É sempre interessante notar como cada novo período social influencia a tendência do cinema (e do audiovisual como um todo), impulsionando ou eliminando inclusive os gêneros dos filmes. No passado, por exemplo, os faroestes e os musicais eram os tipos mais produzidos pela indústria de Hollywood. Hoje, tais segmentos foram consideravelmente podados, ao ponto de serem considerados diferentes aos olhos do público, em comparação com as demais obras que lotam constantemente o mercado. Da mesma forma, quem poderia imaginar há vinte, trinta anos, que os super-heróis saídos dos quadrinhos seriam a fonte mais confiável e rentável para grandes produções de famosos estúdios.

Toda esta apresentação para focarmos no tema desta matéria, os thrillers eróticos. Por si só um produto de seu tempo, os anos 1990, onde após o avanço de narrativas mais liberais e realistas nos anos 1960, tivemos uma escalada rumo a total falta de pudor – entrelaçada à liberdade sexual e à independência feminina. O cinema, por consequência, ficou mais sem vergonha, sem moralismo, com a cabeça mais aberta, e Hollywood começou a se espelhar nas obras europeias. Afinal, ver uma mulher pelada nas telas de cinema, ainda na década de 1950, por exemplo, era algo inimaginável. Esse advento foi se tornando cada vez mais constante pelas décadas de 1970 e 1980, onde finalmente viraria um subgênero na década de 1990.

Época do clamor desavergonhado, os anos 1990 serviram como casa de algumas das obras mais icônicas deste subgênero – muitas inclusive tinham como único propósito apresentar cenas tórridas e/ou uma estrela famosa nua, e tais projetos eram vendidos apenas por este mote. Nos tempos politicamente corretos em que vivemos, fica cada vez mais difícil imaginar uma produção sendo arquitetada por um grande estúdio nestes moldes: vender um filme através da sensualidade e erotismo de sua protagonista, explorando seu corpo pela venda de ingressos.

Com isso em mente, e como forma de relembrar e refletir sobre o passado, o CinePOP traz para você uma nova matéria comentando alguns dos mais famosos thrillers eróticos da década de 1990, filmes de suspense que faziam a temperatura subir. Vamos relembrar.

Instinto Selvagem (1992)

Este é o carro-chefe do subgênero, e podemos dizer que a extinta produtora Carolco (a mesma de O Exterminador do Futuro 2) e a TriStar Pictures (distribuidora do filme), subsidiária da Columbia, hoje Sony, saíram na frente. O filme elevou a carreira da musa Sharon Stone ao estrelato e a transformou num sex symbol. Ironicamente, treze atrizes foram procuradas para o papel e o negaram – como Michelle Pfeiffer e Demi Moore -, antes de Stone ser contratada.

Além de Sharon Stone, outros três nomes ficariam associados aos thrillers eróticos dos anos 1990: o do diretor Paul Verhoeven, o do roteirista Joe Eszterhas e o do ator Michael Douglas. Na trama, um detetive linha dura (Douglas) se depara com um caso de assassinato violento e uma história de sexo selvagem envolvendo uma manipulativa escritora (Stone).  Quatorze anos depois, Stone tirou uma sequência da cartola, Instinto Selvagem 2 (2006), a qual protagonizou sem nenhum dos nomes envolvidos com o original.

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Invasão de Privacidade (1993)

Depois de sua explosão em Instinto Selvagem, Sharon Stone se tornava uma estrela da noite para o dia. E como Hollywood adora apostar no certo, um monte de projetos com temática sexual chegava para a atriz nesta época. O primeiro para o qual ela disse sim foi este suspense da Paramount (que não é boba nem nada), dirigido por Phillip Noyce (Jogos Patrióticos), baseado no livro de Ira Levin e com roteiro adaptado pelo mesmo Joe Eszterhas do filme acima. Na trama, Stone vive uma mulher que se muda para um luxuoso edifício de Nova York, e logo descobre que o local guarda sinistros segredos, envolvendo apartamentos observados por câmeras e a perda de privacidade (visionário?). E como esperado, a atriz novamente desempenhava momentos para lá de picantes.

O Especialista (1994)

A esta altura Sharon Stone já estava consolidada como musa quente do cinema, sendo basicamente um pré-requisito que a atriz aparecesse nua ou desempenhasse uma cena caliente em seus filmes. Foi assim, por exemplo, com Rápida e Mortal (1995), faroeste da TriStar/Columbia (Sony). Quando ela não protagonizava tais momentos, seus filmes não iam bem – vide Diabolique (1996) e A Última Chance (1996) -, provando o tipo de personagem e longa no qual o público queria vê-la.

Assim, este filme de ação da Warner, veículo para Sylvester Stallone, recebeu um tratamento erótico quando Stone assinou para co-protagonizar. Estamos falando da polêmica cena do chuveiro, que mostra uma tórrida relação entre o casal. Recentemente a sequência saiu do passado e ganhou os holofotes com a notícia de que Sly teria embebedado Stone para desempenhar o momento, a contragosto da atriz.

Corpo em Evidência (1993)

Instinto Selvagem provou a viabilidade e sucesso financeiro dos thrillers eróticos. Assim, pouco tempo depois de seu lançamento, este Corpo em Evidência estreava nos cinemas. E o único motivo da existência deste suspense de quinta, produzido pelo italiano Dino De Laurentiis e distribuído pela MGM, é mesmo promover cenas quentes de nudez de sua protagonista, numa trama erótica rocambolesca.

E quem melhor do que a provocativa Madonna – que na época devorava homens no café da manhã e tratava o sexo com a naturalidade de quem vai à feira – para sem pudor se despir e protagonizar momentos impróprios para menores, como os trechos com a cera de vela. De fato, De Laurentiis adquiriu o roteiro com a estrela da música em mente. Aqui, ela vive uma mulher sendo julgada pela acusação de matar seu companheiro… de tanto fazer sexo!

Assédio Sexual (1994)

Aqui temos um caso curioso. O próprio Michael Douglas queria que sua coprotagonista em Instinto Selvagem fosse Demi Moore – porque Sharon Stone era, então, uma ilustre desconhecida. Dois anos depois, e Douglas teve seu desejo atendido, com um filme do subgênero bancado pela Warner. A obra era vendida justamente pela união destes dois fortes nomes dos thrillers eróticos acima do título. Douglas havia protagonizado Atração Fatal (1987) e o próprio Instinto Selvagem (1992).

E Moore se consolidava na fase adulta (já que começou no cinema ainda na adolescência) com Proposta Indecente (1993), da Paramount – se tornando assim, igualmente, um símbolo sexual. A proposta aqui, embora seja baseado num livro, era pegar carona no famoso caso de assédio real envolvendo Anita Hill e Clarence Thomas, que parou os EUA no início da década de 1990 (retratado no filme da HBO Confirmação, 2016). Aqui, a assediadora é a mulher em posição de poder. No entanto, os que estavam esperando um momento extasiante entre os dois nas telas, terminaram ficando a ver navios.

Striptease (1996)

Demi Moore, como dito, apesar de ter começado a carreira bem novinha como parte do brat Pack, ganhava novos contornos nesta fase com o status de símbolo sexual. Depois de Proposta Indecente, Assédio Sexual e A Letra Escarlate (1995), Moore negociou um salário astronômico com a produtora Castle Rock para mostrar seus recém adquiridos músculos e próteses de silicone nos seios em Striptease (distribuído pela Columbia/Sony e no Brasil pela Warner). A atriz embolsava US$12.5 milhões, o que hoje seria algo em torno dos US$20 milhões, se tornando na época a atriz mais bem paga de Hollywood. Quem leu o livro no qual o filme é baseado garante que é bom e traz grande insight, além de tiradas cômicas que funcionam. Já o filme se tornou um fiasco, cujo único propósito era mostrar a atriz nua.

A Cor da Noite (1994)

A Disney produzindo um thriller erótico? Sim! E um dos mais desavergonhados da época. Bem, ao menos através de suas subsidiárias Hollywood Pictures e Buena Vista. E por falar em Demi Moore, seu então maridão Bruce Willis também não quis ficar de fora do subgênero. Mostrando mais uma vez a influência de Instinto Selvagem, este foi outro roteiro criado às pressas para capitalizar em cima deste estilo para maiores. Sharon Stone era uma ilustre desconhecida até Instinto Selvagem, e o nome de peso no projeto era o de Michael Douglas.

O mesmo foi orquestrado aqui, com Willis como chamariz, tentando impulsionar a carreira da jovem Jane March – com quem protagoniza cenas para lá de intensas. A proposta de fazer March uma estrela, no entanto, falhou. Na trama, Willis vive um psicólogo pegando para si um grupo de terapia de um colega assassinado. Logo, ele descobre que um dos membros de tal grupo não é o que parece, e precisa desvendar uma série de assassinatos, enquanto se diverte de forma explícita como uma bela jovem dezoito anos mais nova.

Jade (1995)

Talvez você não lembre dela, mas Linda Fiorentino foi um grande nome feminino de Hollywood nos anos 1990. E muito devido às obras com apelo sexual que protagonizava, sempre no papel da femme fatale. Percebendo o fervor do momento de tais filmes e que havia um grande público cativo na época, a Paramount, seguindo o relativo sucesso de Invasão de Privacidade dois anos antes, voltou a bancar uma produção do subgênero, investindo ainda mais dinheiro.

Para a empreitada, o estúdio contratou novamente Joe Eszterhas para o roteiro, e assim nascia Jade – uma reedição menos inspirada de Instinto Selvagem. Na direção, um cineasta pra lá de renomado: William Friedkin (vencedor do Oscar por Operação França e indicado por O Exorcista). E como Sharon Stone já havia feito o original, para esta espécie de releitura foi escalada Linda Fiorentino. A morena havia chamado atenção no ano anterior com O Poder da Sedução (1994), thriller de John Dahl, criado exatamente nos mesmos moldes.

Nunca Fale Com Estranhos (1995)

Outro nome que entrou na dança dos filmes de suspense eróticos foi o de Rebecca De Mornay. A atriz já havia realizado cenas quentes ao lado do astro Tom Cruise na comédia adolescente Negócio Arriscado (1983), onde interpretou uma prostituta. Quase dez anos depois ela viria a protagonizar o thriller A Mão que Balança o Berço (1992), sucesso da Disney (Hollywood Pictures) com certa tonalidade sexual – onde viveu uma vilã em busca de vingança, se disfarçando de babá para roubar a família da mulher que, segundo ela, havia destruído a sua.

Um ano depois, De Mornay seguia no subgênero com Culpado como o Pecado (1993), no papel de uma advogada defendendo um playboy assassino (Don Johnson). O escolhido para figurar nesta lista, no entanto, foi Nunca Fale com Estranhos, projeto totalmente construído para explorar a sexualidade de seus protagonistas – realçando suas cenas de nudez e sexo. O fiapo de roteiro desta produção da TriStar/Columbia (Sony) traz De Mornay como psicóloga criminal conhecendo e iniciando uma relação tórrida com um perfeito estranho – daí o título do filme. E para o papel do estranho, o latin lover da época, Antonio Banderas, incendiava as telas.

Showgirls (1995)

Tudo bem que Showgirls não é tanto um suspense, e funciona mais como um melodrama mexicano, daqueles bem exagerados. O filme também ficaria conhecido como uma das piores produções cinematográficas, não apenas de seu respectivo ano, mas da década e igualmente de todos os tempos. Há alguns anos o filme foi redescoberto e transformado em cult por muitos defensores. O crítico Adam Nayman, da revista Sight and Sound, por exemplo, chegou até mesmo a escrever um livro defendendo Showgirls para a série Pop Classics: “It Doesn’t Suck”.

Os fãs do longa afirmam que esta era sua proposta desde o início, uma farsa sobre o mundo das strippers de Las Vegas, exagerada, caricata e novelesca. Para muitos, a obra recai na categoria “tão ruim que é bom”, que constantemente enaltece os mais saborosos prazeres culposos. Aqueles filmes que sabemos não ser bons, mas que não conseguimos evitar de gostar. Showgirls seria o próximo passo evolutivo de Instinto Selvagem, uma produção ainda mais provocativa em suas questões sexuais. Um drama que escancararia tal universo sem dó, nem piedade.

Não por menos, o longa recebeu a censura mais alta para uma produção vendida ao grande público, o famigerado NC-17. Para a empreitada, a mesma Carolco, em parceria com a United Artists, tratou de reunir a dupla Paul Verhoeven na direção e Joe Eszterhas no roteiro. Protagonizando, uma jovem atriz saída de um programa adolescente, Elizabeth Berkley – o plano era ser alçada à nova Sharon Stone. O resultado, porém, foi bem diferente para todos os envolvidos.

Garotas Selvagens (1998)

Showgirls se tornou o epicentro da implosão do subgênero. Como toda “fórmula” descoberta por Hollywood, os thrillers eróticos foram desgastados à exaustão, e todo mundo que pôde tirou uma casquinha de tal segmento. Como sempre ocorre, alguém vai longe demais, inviabilizando sua continuidade, afinal, nada dura para sempre. Foi assim com os faroestes, com os musicais, com os épicos bíblicos e medievais, com os filmes de ação brucutu dos exércitos de um homem só, e até mesmo com as comédias românticas bobinhas da década passada.

A pergunta que fica é: quanto tempo mais os filmes de super-heróis ainda tem até precisarem ser reinventados? É justamente onde se encaixa este Garotas Selvagens, que chegou na rebarba da implosão do subgênero. Apesar de não ser um filme completamente ruim, o longa ficou meio deslocado, e caso tivesse sido lançado na época do hype de tais produções, poderia ter causado um barulho maior.

Aqui são duas, e não apenas uma, as jovens estrelas da época participando de cenas tórridas. Neve Campbell (querendo amadurecer na carreira) e Denise Richards (saída de uma produção de Paul Verhoeven, Tropas Estelares) são duas estudantes bem diferentes, que se envolvem com um professor (Matt Dillon) para um esquema de roubo de uma fortuna. A trama desta produção da Columbia (Sony) é intrincada e confusa, e certos trechos questionam nossa inteligência com suas dezenas de reviravoltas, mas algo que o público não esquece é a cena do ménage entre os protagonistas.

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