Radha Blank appears in The 40-Year-Old Version by Radha Blank, an official selection of the U.S. Dramatic Competition at the 2020 Sundance Film Festival. Courtesy of Sundance Institute | photo by Jeong Park. All photos are copyrighted and may be used by press only for the purpose of news or editorial coverage of Sundance Institute programs. Photos must be accompanied by a credit to the photographer and/or 'Courtesy of Sundance Institute.' Unauthorized use, alteration, reproduction or sale of logos and/or photos is strictly prohibited.

Filme assistido durante o Festival de Sundance 2020

Quantas histórias foram engavetadas, descartadas e ignoradas. Em uma Hollywood que prima pela beleza plástica de corpos esguios e traços finos bem caucasianos, muitos desses contos ficaram por dizer. Jamais chegaram à grandes audiências, jamais puderam ser contemplados pelo público. Mas em um espaço como o Festival de Sundance, o inexplicável vira narrativa, o incomunicável ganha palavras e os underdogs começam a se expressar. E como fruto dessa pulsante representatividade, nasce o talento bruto e imensurável que Radha Blank é. É difícil de imaginar que em 2019 ela lutava entre os montes de neve e o frio congelante de Park City para financiar seu filme. Mas ainda bem que o pioneirismo da vencedora do Emmy Award, Lena Waithe, vai mais além. Assumindo o papel de produtora do projeto, ela fez com que The 40-Year-Old-Version chegasse à luz do projetor, tornando ainda mais difícil entender como essa deliciosa comédia semi biográfica quase permaneceu mais um ano no papel.

Aqui, Radha é quase uma banda de uma mulher só. Além de dirigir, a novata no cinema estrela e assina o roteiro desta que é uma das surpresas mais inesperadas vistas nos cinemas recentemente. Como uma mulher que está beirando os 40 anos, ela faz da comédia um relato pessoal e intimista do que significa adentrar a nova fase da vida, à medida que pondera as decisões do passado que a trouxeram ao momento que vive. E diante de uma carreira capenga de dramaturga – que vive da glória de outrora -, ela se vê como uma professora escolar de teatro, tentando voltar aos holofotes. No entanto, como normalmente acontece com qualquer artista negro, é necessário que ela embranqueça sua nova narrativa para que ela desperte o interesse das audiências brancas da média e alta sociedade. Nesse entremeio, sua paixão pelo rap se reacende, colocando-na em uma conflituosa bifurcação onde ela deve optar por se vender em prol de seu sustento pela arte ou tentar a vida em uma carreira dominada por homens bem mais jovens que ela.

Os conflitos de Rhada, acompanhados ainda pela recente morte de sua mãe e um desconfortável distanciamento familiar de seu irmão, ganham uma tonalidade deliciosa por meio do humor. Se apresentando com naturalidade desde sua primeira tomada em cena, ela mostra o quão dona é de sua própria história, trazendo-na à vida das formas mais reveladoras possíveis. Se livrando dos estereótipos que regiram a indústria cinematográfica por décadas a fio, a artista se apresenta como uma resposta genuína a essa problemática, sendo o frescor que faltava no meio. Autêntica e sem medo de rir de si mesma, ela nos convida a ponderar a vida e a cidade de Nova York pela perspectiva de uma mulher negra e plus size que está na labuta todo santo dia para tentar vencer na vida. Mais identificável do que boa parte dos personagens exageradamente hollywoodianos trazidos às telonas, ela é a essência do que a comunidade negra sempre quis ver na telonas, além de ser também um retrato genuíno e honesto da vida contemporânea entre indecisões, tecnologia, julgamentos e busca por identidade.

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Promovendo o riso com facilidade de forma constante, The 40-Year-Old Version faz mais pelo gênero da comédia do que muitas das produções lançadas nos últimos dois anos e protagonizadas por atores milionários. Sem medo de ser inconveniente até mesmo consigo mesma, ela extrapola seus limites e proporciona uma experiência vibrante do começo ao fim, sabe construir o seu humor de forma inteligente e pautada, usando até mesmo alguns aspectos comuns da cidade como um instrumento de riso. Tudo isso ainda é feito por meio de uma direção absolutamente autoral. Como alguém confortável no ramo que optara, ela dirige a produção com maestria, emprega sua própria identidade em seu primeiro filme e faz disso um posicionamento cativante. Ela mal chegou e já sabemos quem de fato é.

E essa autêntica direção faz toda a diferença na comédia, tornando-a de fato um novo clássico. Com um estilo que nos remete com muitas saudades aos filmes que eram apresentados no Festival de Sundance dos anos 80 e 90, a produção carrega esse efeito nostálgico impresso no filtro preto e branco granulado, que ajuda a fortalecer a premissa de que o longa seria um relato bem intimista de uma vida pela qual espiamos pela fechadura. Com personagens coadjuvantes que fazem um contraste delicioso no humor e no andamento da trama, The 40-Year-Old Version é quase impecável, com sua única falha sendo de fato em seu timing, que se estende demais, exagerando no uso das tomadas feitas com seus alunos de teatro. A premissa é compreensível, afinal, é este arco que promove a maior intensidade relacional entre a protagonista e a audiência. Mas seu roteiro é tão belamente ajustado, que esse sentimento é promovido logo nos primeiros 20 minutos de filme, descartando a necessidade da quase repetição de cenas. Ainda assim, The 40-Year-Old Version é – de longe – uma das melhores comédias feitas nos últimos anos.

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