietária Nathalie (Fanny Ardant).



Divertindo-se com a ideia de passar por um “período de experiência”, Andrew logo percebe que as excêntricas pessoas que habitam a mansão são mais complexas do que imaginavam e escondem tristezas e ressentimentos em meio a sonhos que se esvaem como areia entre os dedos. Ainda que tentem manter a postura e tenham uns aos outros para se apoiarem, a chegada de Andrew fornece a engrenagem que faltava nessa imponente estrutura – e ele mesmo redescobre alguns sentimentos que acreditava estarem enterrados após o falecimento da esposa. A partir daí, ele mergulha em um coming-of-age tardio através do qual redescobre as pequenas belezas da vida.

A narrativa assinada por Christel Henon e Gilles Legardinier parte de um lugar bastante familiar e que, como podemos perceber, não oferece quaisquer vislumbres de originalidade. Porém, é muito interessante ver que projetos desse tipo ainda são produzidos, visto que a principal ideia de histórias assim é nos levar a um lugar fora de uma realidade cruel e opressiva, e mostrar que reavivar nossas esperanças na bondade do ser humano é sempre uma saída bem-vinda. Legardinier também se beneficia não só de ter assinado o romance original, mas de ocupar a cadeira de diretor e garantir que a essência de seu best-seller seja passada aos espectadores da maneira que pretende – e que, no geral, funciona dentro dos conformes.

A condução de Legardinier não foge muito dos convencionalismos do gênero, mas isso não posa como problema, e sim torna o trabalho de entender as escolhas imagéticas e estéticas muito mais fácil e tranquilo, acompanhando de perto o teor esperançoso do longa. A princípio, a sóbria e apagada fotografia assinada por Stéphane Le Parc faz questão de mostrar Andrew em planos separados dos outros personagens e, quando em um mesmo cômodo, garantindo uma distância entre ele e o restante dos funcionários da mansão.

Conforme o protagonista passa a conhecê-los e até mesmo a se acostumar às peculiaridades de cada um e ao “falso emprego” como mordomo, os planos encurtam a distância entre ele e os outros, trazendo vida e luminosidade de volta a uma propriedade que já não via felicidade há bastante tempo, visto que Nathalie ficou viúva há pouco tempo e ainda não conseguiu seguir em frente. Andrew, dessa maneira, tenta ajudar seus mais novos amigos e confidentes como pode, e é infundido em um processo de cura pessoal de que não sabia que precisava até pisar os pés no majestoso casarão.

Dentro desse espectro, Malkovich deixa se levar pela personalidade britânica de seu personagem, que transparece pelo adorável sotaque em seus verborrágicos diálogos franceses, e que reitera o magnetismo inenarrável de sua versatilidade performática. Ele encontra sucesso com uma sólida química com seus colegas, que incluem Philippe Bas como o faz-tudo Philippe e Eugénie Anselin como a ajudante Manon. Cada um deles tem seu momento de brilhar e é arremessado em arcos bem estruturados, mas não presunçosos a ponto de se perderem em ambições desnecessárias – e, ao se configurarem como construções arquetípicas, o trabalho de Legardinier se estrutura cena a cena.

Sr. Blake ao Seu Dispor não traz nada de novo ao gênero das comédias dramáticas, mas não se leva a sério para incomodar com incursões vazias e pretensiosas. Mesmo com deslizes óbvios, o resultado é aprazível o suficiente para nos arrancar alguns suspiros de felicidade, pautando-se num melodrama açucarado e eficaz.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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