Crítica | ‘Stranger Things’: Terror e mistério na fantástica nova série da Netflix

Crítica | ‘Stranger Things’: Terror e mistério na fantástica nova série da Netflix

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Agridoce Nostalgia

Neste fim de semana, tive a oportunidade de conferir em primeira mão todos os oito episódios de Stranger Things, nova série de suspense, drama, ficção e terror, original da Netflix (que estreia somente no dia 15 de julho), e ao lado do CinePOP farei uma breve análise da série para vocês.

Descrita como uma carta de amor aos anos 1980, a série nos leva por uma viagem nostálgica, voltando no tempo para a década favorita dos trintões saudosistas – nem preciso dizer que me encaixo perfeitamente em tal definição. Embora o ano específico não seja mencionado, os nerds cinéfilos mais minuciosos podem arriscar que seja 1983, já que em determinado momento, o letreiro de um cinema exibe o título A Chance, filme de futebol americano estrelado por Tom Cruise e lançado na data citada nos EUA. Em outro instante, uma mãe compra ingressos para uma exibição de Poltergeist – O Fenômeno, lançado em 1982, no entanto, a cena faz parte de um flashback e pode-se argumentar que tenha ocorrido no ano anterior. Fora isso, notamos cartazes de filmes recentes nas paredes dos quartos dos meninos, como O Enigma de Outro Mundo (1982) e Evil Dead – A Morte do Demônio (1982). Ou seja, referências à cultura pop do passado não faltam. De Atari ao vestuário, passando pelas músicas, está tudo lá.

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Stranger Things é bem definida e exala homenagens, mas não depende apenas disso. Em sua trama central, cria por si só uma história eficiente, pra lá de assustadora e intrigante, ao mesmo tempo contendo muito coração. Satisfatoriamente, confecciona um roteiro que poderia muito bem ter sido filmado na década em que se passa. Se deixarmos a imaginação correr solta, podemos pensar que esta foi uma ideia engavetada por quase quarenta anos, saindo do papel agora.

Stranger Things muito bem poderia ser a versão seriada do filme Super 8 (2011), dirigido por J.J. Abrams, que funciona como homenagem a todas as coisas “Spielberguianas”. Tais elementos também são muito encontrados aqui, como crianças protagonistas, uma cidadezinha, pitadas de ficção científica e o suspense do que espreita na esquina.

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A criação é dos ainda pouco conhecidos Matt e Ross Duffer, assinando como os irmãos Duffer. Com a série, os Duffer marcam seu território anunciando a chegada de mentes criativas. Ao lado dos irmãos, a surpreendente presença de Shawn Levy (da trilogia Uma Noite no Museu), assinando a direção de dois dos oito episódios, servindo como produtor do projeto e entregando seu melhor trabalho no terreno do audiovisual. Na frente das câmeras, alguns rostos reconhecíveis, saídos justamente da década em que a série se passa. Winona Ryder (Os Fantasmas se Divertem), que já foi considerada a melhor atriz de sua geração, protagoniza a série na pele da sofrida Joyce Byers; e Matthew Modine (Nascido para Matar) retorna aos holofotes na pele do suspeito Dr. Brenner.




Passada em Indiana (outra referência à década homenageada, alguém pescou?), Stranger Things começa com pura nostalgia nerd, quando na primeira cena quatro amigos, saindo da infância para a adolescência, jogam o RPG Dungeons and Dragons no porão da casa de um deles. O líder Mike (Finn Wolfhard), o banguela Dustin (Gaten Matarazzo), do destemido Lucas (Caleb McLaughlin) e o simpático Will (Noah Schnapp) são os novos Goonies e servirão como os olhos inocentes perante esta jornada. Depois de horas a fio adentrando o mundo de fantasia do jogo, o pequeno Will simplesmente desaparece ao voltar para casa em sua bicicleta numa noite. O mistério de seu sumiço é o que impulsiona a trama da série.

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A cidadezinha, cujo maior problema até então havia sido o ataque de uma coruja, se mobiliza para encontrar a criança desaparecida. Sua mãe, papel de Ryder, imerge numa espiral de fé e loucura, quando afirma se comunicar com o menino através de luzes na casa. Ao mesmo tempo, estranhos acontecimentos começam a circundar o local, entre eles o aparecimento da garotinha de dons sobre-humanos conhecida somente como Eleven (onze), papel da carismática Millie Bobby Brown – a melhor criança em cena. Tudo pode estar conectado à base de pesquisa do governo e os experimentos por lá conduzidos – comandados pelo Dr. Brenner (Modine).

Além do tema central, ainda existem subtramas de personagens como a do duro xerife Hopper (David Harbour) e sua história de perda em família, e o triângulo amoroso adolescente (calma, não se assustem, aqui a coisa é feita de uma maneira dedicada) entre a jovem Nancy (Natalia Dyer) – irmã de Mike, o popular Steve Harrington (Joe Keery) e o esquisitão Jonathan (Charlie Heaton) – irmão do menino desaparecido. É interessante notar o esforço dos roteiristas ao subverterem o esperado destas subtramas e os arcos dramáticos das personalidades nelas incluídas.

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Stranger Things é dinâmica e funciona organicamente em sua mescla de grande homenagem com uma trama nova, incluindo um digno mistério a ser desvendado. Estes dois elementos funcionam harmoniosamente, fazendo uma simbiose tão boa que fica difícil citar qual das partes é mais bem trabalhada. Poderia ser dito que a grande homenagem aos 80´s é a cereja no bolo, porém, é muito mais do que isso, sendo facilmente considerado o motor que puxa esta engrenagem. Para termos uma ideia, este é o mote no qual foi vendida a proposta para a série. Os irmãos Duffer montaram um trailer incluindo trechos de 25 filmes (entre eles E.T., A Hora do Pesadelo, Super 8 e Halloween) e o levaram para os produtores como alicerce do projeto. Como incentivadores criativos, os roteiristas assistiram (ou assistiram novamente) produções como Os Goonies, E.T., Conta Comigo, O Enigma de Outro Mundo e A Hora do Pesadelo; e podemos notar durante o programa tais influências narrativas e estéticas. Outra inspiração para os criadores são as obras do autor Stephen King.

A trilha sonora composta com sintetizadores, outro chamariz da produção, foi criada por Michael Stein e Kylo Dixon. Nos créditos iniciais, ao lado do som, o design da arte de abertura é diretamente ligada ao trabalho de Richard Greenberg, responsável pelos créditos em produções como Alien, Superman – O Filme, Os Goonies e Viagens Alucinantes).

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Ao contrário de séries sigilosas como Lost e Wayward Pines, Stranger Things termina de uma forma resolvida, sem se apegar unicamente a uma vindoura temporada. Em sua maioria, as subtramas têm seus desfechos, terminando os arcos num 360 perfeito. Assim como na cena inicial, o momento final mostra os quatro amigos novamente desbravando uma campanha de 10 horas do jogo de tabuleiro, no qual suas mentes fazem a maior parte do trabalho. E assim, de forma calma e bem desenvolvida, a série coloca seu ponto final. Ao mesmo tempo, deixando a porta entreaberta para a possível e merecida segunda temporada.

Só leia o trecho abaixo depois do dia 15 de julho, ao ter assistido toda a série, pois ele contém spoilers.

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Stranger Things é nostálgica e regrada por grande homenagem à década de 1980. No entanto, a série possui seus próprios méritos e faz uso de uma trama intrincada e interessante, pronta para satisfazer os fãs do gênero ficção e suspense.

Criaturas monstruosas e assassinas, meninas saídas de experimentos científicos em um laboratório e providas de dons telecinéticos, e outras dimensões são assuntos abordados na nova série da Netflix. Como temor da guerra fria, cientistas militares desenvolvem uma pesquisa intensa até conseguirem atingir a telecinese em humanos. A menina Eleven é a prova disso. Usada para espionar os comunistas russos, ela adentra outra dimensão, como uma espécie de portal de teletransporte. Os envolvidos no projeto não contavam com que ao realizarem tal feito se deparariam com a estranha criatura existente neste outro mundo, muito semelhante ao nosso, e despertariam nela a sede de sangue humano. O conceito – muito legal – de outras dimensões invertidas à nossa é um dos elementos misteriosos da produção.

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No último episódio, três cliffhangers chamam atenção. O primeiro é a ligação entre o xerife Hopper e a tal organização vilanesca. Sabemos que um acordo é feito entre eles, que possivelmente tem a ver com o fato de terem descoberto o paradeiro da menina Eleven no colégio (teria o xerife entregado a localização da menina em troca da passagem para a outra dimensão, a fim de resgatar o pequeno Will?). Ao final, notamos que o xerife entra no carro com alguns sujeitos duvidosos, rumo ao prédio governamental. A segunda, diz respeito à pequena Eleven, que como forma de sacrifício, entrega aparentemente a vida ao liquidar de vez a criatura. Notamos que a menina é fã de eggos, aquela espécie de waffles que ela numa cena rouba de um supermercado. No último episódio, o xerife adentra a floresta, deixando numa caixa algumas guloseimas, entre elas os waffles. O último cliffhanger envolve o resgatado Will. Em casa, pronto para jantar ao lado da mãe e do irmão, Will vai ao banheiro, somente para percebermos que após uma tosse, expele uma criatura semelhante a uma grande minhoca da boca, e oscila entre dimensões como num piscar de olhos. Ao voltar para a mesa, omite o fato dos familiares. Algo me diz que esse menino não está puro.

Bem, agora é só aguardar as próximas cenas da fascinante Stranger Things. Esperamos que não demore muito.

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