quarta-feira, maio 29, 2024

Crítica | ‘Todo Dia a Mesma Noite’ age com cautela e respeito acerca da tragédia da Boate Kiss

No dia 27 de janeiro de 2013, uma das maiores tragédias nacionais acontecia na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul: um incêndio criminoso se apossou da Boate Kiss e arrancou a vida de 242 pessoas, ninguém foi, de fato, preso ou responsabilizado, mesmo com diversas provas apontando a irresponsabilidade tanto dos órgãos públicos quanto dos nomes por trás da estruturação da casa noturna. Em 2017, a jornalista investigativa Daniela Arbex lançou um livro narrando os acontecimentos do desastre e trazendo depoimentos inéditos dos sobreviventes e dos pais das vítimas, auxiliando na denúncia da negligência por parte dos promotores e fornecendo maior visibilidade ao caso.

Agora, tanto o acontecimento quanto o romance de não-ficção são levados à Netflix através da minissérie ‘Todo Dia a Mesma Noite’. Era apenas questão de tempo até a história ser adaptada em uma forma dramatizada – e tinha todos os elementos para cair nas fórmulas do gênero true crime (que agora vem encontrando espaço em solo brasileiro). Mas o resultado rema contra a nossa maré de expectativa e transforma-se em uma dolorosa homenagem aos jovens assassinados na Boate Kiss, sem se valer da espetacularização da catástrofe em questão e tomando a cautela necessária para entregar exatamente o que promete: uma perspectiva humana de uma mancha na história do país.

Ao contrário do que poderíamos esperar, a produção não pretende narrar os eventos anteriores que culminaram na fatalidade – afinal, como não houve um resultado sólido desde aquela época, não faria sentido analisar o que aconteceu antes. Logo, o primeiro episódio começa horas antes da tragédia, apresentando os protagonistas e coadjuvantes e de que forma a vida de cada um deles mudou em questão de segundos. E aqui, discorro o ótimo trabalho das diretoras Júlia Rezende e Carol Minêm, que unem forças não para utilizar das mágoas e dos traumas para ganhar visualizações ou dinheiro, mas para garantir que toda a angústia e o medo sejam sentidos pelo espectador. Desde os primeiros minutos, sabemos o que vai acontecer e nos sentimos enclausurados em um labirinto sem saída, acompanhados por uma frenética montagem e um jogo de luzes que atordoa e que tenta, ao máximo, refletir a realidade dos que faleceram naquela fatídica madrugada.

E, enquanto vários poderiam imaginar um foco maior na desgraça em si, a ideia aqui é fornecer voz e palco para, principalmente, os pais dos jovens. O incêndio é a força-motriz de uma congregação de pessoas que clama por justiça e que, uma década mais tarde, é obrigada a entrar e sair de tribunais esperando uma decisão que dê paz a eles e aos falecidos. Nesse quesito, a série funciona muito bem: apoiando-se na canetada cirúrgica de Arbex e no roteiro de Gustavo Lipsztein, o que temos é uma exploração de corrupção e incúria que se transforma em um drama legal movido a cenas de cortar o coração e de arrancar lágrimas do começo ao fim.

O elenco traz nomes como Thelmo Fernandes, Débora Lamm, Bianca Byington, Paulo Gorgulho e vários outros atores e atrizes estelares que fazem um sólido trabalho – ainda que alguns diálogos superexpostos tornem as performances um tanto quanto artificiais. Apesar disso e de breves equívocos técnicos, há um trabalho primoroso de foreshadowing evocado na primeira cena do piloto e que dita o tom do enredo e de como devemos compreender os episódios. A fotografia navega entre uma felicidade estonteante de cores quentes que logo dá espaço para o caos e para uma melancolia constante e justificável, pincelado pelos tons frios do azul que entram em conflito com as emoções à flor da pele. Uma das cenas de maior impacto é, sem dúvida alguma, o momento em que Ricardo (Gorgulho) e Lívia (Raquel Karro) chegam à Boate e correm pelo estacionamento para procurar o carro do filho – eventualmente descobrindo que ele estava na casa noturna e cedendo a uma constatação derradeira e dilacerante.

O grande mérito da minissérie é conseguir não se apoiar em imagens chocantes ou em explicitações condenáveis dos mortos, e sim utilizar os artifícios que lhe são dados para apostar fichas nas eternas consequências – ou seja, na desestabilização dos familiares, na falta de impunidade e na óbvia conivência do próprio Estado a uma calamidade sem precedentes. E, no final das contas, não podemos deixar de ficar comovidos com uma retratação fiel de pessoas que continuam a sofrer pela falta de aparato governamental e pela agridoce fé de que, em algum momento, isso irá mudar.

Não deixe de assistir:

‘Todo Dia a Mesma Noite’ é uma potente investida da Netflix que, não obstante as evidentes falhas, cumpre com o que quer mostrar – uma recontagem dos fatos através de uma humanizadora e bem-vinda exploração do incêndio da Boate Kiss. Dez anos depois, espera-se a justiça e, como apontado pelo frame final da obra, exaltamos a memória das vítimas por justiça e pela promessa de que isso nunca mais se repita.

Mais notícias...

Thiago Nollahttps://www.editoraviseu.com.br/a-pedra-negra-prod.html
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

Siga-nos!

2,000,000FãsCurtir
370,000SeguidoresSeguir
1,500,000SeguidoresSeguir
183,000SeguidoresSeguir
158,000InscritosInscrever

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

MATÉRIAS

CRÍTICAS

No dia 27 de janeiro de 2013, uma das maiores tragédias nacionais acontecia na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul: um incêndio criminoso se apossou da Boate Kiss e arrancou a vida de 242 pessoas, ninguém foi, de fato, preso ou...Crítica | 'Todo Dia a Mesma Noite' age com cautela e respeito acerca da tragédia da Boate Kiss