Quando Ata-me (parte do acervo atual da Amazon Prime Video) foi lançado há trinta anos, o cultuado cineasta espanhol Pedro Almodóvar já possuía um currículo confortável e bem-sucedido, colecionando em sua filmografia 14 curtas e 8 longas-metragens, incluindo obras famosas como Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988) – seu lançamento anterior. Mesmo assim, Ata-me surgia sob o manto da polêmica, sendo considerado seu filme mais controverso até então. Ata-me é uma história de amor onde o romance floresce de um relacionamento abusivo – que envolve sequestro e agressões físicas e psicológicas -, gratificado com um final feliz. É um filme de terror no qual o vilão ganha a mocinha no desfecho e os dois saem juntos de mãos dadas rumo ao pôr do sol.

Ata-me teve sua pré-estreia em Madrid no dia 12 de Dezembro de 1989, mas foi lançado oficialmente em grande circuito pela Espanha no mês seguinte, em 22 de Janeiro de 1990. Nos EUA, onde Almodóvar possui grande prestígio mesmo sem nunca ter filmado por terras hollywoodianas (apesar de inúmeras ofertas e alguns longas produzidos no idioma – como as colaborações da diretora Isabel Coixet com a atriz Sarah Polley, Minha Vida Sem Mim e A Vida Secreta das Palavras), chegou no dia 4 de maio cercado de problemas com a censura – tópico ao qual voltaremos daqui a pouco.  No Brasil, a estreia do filme ocorreria no dia 30 de novembro do mesmo ano.


Nono filme escrito e dirigido por Almodóvar, Ata-me tem claras influências no cinema de gênero, e embora o cineasta tenha ensaiado anteriormente em obras como Matador (1986) e A Lei do Desejo (1987) um flerte com o thriller, aqui foi onde o terror adentrou pela primeira vez em sua filmografia. Ata-me pulsa com referências e homenagens ao gênero: desde um cartaz do clássico Vampiros de Almas (1956) estrategicamente colocado na parede, passando por um dos personagens assistindo ao quintessencial filme de zumbi A Noite dos Mortos Vivos (1978), o fato da personagem principal estar gravando uma produção no estilo dos giallo de Dario Argento, até a trilha sonora incisiva do saudoso Ennio Morricone (falecido em julho aos 91 anos) e a história que fala sobre um maníaco saído de um hospital psiquiátrico para atormentar sua vítima, tirada de Halloween – A Noite do Terror (1978), de John Carpenter.

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Na trama, Ricky (Antonio Banderas), um desajustado social com habilidades práticas, é liberado por um juiz de seu cativeiro num hospital psiquiátrico depois de inúmeras irregularidades – como relacionamentos sexuais com a diretora e as enfermeiras do local e algumas fugas da instituição. Numa destas escapadas conheceu Marina (Victoria Abril), ex-artista pornô transformada em atriz de filmes B de horror, por quem se apaixonou. Ao se encontrar de volta em sociedade, após alguns pequenos furtos Ricky faz de sua missão se reunir ao objeto de afeto. Para isso, o sujeito desequilibrado de 23 anos começa a stalkear sua vítima nos sets de seu novo filme, segui-la até em casa, invadir seu apartamento, agredi-la fisicamente e mantê-la como refém, amarrada e amordaçada (daí o título da obra) até que esta se apaixone perdidamente por ele, assim como ele é por ela.

O clima de tensão se mantém pela projeção, até mesmo nos trechos finais, onde a possibilidade de Marina escapar continua se apresentando para que fiquemos na expectativa de sua liberdade, mesmo que a esta altura o apreço da protagonista por seu captor tenha aumentado consideravelmente, inclusive, sendo este um filme de Almodóvar, tendo rendido uma tórrida cena de sexo entre os dois – a qual o icônico Elia Kazan chamou de “uma das melhores cenas de sexo que ele havia presenciado”.  Almodóvar faz tudo para humanizar o algoz, criando um “adorável violador” na figura de Ricky, seja dando-lhe um passado melancólico de abandono, um retrato antigo dos pais e um desejo de voltar à sua pequena cidade. E Banderas se torna a alma do filme, um personagem interessantíssimo, embora extremamente condenável. Uma versão romântica do Alex DeLarge (Malcolm McDowell) de Laranja Mecânica (1971).


O problema maior, hoje, reside em Marina, a protagonista feminina tratada como objeto de luxúria e desejo, sem muito poder dizer ou fazer, até que de fato ceda às vontades de seu opressor. Voltando ao tópico da censura do filme no conservador Estados Unidos da América, Ata-me promoveu uma ação judicial contra o órgão responsável pela restrição do público norte-americano, o MPAA. Ou melhor, a Miramax, estúdio responsável por levar a obra de Almodóvar ao país, moveu a ação.  Segundo Almodóvar, o órgão não via como adequada a classificação etária R, mesmo depois de cortes realizados (menores de 17 anos somente acompanhados de responsáveis) – a censura mais alta então -,  por temerem que o filme incentivaria jovens a sequestrarem as mulheres que desejavam. O que restava para Ata-me era a censura X, a mesma utilizada para produções pornográficas.  Com a Miramax perdendo o processo, o longa foi lançado sem censura. No entanto, logo após, em setembro de 1990, foi criada pelo MPAA uma nova classificação, a NC-17 – que proíbe categoricamente qualquer menor de 17 anos de adentrar tais sessões, mesmo com responsáveis. Ata-me tem crédito por esta instauração, ao lado de dois outros filmes: Retrato de um Assassino (1986) e O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante (1989).

Com a crítica da época o filme também dividiu avaliações, com o New York Times, o Chicago Sun-Times de Roger Ebert e a Entertainment Weekly demonstrando pouco apreço, e o Washington Post saindo em sua defesa. No Rotten Tomatoes, Ata-me figura um pouco acima da média com 67% de aprovação. Porém, para os tempos ultra politicamente corretos de hoje, a questão vai mais além do mero conservadorismo ou a restrição de temas controversos. E quem dera o sexo intenso abordado fosse o motivo de qualquer sensibilidade. Hoje, temos contundentes torcidas de nariz para as questões raciais retratadas em obras como o Conduzindo Miss Daisy moderno, Green Book, por exemplo. Da mesma forma, o empoderamento feminino é um tema de sangria desatada, extremamente delicado na atualidade. Assim, termos uma protagonista feminina cujo único propósito é ser abusada e maltratada durante a projeção, dona de um histórico de vício em drogas e participações em filmes pornô, e que tem como fim um “relacionamento feliz” com seu sequestrador talvez seja bem menos palatável do que em sua época de lançamento – que já teve sua cota de entraves. Porém, nada de cancelamentos, Almodóvar sempre foi um cineasta de “dedo na ferida”, que tem como principal atrativo expor o lado obscuro e mais bizarro dos serzinhos que por este planeta habitam – sem qualquer hipocrisia e papa na língua.


Os detratores da época apontavam para o clássico O Colecionador (1965), de William Wyler, como inspiração para a moderna e pop nova roupagem de Almodóvar – filme igualmente dono das mesmas questões que fogem totalmente aos padrões do aceitável. Ata-me ainda usa de humor para suavizar e tornar aceitável sua “síndrome de Estocolmo”, nesta ópera contraditória de Almodóvar. Tal condição muito estudada até hoje no terreno da psicanálise surgiu há exatos 47 anos, quando reféns num assalto a banco realizado na capital sueca ficaram presos no local por seis dias, e terminaram se afeiçoando fortemente por seus captores. Assim como o famoso e trágico evento, embora siga como um mistério inexplicável, Ata-me continua gerando um misto de diversas sensações no espectador, entre elas o fascínio, todos estes anos depois. Algo tipicamente Almodovariano.

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