Opinião | Grammy 2026 entrega o prêmio de Álbum do Ano mais importante e emblemático da década para Bad Bunny


Ao subir ao palco da 68ª edição do Grammy Awards para receber a estatueta de Álbum do Ano por ‘Debí Tirar Más Fotos’, o artista porto-riquenho Bad Bunny aproveitou o histórico momento – afinal, essa foi a primeira vez que um álbum em língua espanhola levou para casa o prêmio máximo da noite -, aproveitou o momento para fazer uma poderosa declaração política contra os oficiais da lei dos Estados Unidos. “Fora ICE. Não somos selvagens; não somos animais; não somos forasteiros. Somos humanos e somos americanos”, ele disse, acompanhado de uma enxurrada de palmas e gritos de apoio.

A vitória de Bad Bunny na última edição da maior premiação da música é, sem sombra de dúvida, a mais importante e emblemática da década – e, quiçá, do século. Afinal, o sexto compilado de originais do artista emergiu em um tenso momento político de subjugação e apagamento da cultura latina no território de Porto Rico que, após passar por um destrutivo processo de colonização espanhola entre os século XV e XIX, foi minado pelas políticas neoliberalistas e imperialistas dos Estados Unidos, cujo líder atual, Donald Trump, mostra-se emblema de uma política segregativa e genocida que se utiliza se falsos artifícios e argumentos para diminuir a importância do território.

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Em meio a constantes conversas sobre a libertação e a consagração de Porto Rico como território independente, Trump vem se mostrando cada vez mais autoritário em suas políticas anti-imigratórias, reafirmando um senso-comum de que a população branca, tradicionalista e de língua inglesa do país é superior à própria história do território americano como um todo. Trump é o encontro de séculos de exploração e colonização de uma ideologia autoimposta de hegemonia inabalável e inquestionável, fruto apenas de ações que dependem dos países e locais que sujeitam a lhes servir. Não é surpresa, pois, que os membros do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), utilizem-se de uma prerrogativa inexplicável para atacar qualquer um que não se enquadre no seleto grupo defendido pela mentalidade autocrática e tirânica do presidente.

O que Trump e seus apoiadores não esperavam era a presença de Bad Bunny como força contrária.

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Desde sua estreia no cenário fonográfico, o artista nunca deixou de lado sua herança porto-riquenha, celebrando, inclusive, a diversidade latina que lá se encontra. O território caribenho é lar não apenas de nativo, mas de dominicanos, cubanos, venezuelanos, haitianos e tantos outras nacionalidades que migram para lá em busca de melhores oportunidades e o “sonho americano” – a cruel e ardilosa máxima que vem sido defendida pela mentalidade estadunidense desde as políticas de aproximação do século passado. Dessa maneira, podemos encarar Porto Rico como a expressão máxima da defesa pela diversidade e de que maneira os líderes supremacistas e de extrema-direita se recusam a aceitar um simples fato histórico: a América, como um todo, é formada por imigrantes; os nativo-americanos, por sua vez, passaram por contínuos processos de extermínio que encontraram seu ápice nas investidas ultramarinas europeias do século XV e que, de maneira apologética, foram resgatadas nesses últimos anos.

À medida que constrói uma mistura explosiva de plena, jíbaro, salsa, bomba, reggaeton e house, Bad Bunny esquadrinha sua merecida plataforma para arquitetar textos críticos que são remodelados com produções instrumentais irretocáveis e uma paixão inegável e irrefreável da arte como ferramenta política. A própria direção artística do álbum funciona como uma memorabília poderosa e um exercício mnemônico de junção entre passado e presente: ao colocar duas cadeiras de plástico brancas em um cenário natural, Benito eterniza um elo entre todas as comunidades latinas em uma aproximação histórica, uma celebração cultural de poder inefável que é uma afronta deliciosa e muito bem-vinda ao neocolonialismo estadunidense.

Mais do que isso, utilizar esse ponto como alimento de união e fortificação é um passo importante para mostrar, com todas as letras, que, se existe uma cultura estadunidense, ela é fruto de uma usurpação constante de que foi subjugado pelo ímpeto imperialista que encontrou um novo símbolo com Trump. E, a partir daí, o performer se lança a uma série de narrativas líricas pungentes que singram pela nostalgia melancólica da efemeridade do tempo, como é o caso do lead single “DtMF”, e por sua preocupação com o futuro de Porto Rico como subsídio dos EUA e enfrentando os defensores estadistas com uma densa comparação talhada por “Lo Que Pasó a Hawaii”.

É claro que, se pensarmos em anos recentes, tivemos outras vitórias merecidas na maior categoria do Grammy, como ocorrido no ano passado: Beyoncé, através de um extenso projeto que caminha para seu terceiro capítulo, resgatou a memória afro-americana ao alfinetar a dominação branca no country com ‘Cowboy Carter’, que lhe rendeu a estatueta de Álbum do Ano; porém, é notável como a vitória veio acompanhada de uma exaltação de seu impecável corpo de trabalho, ainda mais quando ‘Lemonade’ trouxe, em 2016, uma análise sociopolítica muito mais importante e crucial em meio à situação dos EUA (e que foi subestimado pela Academia Fonográfica à época).

A vitória de Bad Bunny, por sua vez, carrega marcas centenárias que continuam a ressoar no tratamento dos porto-riquenhos, dos latinos e dos imigrantes que compõe a parcela mais imprescindível de um país de caráter cada vez mais opressor e defensor da demagogia política. Receber o gramofone dourado sendo quem é, Benito se vê dividido entre o amargor do que ele e seu povo carregam e um reconhecimento merecido que serve de combustível para incendiar um levante fundamental – navegando por um misto de orgulho e tristeza generalizados que se concentrou em um dos artistas mais vibrantes e incríveis da atualidade.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.