Ao longo de sua carreira, Christopher Nolan entregou vários títulos que se tornaram um sucesso de público e de crítica, lhe concedendo uma estima incontestável no cenário contemporâneo do entretenimento. Dentre seus longas-metragens mais aclamados, podemos citar a incrível trilogia ‘O Cavaleiro das Trevas’, os sci-fi ‘A Origem’ e ‘Interestelar’, e os dramas ‘Dunkirk’ e ‘Oppenheimer’ – este garantindo ao cineasta as estatuetas de Melhor Filme e Melhor Direção no Oscar. Agora, Nolan está de volta com um de seus projetos mais aguardados e ambiciosos: a adaptação do clássico poema grego ‘A Odisseia’, de Homero.
A história original narra os corolários da sangrenta Guerra de Troia, cujos eventos principais foram centro de outra obra do mesmo poeta, ‘Ilíada’. A trama é centrada na longa jornada que Odisseu (Matt Damon) enfrenta para retornar à sua terra natal, Ítaca, após ajudar o Rei Agamêmnon (Benny Safdie) a destruir a cidade impenetrável e resgatar Helena (Lupita Nyong’o), que havia sido sequestrada das mãos de seu irmão, Menelau, e levada para Troia. Enfrentando a ira dos deuses e diversos obstáculos aparentemente intransponíveis, Odisseu passa mais de vinte anos longe de casa e começa a se questionar sobre se, um dia, conseguirá ver sua família de novo.

Enquanto isso, em Ítaca, o legado e a figura do mítico herói são colocados em xeque quando a rainha Penélope (Anne Hathaway) é aconselhada pelas anciãs a se casar novamente a fim de manter a força de Ítaca frente os ataques dos viajantes do mar, que pilham e destroem tudo que veem. Por isso, dezenas de pretendentes, incluindo o odioso Antínoo (Robert Pattinson), usam e abusam da boa hospitalidade de Penélope com comida e vinho à vontade – enquanto o jovem Telêmaco (Tom Holland), sucessor de trono, é subestimado por aqueles que desejam usurpar o trono enquanto mantém uma fraca chama de esperança viva de que o pai, um dia, irá regressar.
Desde seu anúncio, ‘A Odisseia’ se mostrou como um dos projetos mais difíceis e emblemáticos de Nolan – e o resultado, como podíamos imaginar, é muito positivo, apesar de alguns problemas pontuais na questão do ritmo e da montagem. Diferente de outras incursões ambientadas na Grécia Antiga, o filme mistura os conhecidos tropos dos épicos de época a um potente drama existencialista que traz à tona a personalidade complexa de Odisseu e dos incontáveis personagens do poema de Homero, com destaque à intrincada engrenagem político-social do núcleo envolvendo Penélope e Telêmaco.

A ideia por traz do longa não é arquitetar uma adaptação totalmente fiel do poema de Homero, mas oferecer uma perspectiva ampla do imaginário da época – que já passava pela transição do pensamento mítico aos primórdios da filosofia antiga (cujas pulsões são denotadas no conflito entre gregos e troianos). Nolan, dessa forma, viaja entre o tempo presente e o passado a fim de amarrar uma narrativa não-linear que, inesperadamente, conta com algumas reviravoltas, principalmente àqueles que não leram a obra original (além de apostar fichas em escolhas cênicas que dialogam com a vibrante e irrefreável atmosfera do filme).
Damon faz um sólido trabalho como o protagonista e esquadrinha a falha personalidade de Odisseu, que começa a se questionar das decisões que fez e o fato da Guerra de Troia ter representado uma ruptura avassaladora no tocante à sua própria visão sobre a humanidade – e como as cíclicas instâncias beligerantes rompem a pureza da alma. Não é surpresa que o primeiro vislumbre que temos do herói seja na ilha de Calíope (Charlize Theron), que o resgatou após um trágico naufrágio e o alimentou com Flores de Lótus para fazê-lo esquecer dos problemas – ao menos até estar pronto para se lembrar do que, de fato, aconteceu com ele e com sua extensa tripulação após a saída de Troia.

Holland e Pattinson ganham destaque como facetas distintas de uma mesma moeda, explorando os embates entre Telêmaco e Antínoo – este emergindo como um ambicioso e perigoso antagonista cuja ruína é premeditada desde o primeiro momento em que o vemos em cena. Entretanto, nossa atenção se volta para a potente e irretocável performance de Hathaway como Penélope, que lida com a solidão e o inescapável prospecto de encontrar outro marido, recorrendo a artimanhas para adiar o inevitável ao passo que mergulha num arco de loucura e de complacência – e que garante à atriz uma merecida aparição na próxima temporada de premiações, incluindo o Oscar. Samantha Morton, que dá vida à poderosa feiticeira Circe, também rouba a atenção nas breves sequências em que aparece.
O escopo artístico do filme se afasta das vibrantes cores de produções similares do gênero e posa como uma interessante escolha por parte da equipe – desde a melancólica e fria fotografia assinada por Hoyte van Hoytema (colaborador de longa data de Nolan) e da imponente e angustiante trilha sonora de Ludwig Göransson (que com certeza deve faturar uma nomeação ao Oscar por seu orquestral e tétrico trabalho). Todavia, o projeto leva um tempo para encontrar seu ritmo em virtude da frenética e picotada montagem de Jennifer Lame, que não nos deixa respirar no primeiro ato da epopeia, mas felizmente se reencontra com uma contemplativa e sisuda edição nos dois atos seguintes.

‘A Odisseia’ é mais uma fabulosa entrada na filmografia de Nolan, reiterando sua inegável versatilidade cinematográfica com uma poderosa e envolvente adaptação de uma das maiores histórias de todos os tempos. Ao remodelar a clássica Jornada do Herói com uma exploração contundente da complexidade do homem em uma época marcada por ideais míticos, o diretor acerta em cheio com um épico de quase três horas de duração – ainda que alguns erros deem as caras aqui e ali.
