Crítica | Dois Caras Legais

Crítica | Dois Caras Legais

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Boogie Nights

É covardia comparar o humor sofisticado de Shane Black com o das recentes pseudocomédias lançadas no cinema. A minúcia de cada detalhe, a atenção ao que compõe a cena e o que é investido na construção dos personagens são elementos muito importantes e fazem toda a diferença.

Dois Caras Legais é a nova produção escrita e dirigida por Shane Black, um dos maiores talentos de Hollywood em atividade. O cineasta ganhou fama na década de 1980 com roteiros que misturavam ação (com conteúdo), humor e bons personagens. No entanto, seu debute na direção de um longa ocorreria muitos anos depois, com o subestimado Beijos e Tiros (2005). Dois Caras Legais é apenas o seu terceiro filme para os cinemas.

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Na trama passada na década de 1970, dois detetives particulares cruzam seus caminhos numa investigação que envolve uma jovem atriz pornô (e tal submundo), grandes festas ostensivas, figurões da alta roda de Los Angeles e criminosos com longos braços até a polícia. Todos os elementos para um bom noir estão posicionados, pense em Los Angeles – Cidade Proibida (1997), que coincidentemente possui Russell Crowe e Kim Basinger também em seu elenco.

Dois Caras Legais igualmente ecoa Vício Inerente, filme de Paul Thomas Anderson lançado no ano passado nos cinemas brasileiros, em seu retrato de protagonistas na tênue linha entre a eficiência e a completa incompetência. Entretanto, o filme de Black consegue se manter mais acessível, divertido e menos pretensioso do que a obra de Anderson. Em matéria de exuberância em retratação de época (direção de arte) e referências à mesma (como uma marquise mostrando o filme Tubarão 2, de 1978, em cartaz nos cinemas), o filme de Black se comporta com a mesma grandiloquência de homenagens da recente Stranger Things – sendo para os 70´s o que a elogiada série da Netflix é para os 80´s.

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Seguindo de perto a cartilha do cinema noir (o cinema de detetives particulares e tramas pra lá de intrincadas), a história de Dois Caras Legais talvez desafie a compreendê-la, mas em casos assim o que importa de verdade é a jornada pela qual seguimos ao lado de dois grandes personagens. Ryan Gosling está impecável e acerta todas as notas do timing cômico no seu retrato de Holland March. Uma vez um detetive proeminente, o sujeito se entregou à bebida, negligencia a pequena Holly (papel da excelente Angourie Rice, roubando todas as cenas), sua filha, após a morte da esposa e sobrevive de arrancar dinheiro fácil de velhinhas em trabalhos sem empenho.




O vencedor do Oscar Russell Crowe (Gladiador) representa o “homem sério” desta equação, a escada para as piadas de Gosling. Mesmo assim, Crowe emplaca boas tiradas, mostrando que igualmente possui talento para o humor. Ele é definitivamente o “tira mau” da dinâmica, na pele de Jackson Healy, espécie de detetive particular / agiota, que parou de se importar com trabalhos importantes e de fazer a diferença com o que é certo. A química da dupla é perfeita e funciona mais do que a de muitos casais apaixonados em histórias de amor. Este “casal”, porém, é adepto de sopapos, tiros e todo tipo de histeria violenta própria de uma época muito pré-politicamente correta.

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A harmonia da estrutura concebida ao longo da filmografia de Black atinge outro patamar aqui, conseguindo pairar acima do confeccionado pelo cineasta para Máquina Mortífera e Beijos e Tiros, acredite, é bom neste nível. Embora Dois Caras Legais seja também violento e impróprio, flertando enormemente com o humor negro e o slapstick (o famoso estilo pastelão), o filme nunca perde o gás ou fica sem graça. A metralhadora de piadas saídas da mente de Black dispara incessantemente, deixando sem fôlego a plateia e obtendo um saldo muito positivo. Este é o filme mais engraçado e divertido do ano.

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