A telenovela Rebelde se tornou uma das produções de maior sucesso da cultura mexicana e conquistou fãs ao redor do mundo quando exibida entre os anos de 2004 e 2006. Colocando no centro dos holofotes nomes como Anahí, Dulce María e Alfonso Herrera, a história foi ambientada na Elite Way School e acompanhou o cotidiano de um grupo de jovens lidando com experiências típicas da adolescência, desde o despertar sexual até distúrbios alimentares. Além de ter sido exibida inúmeras vezes em território nacional (motivo pelo qual os protagonistas já haviam declarado paixão total pelo público brasileiro), a produção realimentou o interesse por narrativas do gênero em questão. Agora, com chegada da era dos streamings, o enredo caminha para uma releitura mais modernizada a encargo da Netflix – e que chega ao catálogo da plataforma em 2022.

Inspirado tanto na telenovela anterior quando na primeira adaptação, Rebelde Way’, a trama principal nos leva de volta ao colégio supracitado e, dessa vez, abre as portas da escola para uma nova geração de jovens que carrega seus próprios valores e que luta para conquistar seu espaço das maneiras mais inesperadas possíveis. Com direção de Santiago Limón, a versão traz elementos atuais à discussão – como as questões de gênero e de orientação sexual, que dia a dia vem ganhando palanque nas redes mainstream -, bem como a formulaica “busca pelos sonhos” que é intrínseca a cada um dos personagens. Eventualmente, lidamos com vários deslizes que mancham o ritmo e a construção da série, mas é inegável dizer que, daqui a algumas semanas, Rebelde será o mais novo prazer culposo da gigante do streaming.

Para aqueles que esperam alguma relação com a produção anterior, o roteiro faz questão de fornecer easter eggs para acalentar os corações dos fãs mais fervorosos – como, por exemplo, a aparição de Luka Colucci (Franco Masini), parente de Mia Colucci, carregado com um senso de apropriação que o transforma em uma personagem extremamente desagradável e movida pelo status da família. Em outro espectro, somos apresentados a Jana Gandía Cohen (Azul Guaita), famosa cantora teen que é tratada com desprezo pelos outros alunos do Elite Way e que deve provar seu talento se quiser se desvencilhar dos privilégios que escoltam sua vida. Temos também Estebán (Sergio Mayer Mori), um tímido bolsista que começa a se apaixonar por Jana; Dixon (Jeronimo Cantillo), um estudante colombiano que sofre bullying justamente por ser de outro país; a ultraotimista MJ (Andrea Chaparro), que cresceu na Califórnia e luta para ajustar seus valores e crenças à selvageria do colégio; e Andi (Lizeth Selene), uma talentosa baterista que não aceita qualquer desaforo para com ela mesma ou para com os amigos.



Os dois capítulos da primeira temporada servem como apresentação (ou reapresentação) de um microcosmos que já conhecemos, ou pelo menos aqueles que cresceram com a série original. Porém, por mais que as intenções sejam boas, os showrunners se esquecem de um elemento importante – a motivação. É claro que, em se tratando de jovens, há a sólida base do conflito intergeracional que os impede de ser quem são ou de tomar as próprias decisões (algo que é muito bem-vindo, considerando os escassos recursos que existem para ousadias desmedidas). Mas não é até o final do segundo episódio que compreendemos o que está acontecendo e como a dinâmica entre os protagonistas irá funcionar: vivendo cada qual em seu mundo e unidos por um infortúnio do destino, nenhum deles parece ter vontade concreta de se mostrar vulnerável, esbarrando em estereótipos cansativos e repetitivos.

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Não se enganem – o problema aqui restringe-se à construção das personagens. Os atores e atrizes são bastante talentosos e apelam por um naturalismo apaixonante, motivo pelo qual deixamos os equívocos de lado e aceitamos o convite de acompanhá-los nessa jornada, principalmente quando um antigo grupo secreto resolve dar as caras na escola e ameaçar a integridade dos corpos docente e discente (uma sacada inteligente e que abre espaço para fusões divertidas de múltiplos gêneros narrativos). E, mesmo com tropeços no meio do caminho, há um potencial gigantesco a ser explorado, se – e apenas se – o time criativo entender que não é possível dar um passo maior que a perna e que, às vezes, brincar com os clichês pode ser uma saída prática e funcional.

A presença de um elenco veterano auxilia a complexificar as camadas do enredo. O retorno de Estefanía Villareal como a adorável Celina Ferrer é um dos pontos altos dos episódios, considerando que a personagem passou por um profundo processo de amadurecimento e, agora, deve se lembrar de seus tempos de escola para entender o que se passa na cabeça dos alunos; Karla Sofia Gazcón adota a impetuosidade da bedel Lourdes para fornecer um pouco de comicidade ao melodrama adolescente; e Giovanna Grigio, que ficou eternizada como Mili na refilmagem de ‘Chiquititas’, mergulha na atitude mean girl e aposta na versatilidade da antagonista Emilia Alo, intercambista brasileira e aparente arqui-inimiga de Jana.



Rebelde tem seus altos e baixos e começa com dois episódios conturbados, mas que demonstram um apreço pelos gêneros artísticos que vêm cominando a televisão latina nos últimos anos. Fazendo referências a ‘Elite’, a nova incursão da Netflix tem espaço de sobra para melhorar – desde que não tente copiar o que veio antes ou revolucionar um nicho que não tem como ser revolucionado.

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