Lançado em 1996, O Corcunda de Notre Dame continua, até os dias de hoje, como um dos títulos mais controversos do panteão Walt Disney – não por trazer mensagens subliminares ou preconceitos mascarados, mas sim por investir em uma temática de maior obscuridade que as obras anteriores.

A animação, dirigida por Gary Trousdale e Kirk Wise, é uma das principais adaptações do clássico romance homônimo de Victor Hugo, apesar de mudar pontos-chave da narrativa para apresentá-la a um público jovem. O livro, publicado pela primeira vez em 1831, é um dos ícones do movimento romântico francês e, assim como ‘Os Miseráveis’ (também assinado pelo autor), traz inúmeras reflexões antropológicas através do contraste entre os valores enraizados do clero e das camadas marginalizadas da sociedade, como os ciganos. Tanto na original quanto na releitura da Casa Mouse, o enredo é centrado em Quasímodo, um homem corcunda que vive no alto de Notre Dame e sob a tutela do arquidiácono Claude Frollo, um religioso que luta contra atos pecaminosos, mesmo que se renda a eles constantemente.

Adaptar uma obra de tal peso para os cinemas, principalmente para uma audiência tão específica e dentro de um gênero que não admitia muitas ousadias – e talvez isso explique o relativo fracasso quando comparado às produções da época, inseridas num momento conhecido como a Era da Renascença Disney. O Corcunda de Notre Dame fez um modesto barulho nas bilheterias, arrecadando US$325,3 milhões mundialmente a partir de um altíssimo orçamento de US$100 milhões. A encargo de comparação, ‘A Pequena Sereia’, lançado em 1989, e ‘A Bela e a Fera’, de 1991, tiveram budget relativamente pequeno e, para além da aclamação universal, fizeram um estouro comercial, chegando até mesmo a ofuscar outras iterações conterrâneas.



A verdade é que a animação em questão já vinha em um contexto conturbado, em que parcelas tradicionalistas da sociedade já vinham reclamando pela manutenção dos valores e da ética familiar – e não aceitavam algo que fugisse do padrão. É claro que esse fator não foi decisivo para a morna estreia da produção, visto que a Disney sempre apostou em construções fantasiosas para passar mensagens positivas aos jovens espectadores. E, à medida que o roteirista Tab Murphy, ao lado de sua extensa equipe criativa, folheava as páginas do romance de Hugo, talvez tenha tirado tanto da essência crítica do romance que moldou a história a seu bel-prazer, sem perceber que as análises calcadas eram fortes demais para serem compreendidas.

Para aqueles que não se recordam, o filme trouxe no elenco de dublagem nomes como Tom Hulce, Demi Moore, Tony Jay e Kevin Kline e focou primariamente em Quasímodo, que foi “acolhido” por Frollo após este matar sua mãe, tornando-se o responsável por tocar os sinos da catedral. Protegido do mundo exterior, Quasímodo tinha apenas as divertidas gárgulas da torre para conversar, mas ansiava por conhecer a trupe de ciganos que passava pelas ruas de Paris e aventurar-se pelo mundo – bem como tantos outros protagonistas da Casa Mouse. Entretanto, não é essa otimista história (que já sabemos como termina) que nos prende, e sim a obscura condução de cada subtrama que se espalha em cada persona.

Ambientado no século XV, no reinado de Luís XI, a tensa situação entre líderes religiosos, uma monarquia decadente e a ascensão de grupos minoritários em uma comunidade segregada também foi levado ao filme de 1996 sem muitos filtros por assim dizer. Esmeralda e Frollo, duas forças opostas que representam a justiça e a impunidade, respectivamente, conflagram-se com diálogos pesados que soam muito familiar aos discursos de resistência e de lutas de classe; a caça dos soldados franceses e a hostilidade anticiganista é traduzida com ameaças de morte e de humilhação pública; a utilização de truques de ilusionismo é também reminiscência do período inquisitorial da Europa medieval, em que o incompreensível era visto como algo demoníaco e passível de condenação eterna.

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Diferente de tantas outras obras, a unidimensionalidade dos personagens é deixada de lado por uma complexidade interessante e, por esse motivo, fora dos padrões de simbologia que os realizadores da Disney costumavam imprimir. Frollo reza à Virgem Maria para que o livre dos desejos luxuriosos que têm para com Esmeralda, descontando a raiva acumulada em preces contra a danação eterna e contra o feitiço que a cigana jogou contra ele (vide “Hellfire”, uma poderosa canção de ressentimento e de vingança divina); Esmeralda, retratada como uma gentil mulher, não se cale perante iniquidades e autoritarismos, sempre buscando livrar a comunidade a que pertence de sofrer com represálias injustificáveis; Quasímodo, enfrentando a própria deformidade e aquele que outrora considerava como pai, é acolhido pelos ciganos e percebe que a beleza vai muito além da superficialidade; e até Phoebus, capitão da guarda de Frollo, pondera a moral que lhe foi destinada ao se aliar a Esmeralda.

Na iminência de seu 25º aniversário, O Corcunda de Notre Dame permanece como um subestimado e controverso título da Disney – criticado pelos fãs de Hugo, pelos cinéfilos e pelos especialistas em virtude de um desequilíbrio temático e criativo que não parecia adequado a ninguém. Entretanto, são essas mesmas razões que demonstram a importância e a ousadia da animação em fugir dos preceitos solidificados do gênero e abrir discussões que, anos depois, ganhariam os palcos do cenário mainstream.

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