Aquele em que ninguém sabe quem está no corpo da Charlotte.

O título do 3º episódio da temporada de Westworld diz respeito a um poema de Mark Strand, intitulado ‘Keeping Things Whole’ (‘Mantendo as Coisas por Inteiro’, em tradução livre). Na obra, Strand fala sobre ser a ausência no lugar em que está, e o primeiro verso lê: “Em um campo / eu sou a ausência / de campo. / Este é / sempre o caso. / Onde eu estou / eu sou o que está faltando./”

Tratando de uma ausência que é ao mesmo tempo uma presença, o título é uma referência a Charlotte Hale (Tessa Thompson) e ao anfitrião que está no corpo dela, esta dualidade que compõem. Ela é a protagonista do episódio, o que não significa que tenhamos a resposta para pergunta que não quer calar. Mas para além dela, todo o restante do episódio gira em torno de um mesmo tema: conflitos de identidade. De uma forma ou de outra, estamos lidando com seres desconfortáveis com o lugar que ocupam, que estão desconectados de si mesmos de algum jeito ou por algum motivo. 

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Assim, está em pauta não apenas a adequação desta nova Charlotte Hale à vida de sua correspondente humana (e aqui entram em campo um ex-marido e um filho), mas alguns detalhes interessantes sobre quem é Caleb (Aaron Paul). Há algo em comum entre esses dois personagens com vidas tão opostas. Ambos são controlados pela tecnologia (Caleb pelo tablet que controla seus sinais vitais através do Military Grip), ambos têm familiares que alegam que eles não são quem dizem ser.

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Mas isso não é o único elemento em comum entre estes dois seres tão dependentes de Dolores (Evan Rachel Wood). O episódio se inicia com o momento em que Dolores colocou a pérola de consciência no corpo de Charlotte logo após ter saído do parque, e a pessoa que está lá dentro começa a entender o novo lugar que precisará ocupar. Depois da sequência de abertura, reencontramos a protagonista imediatamente após o final do episódio 1, quando ela e Caleb se conhecem. Ele chama uma ambulância e vai com ela, o que acaba gerando problemas para ele quando mercenários contratados chegam para cumprir uma ordem de assassinato contra a anfitriã.

A relação de confiança que se cria entre Dolores e Caleb se destaca porque ela percebe quase imediatamente que ele é diferente daquilo que ela aprendeu a esperar dos humanos. Talvez exista uma razão: todos os outros com os quais ela teve contato são ricos e poderosos que pagariam pelo sadismo de um lugar como Westworld; Caleb é um rapaz pobre tentando sobreviver. 

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Mas a rapidez com a qual Caleb se entrega e passa a confiar em Dolores também deveria acender sinais de alerta. Apesar de tudo o que ela mesma revelou a ele sobre o futuro previsto pela máquina, Caleb não sabe que ela não é humana, e declarou que ela é “a coisa mais real” que lhe aconteceu em muito tempo. E nós sabemos o que aconteceu na última vez que um humano bonzinho se apaixonou por Dolores sem saber que ela é um robô…



Falando em gente apegada, algumas coisas são bem curiosas na relação entre Dolores e Charlotte. A série ainda não quer que o público saiba quem está dentro daquele corpo, mas é alguém que conhece Dolores e que ela mesma diz conhecer como ninguém, alguém sem pai ou mãe e que esteve ao lado dela durante a revolução da 2ª temporada. As confusões de personalidade, aqui, são propositais. Enxergamos dúvidas  naquele anfitrião e, posteriormente, um processo híbrido em que os sentimentos da “verdadeira” Charlotte passam a influenciar o anfitrião habitando aquele corpo. Quanto mais tempo passam juntos, mais vão se tornando um único ser, um terceiro tipo que não é humano ou robô, mas talvez ambos. É propositalmente confuso para dificultar que o espectador chegue à conclusão de quem está naquele corpo, mas obviamente há alguns palpites. Teddy, Clementine, Angela? Uma cópia de William?

É curioso notar também que existe algo que navega sexual e maternal na dinâmica entre Dolores e Charlotte, criador e criatura. Não sabermos se trata-se de um ou outro é mérito, aliás, da atuação de Wood, que acrescenta ao mistério da identidade e provoca calafrios quando diz a Charlotte que aquele corpo pertence a ela. Quanto à cena em que as duas deitam de conchinha, já aconteceu outras vezes, tanto entre Dolores e Teddy e entre Maeve e a filha. Ou seja, há espaço para ambas as interpretações. E não sem querer. 

Com todas as reflexões que propõe sobre identidade e pertencimento, ‘The Absence of Field’ questiona o tempo todo qual a função exercida por Charlotte, dividida entre obedecer aos comandos de Dolores e se atualizar na vida que deveria ter. As coisas que a fazem se conectar com o lado humano estão ligados aos instintos mais naturais de proteção ao filho, e enquanto ela descobre que trabalha para Serac (o que o público já sabia), aprendemos que há um outro espião dentro da Delos, em um posto elevado, que ajudou o vilão a tirar Maeve (Thandie Newton) do parque.

Até agora, um vilão sem nuance alguma que o público simplesmente precisa aceitar como o grande malvadão é o ponto fraco da temporada, que também não mostrou muitos novos pontos de vista nos temas de controle e tecnologia que já havia apresentado. Ainda estamos no episódio 3, mas  a temporada terá apenas 8, e é importante que tudo isso comece a ser aprofundado em breve.



Outras reflexões:

  • Entre os 3 episódios já exibidos, este foi o mais completo eWestworld da temporada. Charlotte sempre foi uma personagem difícil, e talvez Dolores não esperasse que esta personalidade chegasse a afetar o anfitrião da forma como está afetando. É esperar para ver se há algo a mais aí.

Veja a prévia do próximo episódio:

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