Lançado em 2008, Wall-E se consagrou como uma das animações mais ousadas da década passada ao criar uma ficção científica de mão cheia para criticar o capitalismo e como sua essência de consumo excessivo estava destruindo o planeta Terra.

Ambientado no ano de 2805, o longa conta a história de um robozinho catador de lixo que foi deixado para limpar a Terra, após a humanidade ter deixado o planeta rumo ao espaço devido às péssimas qualidades de ar e água, que impossibilitaram a vida na Terra. Certo dia, em suas viagens pelo mundo, ele encontra uma planta. Então EVA, uma robô sentinela de última geração, vasculha a região e encontra o Wall-E. Eles se apaixonam, mas a presença da muda faz com que a robozinha precise voltar ao espaço. Então, o Wall-E embarca numa aventura pelo espaço sideral atrás de sua amada.
O longa é um amor, mas por ter sido construído com pouquíssimos diálogos, acabou não caindo muito nas graças da molecada. Porém, com o passar dos anos, essa mesma geração que deu uma leve esnobada na época, acabou se apaixonando pelo filme. Por isso, o CinePOP selecionou 10 curiosidades que você talvez não saiba sobre Wall-E, um dos mais belos filmes da Pixar. Confira!
Começou em 1994

Os fanáticos pela Pixar sabem que os maiores sucessos da casa nasceram no mesmo dia. Em 1994, um almoço reuniu as quatro maiores mentes criativas da casa, John Lasseter, Andrew Stanton, Pete Docter e Joe Ranft, ao redor de uma mesa quando Toy Story estava praticamente finalizado. Confiantes de que o longa seria um sucesso, eles decidiram fazer um brainstorm sem compromisso de futuros projetos que poderiam fazer dali para frente. Nessa reunião, eles começaram a rabiscar em guardanapos e nos papéis da mesa as ideias que gostariam de tirar do papel, literalmente. Dessa conversa surgiram franquias como Vida de Inseto, Monstros S.A., Procurando Nemo e Wall-E. Stanton perguntou: “e se fizéssemos um filme sobre a humanidade deixando a Terra, mas esquecendo de desligar o último robô?”. E o resto é história.
Amor

Um ponto interessantíssimo do filme é que ele fala sobre a raça humana ter perdido sua humanidade durante os séculos vivendo no espaço sideral, cabendo a um robozinho – que descobriu sua “humanidade” após incontáveis anos explorando e colecionando a arte deixada pelos humanos na Terra – resgatar essa “humanidade” por meio de sua demonstração de amor. E esse era justamente o ponto que Andrew Stanton queria abordar no longa. Para ele, o ponto central da trama é que “o amor irracional pode superar qualquer coisa, inclusive programações numéricas”.
Inspiração

Por ser um filme de pouco diálogo, a equipe de animadores de Wall-E teve de apostar muito em drama e humor por meio de atuações corporais. Para isso, o time assistiu incontáveis produções de gênios do cinema mudo, como Charlie Chaplin e Buster Keaton. O conteúdo foi assistido diariamente pelo time, incluindo filmes e curtas, durante 18 meses, principalmente durante a hora do almoço.
Homem Máquina

Ben Burtt foi o designer de som que criou as “vozes” de praticamente todos os robozinhos que aparecem no filme. Foram mais de 2500 sons diferentes gravados para o longa, quase sempre usando materiais metálicos para a composição. O mais curioso disso tudo é que ele esteve por um triz de não embarcar nesse projeto já que, após trabalhar em Star Wars: Episódio III – A Vingança dos Sith (2005), ele disse que estava farto e havia comentado com a esposa que jamais trabalharia novamente em um filme de robôs. Pouquíssimos meses depois, porém, Stanton apresentou suas ideias para Burtt, que ficou encantado com as novidades que o longa prometia. Mais do que isso, o diretor foi bastante convincente ao dizer que precisaria dele para “criar 80% do elenco” de Wall-E. Foi o bastante para ele voltar atrás e embarcar em uma jornada de trabalho que custaria a ele dois anos de comprometimento com a Pixar.
Pós-apocalíptico
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O filme brinca com dois extremos. O primeiro terço dessa aventura é ambientado em uma Terra pós-apocalíptica, na qual Wall-E faz seu trabalho de limpeza e coleta. O resto do longa é ambientado em cenários futurísticos espaciais. Para construir essa Terra destruída, o diretor artístico Anthony Christov buscou inspiração em sua terra natal. Natural da Bulgária, ele comentou sobre os problemas que a capital Sófia enfrentava para armazenamento e descarte de lixo. Mais do que isso, ele trouxe ao time de artistas conceituais imagens da cidade de Chernobil, na Ucrânia, que foi destruída e esvaziada por um acidente nuclear soviético, para que eles tomassem como inspiração. O resultado foi um mundo pós-apocalíptico impressionante.
Apple

Que a carinha do Wall-E foi inspirada em um binóculo que Andrew Stanton ganhou para ver um jogo de beisebol todo mundo já sabe, mas você sabia que a EVA é praticamente um produto da Apple? Pois é, a relação da empresa com a Pixar é muito forte, já que Steve Jobs, cofundador da Apple, foi acionista majoritário do estúdio de animação de 1986 a 2006, quando a Disney comprou a Pixar de uma vez. Em Wall-E, Jonathan Ive, vice-presidente sênior de design industrial da Apple, o homem por trás dos designs revolucionários do iPhone e outros ícones da marca, foi chamado para ajudar a criar o design da EVA. Por isso que ela tem esse visual clean, minimalista e arredondado, tal qual os fones e aparelhos eletrônicos da Apple na época.
Alienígenas

Falando sobre design, a ideia original do filme seria que os habitantes da nave para onde a EVA é levada fossem alienígenas. No entanto, Stanton não estava gostando dessa história de ter uma monarquia de ETs gelatinosos. Da mesma forma, a recepção da ideia também não foi muito positiva. Mas a ideia do formato dos aliens rendeu um novo conceito para a equipe. E se em vez dessas criaturas, a nave fosse habitada pelos próprios humanos, que deixaram a Terra e evoluíram em gravidade espacial, o que alteraria sua estrutura biológica para um corpo mais gordinho e com ossos menores? Bingo! O time adorou o novo conceito e se inspirou em bebês para criar essa nova humanidade sob efeito de sete séculos de evolução.
Extintor

Uma das sequências mais espetaculares de todo o filme é o balé espacial entre Wall-E e EVA no espaço. O robozinho usa um extintor de incêndio para acompanhar os movimentos da amada, criando um espetáculo visual memorável. No entanto, essa sequência deu bastante dor de cabeça para a equipe criativa, porque eles não sabiam se um extintor de incêndio funcionaria desse jeito no espaço. Para resolver a questão, eles consultaram um time de cientistas, mas obtiveram respostas divergentes. Enquanto uns defenderam que seria algo fisicamente plausível, outros afirmaram que, na prática, seria impossível. Porém, como eles já queriam muito fazer essa cena, a teoria física foi o bastante para chancelar a manutenção dela no filme.
Legado de robôs

Grande ameaça do filme, o “robô-capitão” AUTO, que atua como um piloto automático que se recusa a deixar a humanidade a voltar para a Terra, foi inspirado em duas inteligências artificiais famosas do cinema: HAL 9000, antagonista do clássico imortal do diretor Stanley Kubrick, 2001: Uma Odisseia no Espaço; e no MAX, de O Vôo do Navegador (1986), que tem praticamente o mesmo papel que o AUTO no filme. Falando sobre essas ficções espaciais, vale ressaltar que Sigourney Weaver foi chamada para dar voz ao computador principal da nave, em uma referência a seu papel na franquia Alien, que também traz a humanidade lutando pela vida dentro de uma nave isolada no espaço.
Sucesso

Apesar de ter ficado um pouco abaixo das expectativas nas bilheterias (arrecadou pouco mais de 521 milhões de dólares), Wall-E foi um fenômeno dentre a crítica especializada, sendo praticamente unanimidade. Um reflexo disso foi o filme ter se tornado o recordista de indicações ao Oscar da Pixar, com seis indicações nas categorias de Melhor Filme de Animação, Melhor Roteiro Original, Melhor Trilha Sonora, Melhor Canção Original, Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som no Oscar 2009. Dessas seis, levou “apenas” a de Melhor Filme de Animação. Com as seis indicações, o filme se juntou a A Bela e a Fera (1991) como as animações com mais indicações na história da premiação. O barulho foi tanto que houve uma campanha forte para a indicação de Wall-E à categoria de Melhor Filme, mas a Academia não atendeu, gerando muito polêmica sobre um possível preconceito do Oscar com filmes de desenhos animados.

