Poucas produções são tão icônicas para datas tão opostas quanto O Estranho Mundo de Jack. Lançada em 1993, essa animação em stop-motion conseguiu virar um ícone tanto do Halloween quanto do Natal. Misturando aventura com drama e musical, o longa virou um clássico atemporal.

A trama acompanha Jack, o Rei das Abóboras, que é o responsável por fazer o Dia das Bruxas virar realidade na Cidade do Halloween. Porém, ele fica frustrado com seu papel e acaba atravessando o Portal do Natal, onde ele se encanta pela magia do lugar. De volta ao lar, ele não consegue deixar de pensar em tudo o que viu do outro lado do portal e decide convencer os moradores da Cidade do Halloween a se unirem para sequestrarem o Papai Noel. O filme é icônico e tem fãs até hoje. Além disso, ele traz uma série de histórias de bastidores que você talvez não conheça. Pensando nisso, o CinePOP separou 10 delas. Confira!
Muito comum

Quando se fala em O Estranho Mundo de Jack, muita gente associa o longa ao diretor Tim Burton. No entanto, quem dirigiu o longa foi o diretor Henry Selick, que viria a dirigir futuramente longas como James e o Pêssego Gigante e Coraline e o Mundo Secreto. Essa confusão é muito comum. Não só pelos diretores terem estilos muito parecidos, mas principalmente porque Burton escreveu o poema que inspirou o filme e desenhou os protagonistas. Ele era a escolha da Disney para comandar o projeto, só que estava ocupado com as gravações de Batman: O Retorno. Então, o estúdio chamou Henry e deixou que ele dirigisse a aventura como achasse melhor. O problema é que a própria Disney promoveu o filme com o slogan: “da mente visionária de Tim Burton”. Então, por conta disso, é uma confusão bastante comum.
Soltou o verbo

Henry sempre se manteve alheio às polêmicas por todo esse tempo, até que decidiu soltar o verbo em 2022 sobre o que achava de Burton levar todos os créditos por O Estranho Mundo de Jack. Durante as entrevistas de divulgação da animação Wendell & Wild, o diretor falou ao The A.V. Club que se sentia injustiçado.
“Tim Burton estava muito ocupado dirigindo dois filmes diferentes em Los Angeles, enquanto eu dirigia ‘O Estranho Mundo de Jack’. Não tenho dúvidas da genialidade de Tim, nem que ele estava vivendo sua época mais criativa. Poxa, eu sempre achei que ele criou a história perfeita, e ele também fez o design dos personagens principais da trama, mas quem trouxe tudo isso à vida fui eu, acompanhado da minha equipe, não dele”, disse.
Esquecido

De fato, a carreira de Selick é marcada por uma série de apagamentos de seus trabalhos. Suas principais obras são atribuídas a outras pessoas. O Estranho Mundo de Jack e James e o Pêssego Gigante constantemente são atribuídos a Tim Burton. Já Coraline e o Mundo Secreto, adaptação da obra de Neil Gaiman, é erroneamente atribuído ao próprio Neil. Na mesma entrevista, Henry brincou com a situação.
“Eu tive que esperar muitos anos para que as pessoas reconhecessem meus trabalhos nas animações. Coraline é baseado em um livro de Neil Gaiman. Agora, em Wendell & Wild, eu trabalho com Jordan Peele. São esses caras que ajudam a tirar os projetos do papel, é claro, mas quem comanda as equipes que efetivamente fazem os filmes sou eu”, comentou.
Conceito

Conforme dito anteriormente, o filme nasceu com base em um poema escrito por Tim Burton. E a ideia para a criação deste poema veio de uma forma bastante incomum. Tim havia saído para fazer compras em novembro. Ele viu uma vitrine que estava passando pela transição do Halloween para o Natal. Segundo o próprio, ver aquelas criaturas macabras coexistindo no mesmo ambiente que o Papai Noel, as árvores e as renas deixaram sua mente a mil. Com a imaginação fervendo, ele voltou e escreveu.
Equipe

Quando Henry diz que fica desconfortável ao ver todos os créditos sendo completamente atribuídos a Burton, ele tem um ponto muito válido. Não apenas por buscar reconhecimento por seu trabalho, mas também porque a escolha por contar essa história por meio do stop-motion exigiu uma equipe gigantesca. Foram cerca de 100 membros que trabalharam por três anos para tirar O Estranho Mundo de Jack do papel.
Duas vozes

O protagonista, Jack Skellington, foi vivido por dois atores diferentes. Isso aconteceu porque Tim Burton havia prometido o papel a Danny Elfman, mas enquanto sua atuação cantada era perfeita, sua entrega de falas comuns estava completamente fora do tom. Por isso, a equipe fez testes para encontrar um ator cujo tom de voz fosse parecido com o de Danny para interpretar o nas cenas não-cantadas.
Foi assim que chegaram a Chris Sarandon, que tinha personalidade e estava no tom correto, mas também tinha um tom de voz muito parecido com o de Elfman. Foi pelas vozes dessa dupla que Jack nasceu e se consolidou como ícone do Natal e do Halloween ao redor do mundo.
Danny Elfman

A história de Danny Elfman com esse filme mexeu com o artista em nível pessoal. Ele foi convidado para compor a trilha sonora e as canções do longa. Porém, conforme ele foi aprendendo a história de Jack e todo o seu drama principal, Danny se identificou com o protagonista de forma extremamente pessoal. Ele afirmou que, enquanto líder do Oingo Boingo, ele compreendia perfeitamente a sensação de ser uma pessoa famosa e amada por seus fãs, mas estar extremamente frustrado com “seu papel” na vida. Elfman compôs a trilha numa velocidade impressionante, tamanha sua identificação com o personagem.
Quando entregou o trabalho e teve aprovação imediata, ele deu uma “chorada” com seu amigo pessoal, Tim Burton, para ver se poderia interpretar o Jack no cinema. Tim falou para ele ficar calmo, porque o papel seria dele. O que não deixou de ser verdade, porque Danny acabou dando voz às músicas que ele mesmo escreveu para o Jack.
Infortúnio

A primeira escolha para dar voz ao Papai Noel era o dono de uma das vozes mais impactantes, assustadoras e famosas da história do cinema: Vincent Price. Ele chegou a ser escalado e gravou todas as falas. Porém, durante as gravações, a esposa de Vincent faleceu, o que afetou diretamente sua saúde e sua voz icônica. Quando o trabalho foi encaminhado para aprovação dos executivos, a voz poderosa de Vincent Price estava fragilizada e irreconhecível.
O material foi considerado “inutilizável” e pediram a escalação de um novo ator para o papel. A troca foi feita com muito pesar por Selick. No fim, o longa foi acabou chegando aos cinemas dos Estados Unidos em 29 de outubro de 1993, apenas quatro dias após a morte de Vincent Price. Sim, esse foi seu último trabalho, mas o público nunca viu sua versão do Papai Noel.
Olhos

O design de Jack Skellington rendeu um embate em dois fronts entre as mentes criativas por trás do filme e a Disney. Quando Tim Burton estava desenhando o personagem, ele quis subverter a primeira regra das animações: a de que todos os personagens devem ter olhos para trabalhar as expressões. Para ele, trabalhar o vazio das órbitas no crânio seria um diferencial inegociável. Os executivos tentaram convencê-lo a desenhar os olhos, mas Burton foi irredutível.
Posteriormente, com Henry Selick na direção, a Disney tentou novamente trazer a ideia de colocar olhos no Jack, mas ele seguiu o desejo de Burton e bateu o pé para deixar o personagem com as órbitas vazias. E assim ficou.
Sequência

Feito com um orçamento relativamente baixo (18 milhões de dólares), o filme foi um sucesso de crítica e arrecadou mais de 90 milhões de dólares em bilheteria. Fora os valores arrecadados em Home Video. Um sucesso! Diante desse bom desempenho, a Disney começou a cogitar fazer uma sequência. A ideia foi ventilada em 2001, mas Tim Burton entrou em desespero, porque desvirtuaria todo o conceito do filme original. A ideia da Disney era fazer a continuação em animação 3D em vez de stop-motion.
O criador desse universo teve extensas conversas com os executivos para tentar convencê-los de que isso seria uma péssima ideia, capaz até mesmo de macular a boa imagem que os fãs tinham do original. Após muitas conversas, ele conseguiu convencê-los a abandonar a ideia com essa fala de manter a “aura” do original intacta. Se isso foi uma boa ideia ou não, só eles podem dizer. Mas é fato que o filme seguiu muito forte nos corações dos fãs, tendo arrecadado mais alguns milhões de dólares apenas com relançamentos nos cinemas.

