Crítica | Netflix acerta em cheio com o envolvente drama fantástico ‘Sombra e Ossos’

Cuidado: possíveis spoilers à frente.

Quando a Netflix anuncia qualquer adaptação de grande calibre, é de costume que fiquemos ou com um pé atrás, ou animados para ver o que a imperiosa gigante do streaming trará para seu infindável catálogo. Dentre as produções mais bem recebidas pelo público e pela crítica, temos a divertida e despretensiosa ‘The Old Guard’, ação estrelada por Charlize Theron, e a recente releitura da peça ‘A Voz Suprema do Blues’, trazendo Chadwick Boseman em seu último papel antes do trágico falecimento. Conhecendo a pré-disposição da plataforma pelo gênero da ficção fantástica, é natural que ela se valha de diversos títulos que seguem uma narrativa conhecida, familiar e aconchegante ao público – e o mesmo se dá com a vindoura Sombra e Ossos, sem sombra de dúvida um dos projetos mais ambiciosos do ano.

Àqueles não familiarizados, a série é baseada na saga de romances assinada por Leigh Bardugo, escritora israelense que resolveu se afastar das formulaicas rendições londrinas e célticas que dominam a cultura mainstream e criou um universo magnífico, recheado de reviravoltas e, obviamente, de críticas sociais mascaradas por metáforas mágicas e míticas. A trama central é destinada a Alina Starkov (vivida na produção pela apaixonante presença de Jessie Mei Li), uma órfã que trabalha como cartógrafa de um território dividido pela misteriosa presença da Dobra das Sombras – uma muralha de nuvens obscuras, intransponível e lar de criaturas mortais que destroem aqueles que ousarem entrar em seus domínios. Colaborando ao lado de seu melhor amigo e praticamente irmão, Mal Oretsev (Archie Renaux), ela descobre que é, na verdade, membro da comunidade grisha – indivíduos que podem moldar e controlar os elementos da natureza, bem como moldar a realidade a seu bel-prazer; mais do que isso, ela descobre que é a Conjuradora do Sol, uma rara criatura que insurge como a salvação de todos e pode destruir a Dobra.

A princípio, é de se esperar que a narrativa siga certos elementos básicos de toda e qualquer construção fantástica: situar o público em um determinado momento no espaço; apresentar os problemas principais dos protagonistas; e mergulhá-los em um frenesi de metamorfoses que caminham, progressivamente, a um catártico clímax e aparente resolução dos problemas. Diferente do que se espera – e divergindo de outras investidas semelhantes, como ‘Once Upon a Time’, para nomear uma delas -, Alina confronta seu verdadeiro “eu” logo no final do primeiro capítulo, saindo de uma condição martirizada pela descendência miscigenada e insurgindo como a heroína de que todos precisavam. Para trilha com segurança esse novo caminho, ela é auxiliada pelo sedutor e misterioso General Kirigan (Ben Barnes), que tem a habilidade de controlar as sombras e, por esse motivo, é alcunhado de Darkling.

É claro que Alina, nesse meio-tempo, enfrenta um número exaustivo de obstáculos: de um lado, mortais querendo caçá-la para servirem a propósitos individualistas e egoístas ou apenas utilizando-a de exemplo para livrar o mundo dos Grisha e retorná-lo à “normalidade”; de outro, membros da própria raça que não aceitam sua presença e que querem transformar sua vida em um inferno, como é o caso de Zoya (Sujaya Dasgupta), dominadora dos ventos e das tempestades; como se não bastasse, um trio de golpistas cruza a Dobra para raptá-la e levá-la ao outro lado, Kerch, formado por Kaz (Freddy Carter), Jesper (Kit Young) e pela estonteante e circense Inej (encarnada com perfeição invejável por Amita Suman).

As múltiplas tramas, passíveis de se fundirem em um amontoado inexplicável de ações e consequências, levam o tempo necessário para se desenrolarem e nunca dão ares de apressamento – com exceção de breves deslizes. Eric Heisserer, resgatando obras anteriores (incluindo o reflexivo sci-fi A Chegada), sabe como controlar e equilibrar o arco de cada protagonista e coadjuvante para fornecer o máximo de profundidade a cada um deles, supervisionando um time criativo que ainda tem muito a contar. Mesmo assim, é inegável dizer que, conforme nos aproximamos dos episódios finais da temporada de abertura, algo falta; a obrigação de não deixar pontas soltas (e aqui, não me refiro aos cliffhangers para ciclos futuros, e sim a decisões mirabolantes que não condizem com o que foi apresentado) mostra-se como fator decisivo para solavancos rítmicos e um aguardado clímax que não atinge sua potencialidade total.

Em outras palavras, o pano de fundo principal é manchado com algumas pinceladas fora de lugar e desafinações perdoáveis e ofuscadas pelo trabalho técnico-artístico. Interpretações à parte, é o design de produção que mais nos chama a atenção, principalmente pela renegação à obviedade: é claro, Kerch nos transporta para a Londres vitoriana de tantos dramas históricos da televisão internacional, mas é Ravka que nos conquista pela reinterpretação de uma Rússia czarista marcada pelo militarismo, pelos trajes acolchoados e pelas túnicas cerimoniais que tiverem presença na dinastia Romanov. Ambas as contradições são alimentadas pelas explícitas críticas à demagogia monárquica e aos levantes antidemocráticos do conservadorismo social materializado com as esparsas aparições dos soldados fjerdan.

Sombra e Ossos é uma boa adição ao catálogo da Netflix e uma investida original quando pensamos nas inúmeras adaptações que saem ano após ano na indústria audiovisual. Apostando fichas na humanidade de seus personagens e num sólido enredo, a série funciona como um ótimo entretenimento que nos deixa ansiosos para descobrir o que vai acontecer.

Notícias

As MELHORES Animações do Ano (Até Agora)

Estamos nos aproximando do fim da primeira metade de...

‘Barbie’ vai ganhar um NOVO filme!

Chris Meledandri, CEO da Illumination, comentou recentemente sobre os...

‘Mensagens para Isabelle’: Rom-com com Zoey Deutch e Nick Robinson SURPREENDE no Rotten Tomatoes!

'Mensagens para Isabelle' ('Voicemails for Isabelle'), comédia romântica estrelada...
Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.