Panorama Suíço | Be’Jam Be: Esse Canto Nunca Terá Fim – amor e luta do povo Penan pela posse de suas terras

Por Nívia Passos

“Esta não é uma canção de felicidade. Está é uma canção sobre nossas florestas e sobre nossos rios. Eles são nossa vida e, agora, estão devastados pelas empresas”.

Não é preciso entender muito de história ou se interessar pelo assunto para saber que, desde o período de expansão dos países europeus, as tribos indígenas tiveram suas terras devastadas e sua cultura desrespeitada. De uma hora para outra, viram seu espaço transformado e os hábitos do “homem branco” – incluindo a religião – sendo impostos sem mais nem menos. Anos se passaram desde então, e com o surgimento de organizações que defendem minorias e a ideia de que a época de exploração já chegou ao fim, tem quem acredite que tudo isso ficou lá no passado. No entanto, esse cenário ainda é uma realidade mais viva do que qualquer um de nós pode imaginar dentro do conforto de nossas casas – e é justamente sobre isso que o documentário Be’Jam Be: Esse Canto Nunca Terá Fim (2017) aborda de forma tocante em seus 87 minutos de duração.

Dirigido por Cyprien Ponson e Caroline Parietti, o longa documental faz parte da seleção de filmes da 7ª edição do Panorama do Cinema Suíço – evento que será realizado em São Paulo entre os dias 9 e 21 de maio; resultado da parceria entre o Centro Cultural Banco do Brasil, o SESC SP e o Consulado da Suíça no estado. Com linguagem acessível para todos os públicos, ele reúne os depoimentos do povo Penan do Sarawak – que fica situado na Ilha de Bornéu, na Malásia – sobre a chegada das empresas que querem desmatar suas florestas, enquanto, entre uma cena e outra, um dos líderes do local canta sobre a importância do espaço, a simplicidade de seus costumes e sobre o medo de acabarem perdendo tudo. Nessas sequências, que justificam o título do documentário, é onde fica mais claro o quanto cada pedaço de terra é importante para eles, e o medo real – quase desesperador – de acabarem sem nada e precisando se adequar à outras realidades.

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Mas não é só através dos versos da tal ~canção que nunca terá fim ~ que acompanhamos o amor dos Penan pelo seu território. Além de vários planos da floresta – mostrando as árvores, o canto dos pássaros e toda a tranquilidade que paira por lá -, os diretores também acertam ao focar a câmera no olhar dos entrevistados enquanto eles falam sobre suas terras. E a deixam ali por mais alguns segundos, mesmo depois do fim dos depoimentos, para que o público consiga vislumbrar a angústia escondida nos olhos de cada um – principalmente os mais velhos, que falam com nostalgia dos tempos em que a ameaça do desmatamento ainda parecia distante e um velho conto do passado.

Outro recurso que chama atenção e mostra como o documentário, apesar de simples, foi pensado nos mínimos detalhes é a sequência em que várias pessoas da aldeia, ao som de uma música de suspense, mantêm os olhos fixos para frente – em direção ao que logo entendemos se tratar de uma TV.  Por causa da tensão no olhar, tudo indica que eles estão vendo algum terror bem cabuloso; mas, quando a câmera finalmente mostra a televisão, o que aparece é a cena de um filme em que os vilões estão cortando as árvores de uma floresta enquanto o protagonista – que até lembra o icônico personagem Rambo, interpretado por Sylvester Stallone – usa sua força para defender o espaço. Nesse momento, por mais que haja uma rápida (e intencional) quebra de expectativa, tudo faz sentido. Afinal, o que é Um Lugar Silencioso (2018) ou Atividade Paranormal (2007) perto do horror de ver o que você conhece como lar à beira da destruição?

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Mais um detalhe que merece ser destacado em Be’Jam Be é a maneira como a mise-en-scène é trabalhada para passar a mensagem. Em vários momentos, principalmente durante os depoimentos, a filmagem é feita nas sombras – o que pode funcionar como uma metáfora sobre a invisibilidade dos habitantes das aldeias. No início do documentário, antes mesmo dos créditos iniciais, um dos moradores da tribo faz uma associação entre filme e sombra (“Você diz fazer um filme, em Penan, dizemos sombra“), mas o desenrolar dos acontecimentos e a maneira como o assunto é abordado no documentário também nos permitem essa leitura. Ainda mais quando o filme vai se encaminhando para o fim, e todos se reúnem em uma prece antes de encontrarem os gerentes das companhias que querem fazer obras na floresta. Nessa hora, o pedido de socorro nos olhos e a maneira como pedem ajuda aos céus mostram que esse povo não tem mais a quem recorrer e, ainda que queira lutar, pressente que a história pode ter um final ruim por estarem completamente sozinhos.

Para quem assiste, o que fica é o nó no peito por imaginar que os costumes e toda a simplicidade de vida dos habitantes da tribo – que, como eles mesmo falam em vários momentos, dinheiro nenhum compra – pode ser comprometida pela ambição das tais empresas que, com razão, eles tanto apontam como vilãs. Mas, ao acompanhar a força e o amor desse povo por suas terras – em um documentário que poderia se tornar cansativo se não tivesse tantos detalhes sutis para nos fazer entrar na história – também resta a esperança e a torcida para que essa canção de amor e pertencimento à natureza não chegue mesmo ao fim.

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