Crítica | ‘Halston’ investe em visuais estonteantes e se esquece do principal: a história


A história é sempre a mesma – Ryan Murphy continua até hoje como um dos realizadores mais prolíficos da contemporaneidade, supervisionando ou comandando diversas produções seriadas e fílmicas desde o longínquo ‘Nip/Tuck’, em 2003. Mas exatamente a que custo?

Afinal, Murphy, conhecido por firmar parceria com diversas emissoras e delinear múltiplos projetos ao mesmo tempo, parece estar reciclando materiais de uma forma mais exaustiva do que o normal. Com talvez a exceção da antologia ‘American Crime Story’ e de ‘Pose’, que continuam apresentando originalidade e emocionantes tramas, as recentes incursões do diretor e roteirista não atingem todo o potencial que prometem. Apenas nos dois últimos anos, tivemos a desequilibrada ‘Ratched’, cuja força veio com a atuação impecável de Sarah Paulson como a enfermeira Mildred Ratched; o exagerado onirismo de ‘Hollywood’, que tentou reconstruir a história do cinema em detrimento da veracidade; e a 9ª ‘American Horror Story’, cuja homenagem ao subgênero slasher a transformou em um aglutinado de narrativas sem sentido que se valeram mais da nostalgia do que de algo sólido.

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Agora, nos primeiros meses de 2021, Murphy está pronto para retornar com mais um projeto subsidiário da Netflix, com quem firmou acordo em 2018. A minissérie ‘Halston’, composta por apenas cinco episódios, já vinha demonstrando uma certa repaginação estética de obras similares, mergulhando de cabeça na segunda metade do século passado para explorar a complexa e apaixonante vida do estilista Roy Halston Frowick (aqui interpretado com maestria por Ewan McGregor). Para aqueles que não o conhecem, Halston nasceu em uma pequena cidade de Iowa, nos Estados Unidos, e ascendeu à fama após arquitetar o icônico chapéu pillbox da ex-primeira-dama Jacqueline Kennedy. Centro da indústria da moda dos anos 1970 e 1980, o designer tinha uma influência gigantesca na iconografia e era melhor amigo de nomes como Liza Minnelli, Andy Warhol e Bianca Jagger.

É claro que, levando em consideração as lendárias personalidades que aqui aparecem, o mínimo que se poderia esperar era uma telebiografia competente e que respondesse a algumas questões não apenas do protagonista titular, mas também dos segredos por trás da intrincada engrenagem no cenário fashion. Enquanto nem tudo está perdido, principalmente no tocante à imagética da produção, aos exuberantes figurinos de caxemira e de ultrasuede e ao vibrante retrato da discoteca nova-iorquina, Murphy, isolando-se nos bastidores ao lado de Ian Brennan, Christina Vachon e tantos outros, deixa que Sharr White e Daniel Minahan tomem as rédeas da história e se esqueçam de, no final das contas, criar uma.

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Após um interessante início, que explana a infância traumática e abusiva de Halston, os episódios parecem se valer muito do frenesi artístico do que de um enredo que realmente tenha começo, meio e fim. McGregor faz um trabalho excepcional ao incorporar os trejeitos marcantes do estilista, desde sua voz monotônica até seus bordões ácidos e irônicos – algo que também é visto na estupenda encarnação maior-que-a-vida de Krysta Rodriguez como Minnelli, até mesmo na rendição de “Liza with a Z”. Entretanto, performances à parte, White não tem ideia em qual direção deseja seguir – apenas que irá contar a ascensão, a queda e a ressurreição de um dos nomes mais controversos de todos os tempos. E, à medida que a obra se desenrola, novos personagens vão surgindo no horizonte para tornar as tramas ainda mais convulsionais.

É interessante notar de que forma Minahan tenta ao máximo se afastar da obviedade, por mais que respalde em algumas fórmulas dramáticas bastante vistas nas últimas décadas. O ponto mais atraente é, sem sombra de dúvida, a transposição cronológica às inflexões técnicas tanto dos enquadramentos de câmera quanto à fotografia de Tim Ives e William Rexer. O diretor acompanha a evolução (ou in-volução, se assim preferirem) da sociedade, mostrando todas as facetas de Halston através das roupas e de sua martirizada mente criativa, desde os enlaces românticos com os homens de Manhattan, as desavenças com Elsa Peretti (Rebecca Dayan) e Joe Eula (David Pittu) e a conquista de um mundo que, conforme ele mesmo diz, não estava preparado para o tinha a oferecer. A partir daí, nota-se uma afeição contraditória por uma atmosfera documental que aposta até mesmo numa reconstrução analógica ao mesmo tempo que abre espaço para a novelização.

O roteiro, por sua vez, tem como principal objetivo manter o público motivado e instigado por todos os eventos da vida de Halston, nos levando à Batalha de Versalhes com versões dos ilustres Oscar de la Renta e Anne Klein, mostrando o saudosismo narcótico do célebre Studio 54 e até mesmo calcando a tênue linha que separa a haute couture da produção em massa. O problema é que não há quaisquer explicações para a entrada e a saída de diversos coadjuvantes que, de fato, não têm nenhuma importância. O relacionamento de Halston com a magnata do jornalismo da moda ou com a própria mãe é jogado profusamente para aumentar a carga dramática, mas nunca sai da zona de conforto – pelo contrário, traz a personalidade do artista para uma superficialidade condenável. Em uma determinada sequência, há menção a bloqueios emocionais dos quais o estilista precisa se livrar – e ele faz isso com rapidez monumental demais para ser levado a sério.

Investindo esforços em um majestoso visual, ‘Halston’ é familiar demais para representar alguma centelha de novidade nessa bolha de produções originais da Netflix e, eventualmente, nem os mais elegantes vestidos de tafetá e casacos trench coat são suficientes para desviar a atenção das múltiplas falhas que despontam na minissérie.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.