Crítica | Quando o Sol se Põe – Filme Gospel da Netflix tem Boa Intenção, mas não tem Técnica

É super importante que uma plataforma tão popular como a Netflix se abra para filmes representativos de um segmento que também quer se ver nas telas, que é o nicho dos filmes religiosos produzidos aqui mesmo no Brasil. Parece pouco, mas as maiores referências que temos de filmes do gênero vem em sua maioria dos Estados Unidos, então, é muito legal mesmo ter o gênero sendo trabalhado nacionalmente.

Dito isto, vamos à sinopse. Um grupo de cinco amigos parceirões estudam juntos na mesma faculdade e tem uma banda juntos, na qual tocam músicas gospel. Então, surge um festival de música, cujo prêmio é uma bolsa integral da faculdade e a gravação de uma canção em um estúdio profissional. O grupo de amigos decide participar da competição, até porque Adilson (Lito Atalaia) está com dificuldades financeiras para pagar a faculdade e precisa dessa bolsa. Só que o vocalista da banda decide abandonar o grupo, e agora os rapazes precisam encontrar um novo cantor.

Enquanto história, a trama é bem intencionada. Há diversos pontos de reflexão sobre os desafios da vida, a importância da união e da amizade para encarar o dia a dia, do quanto a fé impulsiona as pessoas mesmo nos momentos mais obscuros e a importância de colocarmos verdade e todo o nosso coração nas coisas que fazemos, pois quando vem do coração, é sincero.

Apesar de todos os sentimentos bons que ‘Quando o Sol se Põe’ busca despertar no espectador, falta à produção técnicas básicas de cinematografia. Escrito e dirigido por Fábio Faria, o longa dá a sensação de ter sido gravado no impulso, de acordo com o fluxo das ideias – o que gera um bocado de confusão no espectador. Por exemplo, o tal concurso de música, ao qual os personagens se referem o teeeempo todo e fingem ensaiarem, mal aparece no filme (surge literalmente nos últimos sete minutos do longa), e o próprio pai do aparente protagonista, Bruno (Filipe Lancaster), nem se interessa em ir ver. Outro ponto confuso é o protagonismo em si – a quem pertence? Quando o filme começa, achamos que a luz está em Bruno e seu grupo de amigos, mas, no segundo ato do longa a coisa muda e a história passa a ser contada pela perspectiva de Jeny (Priscila Alcântera), uma jovem que, sem nenhuma explicação, tem raivinha do pai e da mãe.

As inseguranças da montagem e da continuidade do longa não são os únicos pontos que alteram a recepção de ‘Quando o Sol se Põe’. Também o argumento gera dúvidas, apesar de caridoso. É que o tal festival de música que era para ser apenas uma coisa bacana para o grupo, em poucos minutos vira a única plataforma de salvação para Adilson, único negro do elenco. Seu personagem carismático é transformado em um pobre rapaz sem dinheiro que precisa do estereótipo do branco salvador para conseguir superar o desafio da vida – tanto que do segundo para o terceiro ato a personagem Jeny literalmente vai pedir dinheiro pros pais para poder pagar a faculdade do colega.

Apesar desses escorregões nos aspectos técnicos, ‘Quando o Sol se Põe’ é recheado de música gospel, cujas letras buscam trazem bem-estar e paz de espírito, e, no final das contas, é isso que muito espectador tem buscado ver nesse ano para se sentir bem.

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.