Quando ouvi Witness, quinto álbum de estúdio da super-celebridade Katy Perry, pela primeira vez, não consegui entender muito bem a que estava sendo apresentado. Depois de quatro álbuns extremamente coesos e dançantes – com baladas muito bem estruturadas ao longo de pop-bangers envolventes e convidativos -, sua mais nova entrada na indústria fonográfica me passou um sensação campesina e circinal demais para ser levada a sério. Ao longo de dezessete faixas (referindo-me, aqui, à versão deluxe), Perry parecia travar uma batalha consigo mesma para terminar as faixas sem cair na repetição, sem perceber que esbarrava nas ruínas do formulaico mais de uma vez e não sabia em que direção seguir.

O resultado não demorou muito para aparecer: apesar de ter estreado em primeiro lugar na parada da Billboard 200, o álbum foi recebido com pesadas críticas que detonavam as concepções do extenso time de produtores e dos variados estilos musicais que uniam-se em uma amálgama gritante e conturbada que tentava ser tudo e nada ao mesmo tempo. Perry, um ano depois da estreia do CD, havia declarado ao NY Times que havia mergulhado em uma “situação depressiva” e com o “coração partido”.



“Eu ponho muita validade na reação do público, e o público não reagiu da maneira que eu esperava”, ela comentou. Não é surpresa que ela tenha saído para uma espécie de retiro espiritual para se curar da frustração, demorando nada menos que dois anos para fazer um sólido comeback com “Never Really Over” (uma das melhores canções de 2019 que inclusive entrou para nossa lista de fim de ano). Entretanto, a carreira outrora meteórica da artista parecia injustamente estagnada em sucessos medianos, estendendo-se até o recente lançamento do sólido e pueril “Daisies”. Claro que, em comparação com nomes novos no cenário fonográficos, ela ainda apresentava-se de maneira competente e bastante nostálgica (nos relembrando das erasPrism e Teenage Dream), mas nunca chegando à aclamação comercial e crítica que recebera no início da carreira.

Três anos depois do début de Witness, resolvi dar mais uma chance ao álbum, tentando focar exatamente no que deu errado – e o resultado tardio é um compilado de poderosas letras e um conceito futurista e à frente de seu tempo que luta para ganhar espaço em meio a uma gestação confusa, recheada de estilos que não deveriam ter vez (pelo menos não com aquilo que Katy planejava nos entregar). Afinal, durante a construção da obra, a cantora havia declaro que seu adeus ao colaborador de longa data Dr. Luke representaria o início de uma era completamente reformulada, da qual estava muito orgulhosa – uma era de ressignificação do pop para algo mais pessoal e autocrítico quando em comparação aos mercadológicos hits que vinha entregando.

Oscilando entre dois espectros de uma mesma sonoridade, Perry havia percebido o quão libertador era resgatar controle daquilo que sempre amou fazer: música. Utilizando sua mentalidade reaberta depois de um considerável hiato, ela decidiu unir-se a um time criativo que a auxiliaria a trazer temas nunca antes vistos (ou infundidos com batidas mascaráveis), incluindo desconstruções acerca de estereótipos femininos, empoderamento, um sutil flerte com a nova onda do feminismo e até mesmo metáforas políticas inteligentes – o que nos leva ao primeiro single, intitulado “Chained to the Rhythm”. A música é um implacável híbrido disco-dancehall que puxa elementos até mesmo do noventista house-pop, guiada por letras ácidas de descontentamento com o governo de Donald Trump (recém-elegido como presidente dos Estados Unidos e principal motivo por ter transformado a performer em uma “inimiga” nacional). A ilusória sensação de liberdade, que insurgiria como temas de outras faixas adjacentes, é o mote com o qual Katy trabalha com tanta paixão.

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Entretanto, é sabido o que acontece quando uma mulher ousa falar mais alto numa sociedade conservadoramente hierárquica: boicote. Não digo apenas em relação a números, mas em relação à própria recepção artística de uma imagem que não segue os padrões. Como fica provado com a futurista “Roulette” (facilmente a melhor rendição do álbum) ou com o simbolismo didático de “Swish Swish” (com uma viciante batida digna dos anos 1990), Katy encontrou a sua voz para falar o que pensa – e, da mesma forma que tantas outras artistas, foi silenciada por uma força maior. O mesmo acontecera a Dixie Chicks e sua brutal queda depois de um posicionamento político contra o presidente George Bush, ou até mesmo à Christina Aguilera e à Lady Gaga depois de discorrerem sobre tabus como sexo, drogas e irreverência artística.

Enquanto é visível uma enraizada problemática que vai além da nutrição musical, Witness está longe de ser um álbum ruim; questionavelmente controverso, diria. Afinal, em meio a tantas declamações para serem feitas, Katy acabou dando vida a algo, como citado alguns parágrafos acima, amorfo demais para alcançar o status de palpável. “Déjà Vu” mergulha de cabeça no house-club e nos conquista por sua narcótica ambiência dark, mas é sucedida por uma série de composições sem pé nem cabeça cujos conceitos (talvez à frente de seu tempo, talvez tendo dado de cara com algo que não estava programado) foram varridos para debaixo do tapete. O grande deslize, eventualmente, molda-se no desperdiçado potencial e no acatamento de um paradigma prosaico que tangencia a trivialidade – algo que não deveria ter espaço, mas esparrama desde o princípio com a oscilante faixa titular até baladas como “Save as Draft” e a incompreensível “Act My Age”.



Katy Perry, em seu último álbum de estúdio, mostrou que está disposta a correr riscos grandes para investir em sua versatilidade e, ainda que nem tudo tenha corrido como o planejado, ela entregou ao mundo um capítulo novo de sua carreira – que esperamos que tenha reconhecimento o quão antes possível.

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