terça-feira, janeiro 27, 2026

Crítica | ‘Magnum’ cativa com a jornada pessoal dos heróis ocultos da Marvel

CríticasCrítica | 'Magnum' cativa com a jornada pessoal dos heróis ocultos da Marvel

Após adiamentos e uma série de incertezas acerca do projeto, a minissérie Magnum chega nesta terça-feira (27) ao Disney+. Estrelada por Yahya Adbul-Mateen II e Sir Ben Kingsley, a produção é inspirada no herói homônimo dos quadrinhos da Marvel. Porém, sua história trágica é convertida em um estudo de personagem voltado para os dramas e desafios que a classe artística americana enfrenta na jornada pelo sonho do estrelato em Hollywood.

Ambientada em um recorte de tempo indefinido – só temos certeza que acontece após os eventos de Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis (2021) -, a série acompanha Simon Williams (Mateen), um aspirante a ator que está vivendo um pequeno caos em sua vida pessoal. Sofrendo para conseguir papéis pequenos, ele não consegue pensar em nada além de entender qual o passado de seus personagens. Ele foco excessivo faz com que ninguém aguente ficar perto dele, o que culmina no término de um namoro e na perda de papéis simples em projetos promissores. Desolado, o rapaz parece não ter mais esperança em realizar seu sonho de ser um ator respeitado de Hollywood. Porém, um ato de coragem vai fazer com que sua vida mude de uma vez por todas.

Simon Williams vive um momento de baixa na carreira e na vida pessoal. Divulgação/ Marvel Television. © 2025 MARVEL.

Ele consegue um teste para estrelar o remake de Magnum, o filme de super-heróis que marcou sua infância e fez com que ele quisesse ser ator. Diante dessa oportunidade, o rapaz entra em uma neura sem precedentes, já que ele considera esse o papel da sua vida. Para complicar ainda mais a situação, Simon esconde um segredo complexo: ele tem superpoderes de verdade, o que ele teme que seja um impeditivo para sua entrada e ascensão em Hollywood.

Ao longo de oito episódios, a série acompanha todos os receios e fragilidades que esse homem extremamente poderoso carrega dentro de si, e aposta justamente na identificação para cativar o público, o que funciona perfeitamente. Ao abordar essa persona de Simon, dando mais foco a quem ele é em vez dos poderes dele, Magnum resgata a “Fórmula Marveldos quadrinhos, estratégia criativa que fez das HQs da Marvel o grande fenômeno literário americano na década de 1960.



Nesse período, a “Fórmula Marvel” nasceu das mãos de Jack Kirby e Stan Lee, em um processo criativo que dava muita liberdade para os artistas, que desenhavam as histórias sem ter um texto pronto, apenas um conceito. Enquanto isso, os roteiristas apenas chegavam para interpretar a história visual e completar com os argumentos. Esse formato fez com que as identidades secretas se tornassem mais importantes que os super-heróis. Por trás das máscaras, os leitores descobriram que haviam personalidades fortes e seres humanos comuns, muitas vezes tendo de lidar com seus poderes como pequenas maldições em meio a um cotidiano próximo ao de quem estava no mundo real. Surgiram, nessa época, heróis como o Quarteto Fantástico, X-Men, Vingadores, Hulk, Thor, Homem de Ferro, Demolidor e até mesmo o Homem-Aranha.

Jack Kirby e Stan Lee revolucionaram a forma de contar histórias de super-heróis nos quadrinhos. Foto: Reprodução.

É curioso ver como uma série que se mantém tão fiel à fórmula dos quadrinhos conseguiu fazer uma adaptação tão distante do material original. E a verdade é que essas mudanças em Simon, deixando seu passado de filho falido de um industrial que acaba sendo usado como marionete por vilões para atacar os Vingadores, e dando foco apenas à fase em que ele desenvolve interesse pela atuação foi um acerto tremendo. Porém, na série, ele não se satisfaz em ser “dublê” por conta de seus poderes. Ele acredita na arte como salvação e vê na atuação sua verdadeira missão de vida, como se ele tivesse nascido para encantar o mundo com seu trabalho.

Outra mudança é colocá-lo como filho de imigrantes haitianos. Sua família prosperou no país, enquanto Simon segue preso ao sonho de ganhar a vida como ator. A situação da imigração cria essa identificação com o público, porque a vida de quem persegue cegamente um sonho costuma ser solitária, ainda mais na arte. O rapaz não consegue fazer amigos e parece estar sempre com receio de ser julgado por ser quem é. Essa analogia breve dos poderes à imigração é interessantíssima, principalmente quando a série passa a abordar os familiares do homem. Todos são bem sucedidos, menos o Simon, que segue sustentado pela mãe, talvez a única pessoa que o trata com carinho nessa vida. É bacana mostrar esses dois lados da imigração, mostrando que é sempre possível ser julgado até por quem deveria te apoiar nessa situação complexa.

A série faz uma analogia dos poderes ocultos com a origem de Simon. Divulgação/ Marvel Television. © 2025 MARVEL

Essas relações familiares dão uma grande profundidade a esse personagem brilhantemente interpretado por Yahya Adbul-Mateen II. Dar vida a um ator que está começando não é um trabalho fácil, ainda mais para um nome experiente como Mateen. Ele domina as brincadeiras e dramas que esse momento de baixa traz para a vida de um ator, a famosa busca por uma chance, e consegue convencer sem fazer esforço. Ao seu lado, Sir Ben Kingsley retorna à pele de Trevor Slattery, o ator frustrado que foi usado como marionete de terroristas ao interpretar o papel do Mandarim, em Homem de Ferro 3 (2013). A série mostra sua volta à Los Angeles após passar anos preso no cativeiro do verdadeiro Mandarim (Tony Leung), como visto em Shang-Chi (2021).

O comprometimento de Trevor com sua paixão pela arte e a promessa feita a sua mãe de que encantaria o mundo com seu trabalho faz com que Simon veja nele um espelho, um tipo de mentor profissional, por mais que Slattery viva ainda sob os efeitos de ter seu rosto associado a um terrorista internacional. É curioso como ele está tão obcecado em conseguir uma chance que aceita ouvir conselhos de alguém que praticamente viveu sua vida na fase de drama e desilusão que ele está passando nesse momento. Ainda assim, é dele que saem os maiores conselhos e indicações para que Simon consiga sua tão sonhada chance em Hollywood.

Simon Williams e Trevor Slattery desenvolvem uma relação de aprendiz e mentor. Foto: Divulgação/ Suzanne Tenner. © 2024 MARVEL

A relação entre eles é o ponto alto da série, que abordam as diferentes facetas de quem persegue o sonho hollywoodiano. Quem está começando e quem está tentando há décadas. Eles mostram os diferentes agentes desse mercado, o que eles cobram, os “heróis” e “vilões” da indústria e há uma série de participações especiais que brincam com os figurões do mercado. Talvez a melhor piada da série seja justamente sobre isso, quando eles abordam um ator consagrado que conseguiu sua carreira justamente ao passar a perna no amigo – um hábito jamais abandonado por ele, diga-se de passagem. É uma piada singela, mas hilária.

No fim, ainda existe um espaço na produção para um núcleo de conexão aos eventos do Universo Cinematográfico Marvel, com o resgate do Departamento de Controle de Danos, que foi introduzido em Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa (2021) e desenvolvido em Ms. Marvel (2022). Mas nada que ofusque o verdadeiro brilho deste show, que é o desenvolvimento pleno de Simon Williams na busca pela realização de seu sonho. É algo tão diferente dos padrões da Marvel que nem mesmo existe um grande vilão por trás das coisas. É tudo um grande processo de entrada em Hollywood, que pode acontecer com qualquer um.

Divulgação/ Marvel Television. © 2025 MARVEL

Com essa proposta mais pé no chão, Magnum diverte e emociona ao promover esse resgate da abordagem mais intimista do protagonista, cuja personalidade e dramas interessam mais do que os superpoderes. Sem se preocupar em conectar a história a produções futuras do MCU, a série entrega um arco redondinho de seu protagonista em uma das melhores séries da Marvel para o Disney+. E para quem estava preocupado com o trabalho do diretor Destin Daniel Cretton no vindouro Homem-Aranha: Um Novo Dia, seu trabalho nessa série é muito promissora para quem torce por uma perspectiva mais próxima dos quadrinhos do Cabeça de Teia. Seu talento em inserir um super-herói como o Magnum no mundo real casa perfeitamente com a pegada de “Amigão da Vizinhança” do Homem-Aranha.

Magnum chega ao Disney+ nesta terça-feira (27).

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