Dizer que a indústria do entretenimento é controla pela conservadora e diminuta mentalidade do machismo é cair na redundância.

Não é preciso ir muito longe na história para ver como essa frase permanece verdadeira – é só olharmos para o cenário musical dos últimos vinte ou trinta anos. Décadas depois, a ousadia feminina é vista com desprezo ou como histeria passageira, principalmente quando as mulheres falam abertamente sobre a criatividade sexual, sobre o domínio acerca do próprio corpo. Christina Aguilera passou por isso quando ousou quebrar a identidade que vinha apresentado em ‘Bionic’, cuja estética marcante e mimética ao BDSM e aos fetiches com látex regeu o EDM apresentado em suas faixas; depois de ‘ARTPOP’, Lady Gaga foi declarada como morta pela mídia por não saber mais o que fazer – quando, na verdade, tomava as rédeas de seu experimentalismo para uma subestimada produção regada a synth-pop; Miley Cyrus foi tachada de “exagerada” quando resolveu amadurecer e investir em uma imagem propositalmente provocativa.

Mas nada disso seria ao menos trazido em pauta se não fosse por Madonna.

A rainha do pop, que começou sua carreira com hits bastante mercadológicos e esperados de uma jovem que começava a se aventurar na esfera fonográfica, talvez se encontrasse defronte a um beco sem saída quando buscava revitalizar a si mesma – ainda mais depois do lançamento de ‘Like a Prayer’. Com inflexões que tangenciavam questões feministas e de empoderamento (“Express Yourself” permanece até os dias de hoje como uma crítica e necessária canção), estava na hora de dar um passo além – muito além e fora de qualquer viés que alguém poderia prever. E, colaborando com Shep Pettibone, que já havia trabalhado com Madonna em “Vogue” e “This Used to Be My Playground”, e com o fotógrafo fashion Steven Meisel, surgiram as duas iterações mais polêmicas de sua carreira: Erotica e Sex.



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Confessional, explícito e recheado de metáforas ardentes, o quinto álbum da performer foi duramente criticado e, revisitado conforme os anos se passado, adquirindo um estado de aclamação universal que serve de inspiração para aqueles que desejam fugir da zona de conforto e do monótono patriarcado que infelizmente rege a sociedade em que vivemos. A ambição de Madonna não se restringia a um mero exibicionismo, a uma rebeldia sem causa – e sim a uma dura crítica à santificação egocêntrica que homens faziam acerca de questões sexuais. O corpo da mulher, seguindo padrões antiquados que datavam desde a mitologia católica, era intocável – exceto quando o objetivo era a reprodução. Mas e quanto ao prazer? E quanto ao toque, aos íntimos desejos de autorrealização que se escondiam em camadas e mais camadas de opressão estrutural?

Chamar Erotica de “obra despudorada e desavergonhada”, como certos críticos e até mesmo fãs caracterizam o CD, é ser reducionista e quase cometer uma blasfêmia. Ao longo de catorze faixas bastante coesas e um profundo liricismo que seria revisitado no ácido ‘Bedtime Stories’, por exemplo, Madonna abria espaço para conversas sobre relações íntimas entre pessoas do mesmo sexo – chamando nomes como Isabella Rossellini e Naomi Campbell para acompanharem-na na instigante aventura fetichista de Sex (que também traria a encarnação do alter-ego Dita) -, levantando discussões acerca da epidemia de HIV/AIDS que erroneamente era associada a um “castigo divino enviado para punir os homossexuais”, dialogando com a terceira onda do feminismo (que discorria acerca de individualidade e do interseccionismo) e, mais do que tudo, quebra de tabus.

Folheando através do livro, que tornou-se um artigo de colecionador para os fãs dessa titânica artista, Madonna explora um lado intencionalmente pervertido que foge da simplória espetacularização e mergulha de cabeça em uma essencialidade que não foi bem recebida à época e que, hoje, serve uma sexualidade hardcore que decretou o “fim” de sua carreira – fosse pelo apelo imagético, condenado por porta-vozes do movimento feminista e do movimento anti-pornografia, fosse pelo fracasso comercial que a fez despencar nas paradas dos Estados Unidos. E, enquanto Madonna já comentou em diversas entrevistas que carrega certos traumas de uma era que acredita não ter sido bem aproveitada, ela parecer subestimar o poder que Erotica e Sex tiveram, inclusive quando analisamos carreiras atrevidas e deliciosamente desaforados que conquistam nossa atenção dia após dia.



1992 foi, sem sombra de dúvidas, o período mais conturbado da vida profissional da rainha do pop – e ganha camadas mais obscuras quando pensamos na “má publicidade” feita por uma mídia que estava acostumada a papéis de gênero engessados e que não permitiam descarrilamentos no trilho do “tradicionalismo familiar”. No final das contas, isso não importa: Madonna mostrou o dedo para um mundo que não estava mais disposta a aceitá-la, simulando orgias em apresentações ao vivo e referenciando com cinismo aplaudível (vide “Human Nature”) a hipocrisia das pessoas que rechaçavam sua liberdade. Desde agressivas aparições em entrevistas até uma alegada imagem autodestrutiva, a “perfeita e icônica deusa de ‘True Blue’ havia desaparecido”, conforme mencionou Lucy O’Brien em 2008.

Rotulada como infantil e impetuosa, se Madonna causou tanto furor, é porque continuou trilhando o caminho certo – e o receptáculo Bauhaus que essa sempre surpreendente mulher arquitetou em tão pouco tempo é motivo de revisitação sempre que possível, principalmente se você deseja entender o que é uma revolução de verdade.

Madonna é uma integrante essencial de um seleto grupo de ousadas mulheres artistas que não se incomodam com o backlash que irão sofrer – e uma das principais peças de uma cronologia recheada de obras-primas subestimadas que variam desde a presença diabolicamente clássica e “importuna” de Marlene Dietrich à transfiguração estética e contemporânea de Gaga.



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