Crítica | As Verdades: Lázaro Ramos e Drica Moraes estrelam brilhante suspense adaptado de icônico conto japonês

Em meio a sete visões de um mesmo crime, o leitor do conto Dentro de um Bosque é levado a uma espiral de meias verdades e mentiras afloradas sobre a morte de um samurai. Até hoje uma das maiores histórias da literatura japonesa, a obra de Ryūnosuke Akutagawa continua ganhando vida, diferentes percepções e novas leituras. E de 1922 em diante, passando pelos anos 50 com a adaptação de Akira Kurosawa – intitulada Rashomon, chegamos em 2022 – mais especificamente no filme As Verdades. Aqui, o diretor José Eduardo Belmonte e o roteirista Pedro Furtado transformam o icônico conto em uma história que exala a brasilidade regional do interior da Bahia, a partir de um tema universal.

Provocador e instigante, o longa rapidamente arrebata a audiência com uma trama cheia de questionamentos, mas pouquíssimas respostas. Trazendo um Lázaro Ramos de visual mais abatido e exausto, As Verdades o apresenta como um policial marcado por memórias inacabadas de um amor furtivo e avassalador. Diante de uma misteriosa tentativa de assassinato, ele deve questionar três personagens bem complexos para desvendar o crime: um político em ascensão (José Carlos Machado), um matador de aluguel (Thomás Aquino) e uma jovem e sensível mulher (Bianca Bin).

Confundindo nossas percepções em seus dois primeiros atos, o thriller criminal é construído em camadas e pequenas subtramas que juntas formam uma complexa teia de violência contra a mulher. Alicerçando a trama no contraste entre fatos e mentiras, As Verdades é muito mais do que uma profunda análise sobre a capacidade humana de perceber e transmitir a verdade objetiva. Explorando as densas raízes de abusos que nascem a partir de relações disfuncionais, o longa é uma eclosão de personalidades, princípios e comportamentos erráticos que são frutos dos meios sociais aos quais cada personagem pertence.

Com um plot twist surpreendente, o thriller é um genuíno mosaico artístico, que entrega um excepcional entretenimento para os fãs do gênero, à medida em que convida a audiência a uma poderosa reflexão sobre corrupção de caráter e as consequências em efeito dominó de famílias desestruturadas. Com uma direção de fotografia belíssima, que destaca a beleza do interior da Bahia, As Verdades é um banquete de performances poderosas, que salienta ainda mais a versatilidade criativa de Lázaro Ramos, que nos leva consigo em sua profunda tristeza e indignação. Drica Moraes também fortalece seu brilhantismo em uma atuação apaixonante, complexa e delicada, ao lado de uma Bianca Bin que parte nossos corações em suas lágrimas genuínas.

Valorizando o tempo de tela de cada um dos personagens, dando espaço para Thomás Aquino, Edvana Carvalho e o veterano Zé Carlos Machado explorarem seus dons artísticos, o suspense criminal é mais uma validação da riqueza do nosso cinema brasileiro, capaz de unir elementos conceituais e o fator entretenimento em um único filme. Reflexivo, mas formado também por momentos eletrizantes que levam a audiência para o extremo da ansiedade e angústia, As Verdades é um thriller existencial introspectivo, que nos tira o fôlego. Seu final simbólico e agridoce ainda nos deixa um tanto à deriva, sob uma densa incógnita: Qual é o real significado de se fazer justiça e trazer a verdade à tona em uma terra esquecida?

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