sexta-feira, janeiro 30, 2026

Crítica 2: ‘Socorro!’ | Sam Raimi subverte expectativas em terror ALUCINANTE

CríticasCrítica 2: 'Socorro!' | Sam Raimi subverte expectativas em terror ALUCINANTE

Um chefe e uma funcionária que se odeiam ficam isolados em uma ilha deserta, onde acabam descobrindo mais um sobre o outro, enquanto o resgate não chega. O que parecia uma típica premissa daquelas comédias românticas que passavam na Sessão da Tarde nos anos 2000 acaba sendo subvertida em Socorro!, um filme de terror alucinante com o selo Sam Raimi de qualidade.

Para quem não está associando o nome aos trabalhos, Raimi está eternizado na história do cinema por duas franquias espetaculares: A Morte do Demônio (que ajudou a consolidar o Terror Trash na década de 80) e a trilogia Homem-Aranha, que misturou elementos dramáticos com ficção científica para construir uma das trilogias de super-heróis com mais coração. E essa veia autoral é a principal característica dos trabalhos do diretor, que consegue abordar o grotesco de forma assustadora, dramática ou até mesmo cômica, sempre de forma convincente e criativa.

Foto: Brook Rushton. © 2025 20th Century Studios. All Rights Reserved.

Após passar as últimas décadas mais voltado para a produção de franquias de terror, Sam Raimi retorna as suas origens ao dirigir Socorro!, um longa que transita entre a comédia e o terror com uma agilidade e perspicácia deliciosas de ver. A trama parece ter saído diretamente das comédias românticas clichés, ou daquelas fanfics bizarras que vez ou outra viralizam nas redes sociais, em que um patrão arrogante fica preso numa ilha deserta com a funcionária esquisita e eles acabam desenvolvendo uma paixão improvável em meio a provas de sobrevivência.

No entanto, Raimi usa esse cenário de fanfic para contar uma história de libertação feminina que vai dialogar perfeitamente com pessoas de todo o mundo por abordar um tema universal, que é a exploração do trabalhador. A trama é centrada em Linda (Rachel McAdams), uma funcionária exemplar que vive para o trabalho. Porém, ela é sacaneada pelos colegas de escritório e tem os louros por seus feitos roubados pelo superior, que toma os créditos pelos relatórios perfeitos da moça. Mas tudo bem. Linda segue engolindo sapo por acreditar que será recompensada com o cargo de vice-presidente, algo prometido a ela pelo dono da companhia. No entanto, após a morte desse empresário, é o filho dele, um completo babaca, que assume os rumos da empresa e opta por dar a vice-presidência a um amiguinho incapacitado de faculdade.



E é justamente nessa introdução que o diretor conquista o público. Sam Raimi tem um olhar sobre o cotidiano muito assertivo. Não por acaso, o Peter Parker de Tobey Maguire foi muito mais celebrado do que o próprio Homem-Aranha. Os perrengues e sacrifícios que ele fazia no dia a dia conseguiram dialogar com públicos de diferentes idades, fazendo do personagem um ícone geracional. Nesses 15 minutos iniciais de Socorro!, Linda repete esse feito ao sintetizar os trabalhadores injustiçados dos escritórios pelo mundo. Ela é esculhambada por ser quem é e não se enquadrar aos padrões sociais da empresa. Com isso, do momento do acidente à condução das relações de poderes na ilha, Sam Raimi lava a alma dos funcionários explorados, proporcionando uma vingança tensa e divertidíssima de Linda.

Foto: Brook Rushton. © 2025 20th Century Studios. All Rights Reserved.

Linda é uma protagonista de moral ambígua, que é constantemente confrontada pelas relações de poder que existem no meio empresarial, mesmo estando em uma ilha deserta. Quando ela se toca que é ela quem está no controle, já que é ela que sabe os truques de sobrevivência, a trama dá uma guinada em que nossa protagonista passa a se valorizar. É muito interessante como a direção retrata a mudança na personagem, que fica mais bonita a cada dia que passa na ilha, enquanto o “patrão”, Bradley (Dylan O’Brien), vai de ladeira abaixo.

Brincando com clichés de filmes de sobrevivência, o longa coloca Bradley em seu maior pesadelo. Ele está preso numa ilha deserta com uma pessoa pela qual ele sente nojo. E pela primeira vez na vida dele, o dinheiro não é capaz de comprar seus bajuladores. Mas ele é o que há de pior no meio empresarial, então se apega ao que restou para tentar manipular Linda a salvá-lo: seu cargo de chefia. No momento em que a moça se recusa a seguir sofrendo as humilhações, a pose do babaca vai por água abaixo, deixando o rapaz completamente exposto. Ele é uma criança mimada que precisa aprender a engolir o próprio orgulho se quiser sobreviver.

Foto: Brook Rushton. © 2025 20th Century Studios. All Rights Reserved.

E vale destacar: que trabalhos espetaculares da dupla! Rachel McAdams tem um de seus trabalhos mais diferentes aqui, interpretando uma otimista inveterada que flerta com a psicopatia imposta por uma vida contida pelos limites que os outros impuseram a ela. Enquanto isso, Dylan O’Brien é simplesmente nojento. Ele encarna tão bem um playboy do ramo empresarial que talvez fique até difícil de desassociar o ator do papel. Seu Bradley é completamente desprezível, a ponto do público torcer pelo pior a ele a cada cena que aparece. Ainda assim, há momentos em que as ações de Linda, ao assumir o controle da própria vida, fazem com que você chegue a ensaiar sentir pena dele, mas logo em seguida, ele vai lá e apronta outra molecagem de enojar.

Outro ponto que se destaca na construção desse terror é o uso dos elementos Trash, como o sangue jorrando em cenas inusitadas e as cenas escatológicas, para criar essa sensação de repulsa. Só que a visão de Raimi é tão autoral que ele consegue tirar a comédia até desses momentos nojentos. Mais do que isso, ele aposta na iluminação natural do sol para aumentar essa sensação de urgência e pavor que toma conta de Bradley. Em tempos em que os filmes de terror usam e abusam de cenas escuras para criar tensão, Sam Raimi lança um filme alucinante com 90% das sequências de terror iluminadas por um solzão de verão. É sensacional!

Divulgação/ 20th Century Studios © 2025. All Rights Reserved.

No fim, é muito satisfatório ver o desfecho dessa história, e é excepcional ver Sam Raimi voltar aos tempos dourados com uma produção que transborda sua essência. Diretores como ele são mais do que bem-vindos, são necessários nessa crise de criatividade que toma Hollywood.

Socorro! está em cartaz nos cinemas.

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Pedro Sobreiro
Jornalista apaixonado por entretenimento, com passagens por sites, revistas e emissoras como repórter, crítico e produtor.

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