sexta-feira, fevereiro 23, 2024

Crítica | Quando o Sol se Põe – Filme Gospel da Netflix tem Boa Intenção, mas não tem Técnica

É super importante que uma plataforma tão popular como a Netflix se abra para filmes representativos de um segmento que também quer se ver nas telas, que é o nicho dos filmes religiosos produzidos aqui mesmo no Brasil. Parece pouco, mas as maiores referências que temos de filmes do gênero vem em sua maioria dos Estados Unidos, então, é muito legal mesmo ter o gênero sendo trabalhado nacionalmente.

Dito isto, vamos à sinopse. Um grupo de cinco amigos parceirões estudam juntos na mesma faculdade e tem uma banda juntos, na qual tocam músicas gospel. Então, surge um festival de música, cujo prêmio é uma bolsa integral da faculdade e a gravação de uma canção em um estúdio profissional. O grupo de amigos decide participar da competição, até porque Adilson (Lito Atalaia) está com dificuldades financeiras para pagar a faculdade e precisa dessa bolsa. Só que o vocalista da banda decide abandonar o grupo, e agora os rapazes precisam encontrar um novo cantor.

Enquanto história, a trama é bem intencionada. Há diversos pontos de reflexão sobre os desafios da vida, a importância da união e da amizade para encarar o dia a dia, do quanto a fé impulsiona as pessoas mesmo nos momentos mais obscuros e a importância de colocarmos verdade e todo o nosso coração nas coisas que fazemos, pois quando vem do coração, é sincero.

Apesar de todos os sentimentos bons que ‘Quando o Sol se Põe’ busca despertar no espectador, falta à produção técnicas básicas de cinematografia. Escrito e dirigido por Fábio Faria, o longa dá a sensação de ter sido gravado no impulso, de acordo com o fluxo das ideias – o que gera um bocado de confusão no espectador. Por exemplo, o tal concurso de música, ao qual os personagens se referem o teeeempo todo e fingem ensaiarem, mal aparece no filme (surge literalmente nos últimos sete minutos do longa), e o próprio pai do aparente protagonista, Bruno (Filipe Lancaster), nem se interessa em ir ver. Outro ponto confuso é o protagonismo em si – a quem pertence? Quando o filme começa, achamos que a luz está em Bruno e seu grupo de amigos, mas, no segundo ato do longa a coisa muda e a história passa a ser contada pela perspectiva de Jeny (Priscila Alcântera), uma jovem que, sem nenhuma explicação, tem raivinha do pai e da mãe.

As inseguranças da montagem e da continuidade do longa não são os únicos pontos que alteram a recepção de ‘Quando o Sol se Põe’. Também o argumento gera dúvidas, apesar de caridoso. É que o tal festival de música que era para ser apenas uma coisa bacana para o grupo, em poucos minutos vira a única plataforma de salvação para Adilson, único negro do elenco. Seu personagem carismático é transformado em um pobre rapaz sem dinheiro que precisa do estereótipo do branco salvador para conseguir superar o desafio da vida – tanto que do segundo para o terceiro ato a personagem Jeny literalmente vai pedir dinheiro pros pais para poder pagar a faculdade do colega.

Apesar desses escorregões nos aspectos técnicos, ‘Quando o Sol se Põe’ é recheado de música gospel, cujas letras buscam trazem bem-estar e paz de espírito, e, no final das contas, é isso que muito espectador tem buscado ver nesse ano para se sentir bem.

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