Colleen Hoover é uma das romancistas de maior sucesso comercial dos Estados Unidos e, no ano passado, um de seus best-sellers ganhou uma elogiada adaptação cinematográfica, chegando aos cinemas com o título ‘É Assim que Acaba’. Pouco depois do sucesso do longa-metragem, a autora assinou mais um contrato com a Paramount Pictures para a releitura de outro de seus romances, ‘Se Não Fosse Você’. Estrelado por Mckenna Grace e Mason Thames, o drama romântico chega às telonas do Brasil no próximo dia 23 de outubro – e, apesar dos gritantes clichês que se espalham pelo projeto, o resultado é bem mais positivo do que poderíamos imaginar.
A trama é centrada em Morgan Grant (Allison Williams), uma jovem cujos planos e sonhos foram colocados de lado quando, pouco antes de entrar na faculdade, ela descobre que está grávida. Casando-se com Chris (Scott Eastwood), namorado que conheceu ainda no colégio, Morgan dá vida a Clara (Grace), uma jovem que está descobrindo as belezas da adolescência ao começar a nutrir de um forte sentimento por um velho amigo, Miller Addams (Thames). Porém, a vida das duas vira de cabeça para baixo quando Chris morre em um acidente de carro ao lado da tia de Clara, Jenny Davidson (Willa Fitzgerald). Jenny, por sua vez, deixa para trás o filho recém-nascido e o esposo Jonah (Dave Franco) – e lança mãe e filha em uma espiral de frustrações, tristezas e decepções à medida que um segredo vem à tona.

Clara acredita ter sido responsável pela morte da tia, visto que trocava mensagens com ela na hora do acidente. Entretanto, Morgan e Jonah descobrem que tanto Chris quanto Jenny estavam no mesmo carro, levando-os a se perguntar e eventualmente descobrir que os dois estavam tendo um caso, colocando tudo o que conhecem em xeque e se questionando se será possível se recuperar após um baque tão impactante. Clara, por sua vez, lida com um pesar que toma conta de seu ser e a afasta de um outrora sólido relacionamento com a mãe, não entendendo as ressalvas para com Miller, cujo pai está na prisão, enquanto Morgan deposita na filha frustrações que vem coletando há quase duas décadas.
Josh Boone assume a cadeira de direção e mostra que não perdeu seu tato e sua honestidade para dirigir filmes de romance trágicos. Afinal, Boone emprestou suas habilidades para ‘A Culpa das Estrelas’, sólida releitura do romance homônimo de John Green, e repete o feito ao focar essencialmente na sutil complexidade dos personagens, tanto protagonistas quanto coadjuvantes, abrindo espaço para explorações familiares e intergeracionais que os transformam em arquétipos conhecidos e dialogáveis. Apoiando-se na expansível fotografia de Tim Orr, cada ato do projeto é construído a fim de nos guiar por uma emoção – esquadrinhando os cinco estágios de luto conforme os enquadramentos se fecham sobre os personagens, envolvendo-os em um ciclo inquebrável de melancolia.

A fotografia e a trilha sonora, esta assinada por Nathaniel Walcott, trabalham em simbiose tão contínua e intrínseca que chegam a ser redundantes, explorando a esperança em meio ao desalento e a bonança que vem após a tempestade – transfigurando cada beat e cada ápice sensorial ou com uma luz superexposta que envolve os personagens em uma costumeira aura de superação, ou com arranjos orquestrais antêmicos que os ajudam a ultrapassar um obstáculo e serem melhores pessoas. Não há nada fora do comum ou de original a se ver nos aspectos estéticos, mas esses também não são os objetivos da obra.
Williams e Grace brilham cada uma a sua maneira – e fazem isso tanto juntas quanto sozinhas: enquanto a dupla consegue vender a relação mãe-filha de forma fabulosa, elas encontram seu próprio caminho em busca da felicidade e procuram brechas para trazer um pouco mais de complexidade a suas respectivas personagens. É claro que escapar dos convencionalismos dos arquétipos que interpretam é difícil, mas tanto Morgan quanto Clara são construções sólidas o bastante para nos envolver e denotam o comprometimento das atrizes. A crescente relação friends-to-lovers entre Grace e Thames, este tendo participado da recente adaptação em live-action de ‘Como Treinar o Seu Dragão’, é motivo de destaque similar, ainda que o jovem ator seja ofuscado por sua companheira de cena.

Enquanto parte do público pode ficar cansado com a alta dose de momentos açucarados e melodramáticos, a adaptação de ‘Se Não Fosse Você’ cumpre com o esperado e se vale bastante do talento do elenco para alcançar um objetivo muito claro – entreter e levar os espectadores a refletir sobre a efemeridade da vida e sobre a busca da felicidade mesmo nas horas mais sombrias.
