Logan voltou a ser comentado recentemente no Brasil após o falecimento do lendário ator e dublador, Isaac Bardavid. Com sua voz inconfundível, ele imortalizou com muito amor a versão brasileira do Wolverine de Hugh Jackman. No entanto, não é apenas a versão nacional deste longa que merece destaque. Isso porque, há cinco anos, Logan chegava aos cinemas e trazia uma visão única, até o momento, de um herói da Marvel nas telonas. Como não poderíamos deixar a data passar em branco, o CinePOP vai relembrar a última aventura de Hugh Jackman com as garras de adamantium.


Mas antes de falar sobre o filme em si, é necessário entender o contexto no qual ele foi feito e lançado. Em 2016, os super-heróis já estavam consolidados no cinema, com a Marvel chocando o mundo ao anunciar que o Homem-Aranha enfim se juntaria aos Vingadores. Era um momento no qual o MCU poderia lançar um filme sobre um carrinho de mercado que mesmo assim faria US$ 1 bilhão nas bilheterias. Do outro lado, a DC se preparava para tentar emplacar seu universo cinematográfico com a visão do diretor Zack Snyder. Entre essas duas, havia a extinta FOX e seus X-Men, que já acumulavam uma série de fracassos e reboots, mostrando o quanto o estúdio estava perdido com seus heróis de quadrinhos.

Mas, quando tudo parecia perdido, eles decidiram ousar mais para tentar encontrar uma luz no fim do túnel. Com isso, eles aprovaram Deadpool com um orçamento mais modesto e liberdade para a equipe criativa usar e abusar de palavrões, violência gráfica e muito humor politicamente incorreto. Para os executivos, o sonho de Ryan Reynolds estava fadado a mais um fracasso no universo dos mutantes. Porém, o Mercenário Tagarela se apegou a sua versão dos quadrinhos e promoveu um banho de sangue e piadas questionáveis que conquistaram imediatamente o público, rendendo uma verdadeira bolada nas bilheterias e uma série de críticas positivas da imprensa.


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Diante do sucesso estrondoso do filme de heróis para maiores de 18 anos e de que Hugh Jackman não renovaria seu contrato para seguir vivendo o Wolverine nos cinemas, a FOX decidiu enfim atender a um pedido muito antigo dos fãs do Carcaju: uma versão do herói para maiores. Pouco tempo depois de Deadpool estrear nos cinemas, surgiu o rumor de que o terceiro capítulo da saga do mutante solitário adaptaria Velho Logan. Uma enxurrada de comentários positivos inundou as redes sociais da FOX, que só voltaria a público algum tempo depois para confirmar o tal boato sobre o filme de 2017.

Era tudo que a legião de fanáticos pelo herói canadense queria. Uma despedida como eles sempre sonharam após dois filmes simplesmente desastrosos (X-Men Origens: Wolverine e Wolverine: Imortal), sob comando de um James Mangold, que agora teria total controle criativo sobre a história, não precisando atender aos desejos do estúdio para tentar encaixá-lo num universo compartilhado. Oras, se é um final para o personagem, os outros que se virem. O foco será no Logan.


Assim, o filme chega aos cinemas trazendo cenas de violência explícita, com o Logan desiludido em um futuro apocalíptico, rasgando pescoços e partindo cabeças de quem tentar roubar seu carro. Essa versão mais brutal, repleta de cenas gráficas e palavrões lembra muito os quadrinhos solo do herói, que costumavam trazer esse tom mais sóbrio e pessimista acerca do velhinho mais conservado de todos.

Mais do que isso, o longa aproveitou para resolver o passado do herói e explorar seu legado. Dessa forma, ele divide a tela com seu velho amigo, Charles Xavier (Sir Patrick Stewart) e sua filha desconhecida, a X-23 (Dafne Keen). Foi um excelente uso daquela frase clichê do “respeite o passado e abrace o futuro”.

E mesmo com a trama toda focada no fim da linha de Logan, é justamente o Professor Xavier quem rouba a cena. Após quase 20 anos vendo o mentor dos mutantes da Marvel como um símbolo de moral e ética desse universo, o choque de vê-lo retratado como um inválido sofrendo de demência é muito grande. É ver um dos maiores perecer e ter um fim miserável, uma crueldade realista que costuma assolar o fim da vida de parentes, famosos e ícones da história, provando que nem mesmo ele é imune ao tempo.

Essa abordagem somada à atuação magistral de Sir Patrick Stewart fizeram com que os fãs iniciassem uma campanha para a indicação dele ao Oscar. Não foi dessa vez, mas não é por isso que seu trabalho será diminuído. O ator passa com muita verdade as dores e os conflitos de um personagem que está próximo ao fim e não encontra mais tempo para se prender a rótulos ou formalidades. É fascinante.


Contrapondo o fim da jornada de Xavier, a pequena e silenciosa Laura/ X-23 (Keene) está apenas no início de sua vida. Gerada em laboratório, a menina foi criada para ser uma arma, tal qual o Logan. O que deveria uni-los, porém, inicialmente causa um afastamento entre os dois, já que dois iguais não costumam se bicar. Eles refletem os defeitos e qualidades um do outro, o que faz com que eles não se suportem.

Com o avanço da viagem e com o filme se transformando em um road movie, a menina se desenvolve mais e começa a falar. Sim, ela passa 2/3 do longa de boca fechada. E quando abre a boca, não para mais também. Ela mostra suas esperanças de um futuro melhor para si e seus amigos, o que mexe com Logan, um homem de três séculos que já não sabe o que é esperança há muito tempo. E aí entra a reta final de redenção do herói. Mesmo apático e sem visões positivas para o futuro, a chegada de sua filha faz com que ele mude seu pensamento e se sacrifique para que ela tenha chance de viver a vida que ele nunca pôde. E afinal de contas, ser pai não é exatamente sobre isso? Fazer das tripas coração para garantir a felicidade e segurança da prole?

O Wolverine fazendo aquilo que os executivos da FOX deveriam ter feito nos anos 2000.

Isso tudo só é possível graças ao melhor trabalho da carreira de Hugh Jackman, que manteve aquele jeito irônico e durão que o consagrou no papel, mas trazendo novas camadas, que humanizaram significativamente o homem que já viu de tudo. Ele está cansado, ele quer morrer e quando finalmente consegue o que quer, descobre que ainda havia algo pelo qual havia a pena lutar. É um fim doloroso, mas ridiculamente condizente com a trajetória de dor e tragédia do personagem nos cinemas.

Além da atuação, Hugh conta com uma caracterização perfeita, que o envelhece na medida e estampa em seu rosto o cansaço de tantos anos vividos sem poder controlá-los para ter uma vida normal. Foram muitas perdas, muita gente querida indo embora por conta dele. Isso causa um impacto na vida das pessoas e por mais duronas que elas sejam, não tem como evitar. O efeito dessa dor é refletido diretamente na personalidade e vida do herói neste último longa.


O filme ainda encontra momentos para mostrar uma projeção de como poderia ser a vida de Logan caso ele tivesse uma existência normal, como é visto na cena do jantar com a família da estrada. Mas logo a realidade de sua vida bate, e ela é brutal.

Em meio a esses personagens, o longa encontra seu vilão no governo e seus experimentos secretos, mas eles estão ali apenas para ter uma ameaça nesse fechamento de ciclo. E são competentes em sua função. Mas a verdade é que o filme se resume mesmo a essa trinca de Logan, Charles e Laura, que fazem desta aventura dramática um verdadeiro épico dos filmes com super-heróis.

Logan está disponível no Star+.


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