Dois anos depois de ter lançado seu nono álbum de estúdio, Body Language, a rainha do dance-pop Kylie Minogue entraria em hiato em relação ao mundo da música devido ao diagnóstico de câncer de mama – vindo a revelar em uma entrevista ao Daily Mail que, durante suas reflexões acerca da vida, havia “se tornando ainda mais apaixonada pelas pessoas e pelas coisas que eu amava”. Em 2007, ela prometeria para seus fãs e para os críticos um comeback extremamente aguardado, mas o resultado não se dispôs como o previsto, com grande parte dos especialistas internacionais dizendo que a produção mimética e oscilante demais não conversavam com o nível de canções apresentadas pela artista ao longo de sua carreira.

Não demorou muito para que Minogue começasse a trabalhar no próximo álbum. As gravações ocorreram em 2009 ao lado de Stuart Price como produtor executivo – conhecido por seu trabalho em ‘Confessions on a Dancefloor’ e ‘Hard Candy’, de Madonna (e hoje, tendo abraçado o impecável Future Nostalgia, de Dua Lipa). Buscando recuperar a dançante introspecção e as sagazes letras de composições como “Come Into My World” e “Can’t Get You Outta My Head”, Price tinha um grande trabalho pela frente, ainda mais considerando que trabalharia ao lado de um dos nomes mais prolíficos da indústria fonográfico – e um dos mais perfeccionistas. Pouco depois, a dupla percebeu que seria melhor filtrar o número de mãos por trás das composições (considerando o bagunçado desenlace de X), permitindo que as faixas se nutrissem de uma clareza e uma sutileza maiores.

Em 30 de junho de 2010, exata uma década atrás, nasceu Aphrodite – e, com ele, renasceu uma popstar.

É um fato dizer que, no começo de sua carreira (ainda em 1988), a cantora e compositora australiana sofria na mão da mídia internacional e dos veículos especializados em música, sendo caracterizada como uma mera construção do entretenimento que vinha para tapar alguns buracos no cenário mainstream. Enquanto fazia sucesso em seu país de origem, Minogue era comparada inúmeras vezes a suas contemporâneas, como Cindy Lauper e a própria Madonna, à medida que seus singles e sua ascensão à fama eram analisadas em detrimento de algo original – em outras palavras, aproximando-se de um objeto criado pela própria arte mercadológica. Felizmente, ela viria a provar que todos estavam errados e que sua identidade sonora era única – apropriando-se tanto dos elementos que a colocaram em um merecido patamar de ícone musical quanto das tendências contemporâneas.

Aphrodite cumpriu o que prometia e resgatou sua glória: Kylie, agora, era uma fênix que ganhava o mundo mais uma vez com um CD que não apenas envelheceu muito bem, mas que, dez anos mais tarde, continua original, inovador e dançante ao extremo. Dominando as paradas da Billboard com seus quatro singles alcançado o topo da Hot Dance Club Songs, ela reencontrava a si mesmo com competentes e memoráveis rendições – além de ter tido a oportunidade de trabalhar com um dos produtores mais requisitados do momento. Mais do que isso, o álbum provou que ainda havia muito a se contar dentro do saturado gênero do dance-pop, fosse pela nostalgia, fosse pelo arrojo – afinal, “qual é o motivo de viver se você não quer dançar?”, como bem ela nos pergunta em “Better Than Today”.

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A resposta está em cada uma das tracks. Em uma ode ao início dos anos 2000 e uma explosão sonora que chafurda nos poderosos sintetizadores, nas batidas militares, nas construções-chiclete e até mesmo nos drills – com bridges invejáveis, letras enaltecedoras e uma celebração do amor e da música como nunca antes vista. Aqui, Minogue mostra que permanece como exímios vocais, variando da profundidade onírica em “All the Lovers” até o capricho excessivo do soubrette na canção titular e no sobrecarregado “Cupid Boy”, por exemplo. E, como se essas características não fossem o bastante, é notável pelas performances que ela se divertindo, nunca deixando que as ambiências construídas tirem foco de si, e sim trabalhem em conjunto.

Aphrodite regeria todos os álbuns que Kylie viesse a lançar nos anos seguintes, sempre estando presente, ao lado de Fever, em quase todas as composições – em detalhes minuciosos ou de forma mais gritante. No CD explorado nesse singelo artigo, temos a forte presença de algumas das melhores músicas da década passada, incluindo a irretocável “Get Outta My Way” (a qual, acompanhada de um poderoso videoclipe, traz um liricismo sobre um relacionamento obtuso que precisa ser reparado); as pueris e um tanto quanto convencionais “Put Your Hands Up (If You Feel Love)” e “Looking for an Angel”, que, se pecam no teor dos versos, ganham pontos pelo convidativo escopo sonoro; e entrega mais tensionada de “Closer”, movida principalmente pelo recuo imperial do órgão e do synth-dance.

Algo interessante a se notar – e talvez que tenha vindo para o melhor – é que a obra em si não é dotada do classicismo das baladas, tão presentes nas incursões dos gêneros supracitados. Temos, sim, um breve flerte existente no piano introdutório de “Everything Is Beautiful” e até mesmo nos vocais a capella de “Illusion”, ambos pavimentando um caminho que se alavanca em impulsos exuberante e envolventes. De fato, Minogue se afasta das fórmulas das declamações românticas, mas não as deixa de lado: ao lado de uma equipe técnica on point, nota-se que há o emprego de vulnerabilidades e uma alusão às andanças passionais – em arquiteturas inesperada e surpreendentemente coesas.

Aphrodite desvia-se e recupera-se do que quer nos entregar com tanta fluidez e propósito que chega a ser criminoso por acabar tão cedo. Sendo o melhor lançamento de Kylie Minogue desde 2001 – e, sem dúvida, um de seus mais consistentes -, o CD é um presente ótimo para ser revisitado com carinho e saudosismo por seus fãs (e por quem quiser conhecê-lo).

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