No ano passado, 2020, Clarice Lispector completaria seu 100º aniversário. Dentre as muitas homenagens programadas (e adiadas, por conta do coronavírus) estava a estreia nos cinemas de ‘O Livro dos Prazeres’, uma livre adaptação ao audiovisual de um dos livros mais impactantes da escritora, ‘Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres’. Depois de participar brevemente da Mostra de São Paulo, o longa veio ao Rio de Janeiro para estrear em solo carioca no Festival do Rio 2021.

Lóri (Simone Spoladore) é uma professora da educação infantil que recém se mudou ao Rio de Janeiro para ocupar o apartamento da falecida mãe, no bairro no Leme, na zona sul carioca. Em um apartamento enorme de frente para a praia, dentre caixas e a falta de mobília, Lóri busca se encontrar nesta cidade, mesmo que, para isso, tenha que se perder. Assim, ela sai em busca de prazeres carnais sem distinção, como quem tem uma insaciável sede de viver por ter ficado por tanto tempo sob uma virtual proteção dos irmãos e do pai, no interior. Porém, tudo muda quando ela conhece Ulisses (Javier Drolas), um professor universitário de filosofia que a faz refletir sobre sua própria jornada.

Para além da escritora referenciada e da jornada da protagonista, ‘O Livro dos Prazeres’, em si, viveu sua própria trajetória, uma vez que é um projeto que durou dez anos para acontecer, tempo durante o qual atravessou muitas mudanças (inclusive no roteiro), amadureceu e, sobretudo, teve que se adaptar – uma das quais a aceitação do financiamento estrangeiro, o que fez com que a produção ganhasse um coprotagonista argentino que, não fosse esta importante justificativa, não faria diferença ser um personagem estrangeiro. Só por aí já é possível ter uma dimensão dos inúmeros desafios de se fazer cinema no Brasil, especialmente quando se é o primeiro longa de uma produtora e opta-se por fazer cinema arte, de público mais restrito. Portanto, todo filme com essas características que se conclui e estreia na grade nacional já é uma vitória.



Simone Spoladore mergulha na essência clariceana para viver uma de suas personagens mais icônicas no cinema. Lóri é pura angústia, conflito e, acima de tudo, uma urgência de sentir. Toda a carga emocional das crises existenciais, tão características de Clarice Lispector, são imprimidas pela atriz em sequências contrastantes de cenas de respeitosa nudez e, em seguida, de pura reflexão. Os abismos oriundos dos silêncios não ditos nas obras é, provavelmente, o mais difícil de se traduzir do trabalho de Lispector, e Simone atinge esse grau de entrega com um incrível trabalho de interpretação, dizendo muito mais com suas expressões contemplativa do que muitos diálogos filosóficos o fariam. Mérito também da diretora Marcela Lordy, que se empenhou para que esse resultado fosse alcançado.

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O Livro dos Prazeres’ presta devida homenagem à obra de Clarice, alcançando a essência desta que é uma das mais importantes autoras brasileiras. Para os leitores e estudiosos da obra, é um filme obrigatório e profundo; para quem ainda não leu nada da mais famosa moradora do Leme, é uma boa introdução para a espiral vertiginosa que é se debruçar sobre qualquer obra clariceana. Fiquem de olho, pois o filme chega aos cinemas brasileiros no primeiro semestre de 2022.



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