“Eu gosto de ousar, sempre fui assim”.

É com essa emblemática frase que resume-se a vida de Gal Costa, um dos maiores ícones da história da música brasileira que completou, recentemente, 75 anos de idade. Nascida em Salvador, a filha de Mariah Costa Penna, sua principal incentivadora, já foi indicada a nada menos que cinco Grammys Latinos e doze Troféus Imprensa e, além de ser considerada uma das melhores vozes do país, é um ícone ativo na luta da comunidade LGBTQ+, sendo assumidamente bissexual.

Sendo um dos estandartes da MPB clássica, Gal fez sua estreia em 1964, pouco depois da instauração da ditadura civil-militar no Brasil, ao lado de ninguém menos que Caetano Veloso (com quem compartilha uma amizade até os dias de hoje), Gilberto Gil, Maria Bethânia, Tom Zé e vários outros – e mais especificamente no aclamado espetáculo ‘Nós, Por Exemplo…’. Entretanto, seria um ano mais tarde que ela oficialmente faria seu début no mundo da música ao lado de Veloso, no dueto “Sol Negro”, seguido dos EPs ‘Eu vim da Bahia’ e ‘Sim, foi você’.

Desde então, Costa ascendeu a uma carreira meteórica da qual colhe frutos até os dias de hoje – afinal, dois anos atrás, ela fez o lançamento de 30º álbum de estúdio, ‘A Pele do Futuro’, afastando-se dos costumeiros estilos que explorara décadas atrás e finalmente abrindo as portas para o disco e para o soul. Como se não bastasse, ela se aventurou nas incursões ao vivo e divulgou 12 produções, sendo a mais recente no ano passado. Mas isso não é tudo: apesar de sua atividade contínua no cenário contemporâneo, é inegável dizer o legado de Gal permanece vivo mais do que nunca, em uma época em que a resistência é a arma de maior alcance dos artistas; afinal, ela foi uma das grandes representantes do movimento tropicalista dos anos 1960, o qual rompeu os preceitos tradicionalistas da música brasileira e universalizou a linguagem da MPB à emergente cultura jovem e à eletricidade da vanguarda erudita, realizando experimentações que ditariam as próximas décadas da fonografia nacional.

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À medida que a cantora e compositora se unia a seus colegas, ela investia em sua individualidade como mulher baiana e como expoente máximo de uma cultura que ainda tinha muito a oferecer – ainda mais ao se inserir no período pós-bossa-nova e ser influenciada pelo lendário João Gilberto. Não é surpresa que, enfrentando a reacionária ideologia que se erguia em meados dos anos 1970, realizou um intenso uso da imagem de seu corpo como um complemento de suas habilidades performáticas – chegando a fazer ensaios sensuais para veículos voltados à música. Dessa forma, ela não apenas transformava sua voz em uma poderosa “arma” reflexiva, mas também seu próprio ser. À frente de seu tempo e encarnando as correntes políticas que tomavam força nos Estados Unidos, ela incorporava as discussões feministas e se construía através de uma “aura de modernidade e erotismo”, podendo exercer a exploração de sua sexualidade através da autodescoberta, sem intervenção patriarcal.

Gal, assim como diversas conterrâneas (em especial em convergência com a revolução estética promovida por Rita Lee), une-se à arte e faz dela algo para além da pura mercadologia e da apreciação barata. Conforme anunciava uma sonoridade escapista, infundia críticas inteligentes, sagazes e pungentes àquilo que observava, transformando-se em um ousado enfrentamento do status quo. Talvez o espetáculo ‘Fa-Tal: Gal a Todo Vapor’ seja o maior exemplo disso que venho falando: o álbum ao vivo, lançado pouco tempo depois que Caetano e Chico Buarque foram exilados na Inglaterra por se oporem abertamente ao regime ditatorial, foi feito no Teatro Teresa Raquel e trouxe nada menos que 19 faixas, oscilando entre o enérgico panorama conduzida pelo Lanny Trio e a acústica de Gal e de seu violão. Através de um lirismo melancólico e de metáforas mascaradas, ela cantava, “meio amarga, que o sonho hippie acabou, que a cultura undergroud faliu”, deixando claro que “a orientação desse show é a renovação do repertório”.

Diferente de outras artistas que imediatamente vêm à mente quando nos transportamos para o período integrado entre os anos 1960 e 1980, Costa se afastou da visão unilateralista dos “vocais” e percebeu que o comportamento imagético de um cantor era de extrema importância para transmutar as canções em solilóquios vibrantes de sentimentalismo e exegese alegórica. Seu tripé artístico embasava-se, como supracitado, na influência de João Gilberto e no sólido momentum que provocara no mundo inteiro – e que permitiu que Gal viesse à tona como uma performer internacional -, na sexualidade e nas complexas e ricas camadas que apresentava ao público e, principalmente, em sua transição e justaposição exímia das raízes brasileiras ao rock, praticando tudo o que se espera, hoje, dos astros e das divas que aprendemos a amar.


Gal Costa não é um produto pré-fabricado e carrega uma versatilidade e uma abrangência estilística invejável que, atualmente, são utilizadas como motes para produzir coisas que fogem ao convencionalismo e que prestam homenagem aos primeiros grandes revolucionários. Mais do que isso, Gal vive por si mesma e alimenta-se daquilo que é compreendido pelo público, mesmo após tanto tempo no centro dos holofotes. E, se há algo que ela realmente nos ensinou, é que arriscar-se nunca é demais – e que o resultado desse altivo atrevimento pode ser bem mais satisfatório do que imaginamos.

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