quarta-feira, abril 17, 2024

O Show de Truman | Como o filme estrelado por Jim Carrey incorporou a filosofia para falar sobre vigilância e liberdade

Os reality shows pertencem a um gênero do entretenimento que ganhou muita popularidade a partir do final dos anos 1980, com o lançamento de ‘COPS’. A produção, que acompanha a rotina de oficiais da justiça, foi pioneira nessa vertente televisiva e a responsável por fazer com que o público se apaixonasse por programas dessa estruturação – afinal, se pensarmos nos dias de hoje, é notável como ‘Big Brother’, ‘Casamento às Cegas’ e ‘RuPaul’s Drag Race’ (apenas para citar alguns) garantem picos de audiência para as emissoras e/ou plataformas de streamings. E, em 1998, o diretor Peter Weir resolveu construir uma narrativa épica para criticar e aprofundar as relações entre as pessoas e os reality shows – e foi assim que surgiu ‘O Show de Truman’.

Estrelado por Jim Carrey, a narrativa acompanha Truman Burbank, um homem de trinta anos que acreditar estar vivendo na normalidade. Entretanto, ele foi adotado legalmente por uma emissora de televisão para participar de um reality exibido 24 horas por dia e sete dias por semana ao mundo inteiro – em que os espectadores assistem a seu cotidiano. Comandado por Christof (Ed Harris), um magnata do entretenimento, a ideia do show é mostrar uma realidade não muito vista, em que uma pessoa, alheia da verdade, demonstra emoções reais e permite que o público se conecte com ela. E, enquanto Christof acredita que isso seja uma boa intenção e uma maneira bastante original de criar diversão, não podemos deixar de refletir sobre inúmeros temas que se relacionam com o enredo pintado.

O primeiro deles relaciona-se com diversas correntes da filosofia que discorrem sobre estruturalismo, como Michel Foucault. Conhecido por seus trabalhos sobre as relações do poder e o controle social emanado pelas instituições sociais, podemos pegar o conceito do panóptico para analisar a posição em que Truman está. Afinal, o panóptico consiste em um edifício em forma de anel, dentro do qual existe uma torre no centro e pequenas celas a rodeando. Dentro da torre, há um vigia que consegue observar cada um dos indivíduos que habitam a cela, sem que os “prisioneiros” consigam enxergá-lo de volta – que, de forma prática, reforçaria o autoritarismo e a obediência cega. Entretanto, Truman não sabe que esse panóptico existe, o que torna o controle sobre sua vida ainda mais duro, visto que ele sempre teve seus passos guiados pela atuação de outrem.

Nesse âmbito, Christof emerge como essa força invisível que tudo vê: sua onisciência é tradução de um contrato inalienável entre o que ele permite e o que ele recebe de volta – um reflexo do capitalismo predatório que ordenha. o máximo que pode de seu rebanho. Cada pessoa que cruza caminho com Truman é meticulosamente treinada para colocar uma máscara, garantindo que as ações do protagonista não sejam feitas por livre e espontânea vontade. Ora, até mesmo o clima da cidade em que vive pode se transmutar em questão de segundos.

As coisas começam a mudar quando, certa manhã, Truman passa a perceber eventos estranhos – como a queda de um holofote, uma transmissão de rádio que narra seus passos exatos e o reaparecimento do pai (que havia morrido em um naufrágio quando ele ainda era uma criança). A partir daí, o protagonista parece acordar de uma matrix que queria mantê-lo em cativeiro, fazendo absurdidades para escapar e, eventualmente, cavando um túnel em que estará longe das câmeras e poderá fugir de uma vez por todas. É claro que ele enfrenta diversos obstáculos no caminho, mas o glorioso grand finale tira o fôlego de qualquer um que assista ou reassista.

Ainda que a atmosfera cômica exista, as mensagens passadas pelo longa-metragem são importantes e gritam com uma urgência inenarrável. Temos a questão da vigilância, que é colocada em xeque pelo despertar de Truman; temos a questão midiática, em que Christof é representante de uma hegemonia controladora social que vende um produto como se fosse real, mesmo ele não sendo – uma questão que permeia o existencialismo e que abre portas para o controle não só do personagem em questão, mas daqueles que assistem. Conforme os comandos são dados, iluminação, trilha sonora e uma “atuação” pré-concebida encantam ou desencantam aqueles que assistem. Dessa forma, até que ponto somos livres e até que ponto passamos a pertencer a uma engrenagem muito maior e mais intrincada que o imaginado.

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A questão do controle é constante: Christof engendra uma narrativa falsa que é impressa como verdadeira para um infante que nem ao menos teve a oportunidade de existir como indivíduo. Truman é jogado sob uma opressão ferrenha em diversos estágios de sua vida – seja quando perde o pai, o que o leva a desenvolver talassofobia; ou sua paixonite por uma figurante, quando deveria se apaixonar por uma mulher em específico; ou quando os produtores percebem ser necessário cortar o mal pela raiz e garantir que seu desejo de explorar o mundo afora seja neutralizado. Christof, inclusive, o convence de que o mundo lá fora não tem nada de novo para oferecer-lhe – e que, dentro do programa, ele estará seguro.

‘O Show de Truman’ tem uma capacidade aplaudível de romper as barreiras do que significa fazer cinema e abrir espaço para importantes discussões filosóficas de liberdade e cerceamento. Não é surpresa que, mesmo 25 anos depois de seu lançamento, o filme continue mais atual do que nunca.

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Thiago Nollahttps://www.editoraviseu.com.br/a-pedra-negra-prod.html
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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