Há muitas barreiras que precisam ser quebradas nas narrativas audiovisuais. Uma delas é a constante construção de imaginário de que as histórias passadas em favelas e comunidades brasileiras necessariamente precisam envolver polícia, violência, tráfico – ao contrário do que vem sendo mostrado no audiovisual e na televisão, nestes locais a maioria dos moradores são pessoas comuns, trabalhadores, estudantes: pessoas que levam seu dia a dia como qualquer outro, com as dificuldades normais que qualquer cidadão brasileiro enfrenta – mas, claro, piorado por conta da marginalização e da exclusão social e financeira. Na contramão do que vem sendo produzido nacionalmente, chega essa semana aos cinemas a hilária comédiaVale Night’.


Vini (Pedro Ottoni) e Daiana (Gabriela Dias) são dois jovens na faixa dos dezoito anos que adoram curtir as noitadas e estão à espera do primeiro filho. É justamente numa balada que o bebê acaba nascendo, mas, seis meses depois, o casal começa a entender que a vida deles mudou drasticamente – ao menos para Daiana, que largou a escola para cuidar do filho e fica o dia inteiro em casa, cozinhando e limpando, enquanto Vini fica na rua, brincando de trabalhar e se divertindo com amigos. Quando a saudade da avó (Zezé Motta) bate, Daiana e sua mãe (Maíra Azevedo) decidem ir visitá-la, deixando a criança aos cuidados do pai. Por isso, Vini terá que tomar juízo na vida, porém, isso será mais complicado do que ele imaginou pois acontece justamente quando Linguinha (Yuri Marçal) é libertado e a DJ Pulga (Linn da Quebrada, bem antes do BBB) fará sua estreia na discotecagem da boate Batekoo.


Em aproximadamente uma hora e meia de duração, tudo em ‘Vale Night’ chama a atenção pela qualidade técnica que a produção entrega. Desde a sequência de abertura, com os nomes dos atores aparecendo colorido nos créditos, pulando na batida do ritmo que embala a cena inicial, à trilha sonora extremamente pulsante que faz com que nosso pezinho fique batendo no chão do cinema sem a gente nem reparar.

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Luis Pinheiro alcançou um trabalho praticamente impecável tecnicamente. No primeiro arco, para ambientar o espectador no espaço confinante, caótico e vibrante da favela, os planos-sequência seguindo o protagonista Vini carregando o bebê pelas ruas da comunidade são essenciais para mostrar que a vida desses moradores é um corre só, e é coletiva. Também o posicionamento da câmera se preocupa em não ter os olhos lineares do cinema padrão: ela se coloca por vezes abaixo, acompanhando as pernas dos personagens ou observando um desenrolar na laje de uma casa, pois a favela não é homogênea.

O roteiro de Caco Galhardo, Renata Martins e colaboração de Carla Meirelles é extremamente ágil, com diálogos que parecem improvisados, de tão naturais que saem da boca do trio principal – Pedro, Linn e Yuri. São eles que carregam a aventura em ‘Vale Night’ e garantem cenas hilárias em situações absurdas que, dada a competência dos três, fazem tudo parecer dentro da normalidade do surreal. Pedro Ottoni é engraçado naturalmente, e faz a gente ter raiva com a despreocupação de Vini para tudo.


Numa pegada dinâmica, rápida, empolgante e extremamente engraçada, ‘Vale Night’ é uma surpreendente comédia que chega aos cinemas para mostrar que a vida na favela não é só sofrimento e violência: há amor, afeto e comunhão na comunidade. Talvez tenha faltado apenas tornar essa mensagem mais evidente na produção, e também sobre a evasão escolar de meninas grávidas; com a aventura centrada no pai, o espectador dificilmente relaciona a responsabilidade feminina de ser a única cuidadora do lar como o mote do longa.

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