O Apple TV é lar de algumas das produções mais aclamadas da atualidade – e, nos últimos dias, presenteou seus assinantes com o lançamento dos dois primeiros episódios de ‘Lucky’. Estrelada por Anya Taylor-Joy, a série de suspense baseada no romance homônimo de Marissa Stapley é centrada na personagem titular, uma jovem que aplicou um golpe multimilionário no governo ao lado do marido apenas para se ver traída e arremessada a uma jornada de sobrevivência que a coloca frente a frente não apenas com agentes do FBI, mas com um perigoso chefe da máfia que quer seu dinheiro de volta, custe o que custar.
Além de contar com nomes como Annette Bening e Timothy Olyphant no elenco, toda a equipe por trás dessa envolvente e fascinante atração faz um primoroso trabalho que pode transformar uma conhecida narrativa em uma das melhores produções do ano – e um dos destaques é a presença da aclamada cantora, compositora e produtora Fiona Apple como a voz da música-tema. Apple, que fez sua estreia no cenário musical em 1996 com ‘Tidal’ e, em 2020, encantou o mundo com uma das obras-primas do século, ‘Fetch the Bolt Cutters’, firmou sua carreira em experimentalismos nada convencionais e uma espécie de cosmos sinestésico que a catapultou a um prestígio invejável e que lhe garantiu diversas honrarias ao longo da carreira.
Aqui, a performer toma as rédeas da canção “Horns of a Bull” e volta a nos encantar com uma sólida incursão que se estende por brevíssimos um minuto e quarenta segundos – reunindo todos os elementos que ela já explorou em sua discografia, mas mantendo-se fiel à enervante e angustiante atmosfera que se abate sobre Lucky nos dois primeiros episódios. A faixa é uma mistura de indie-pop e dark-pop que traz breves menções ao art jazz e ao art-pop através de uma convergência inescapável de instrumentos poderosos e retumbantes – desde as cruas notas de um fantasmagórico piano clássico até uma pungente bateria que singra pela melancolia e pelo frenesi.
Logo de cara, Apple mostra seu apreço pela trama encabeçada por Taylor-Joy com uma sequência de versos que dialoga diretamente com a problemática e controversa personalidade da protagonista – “eu presto atenção aos homens atrás das cortinas; eu nasci dos chifres de um touro” faz referência à vida perigosa em que Lucky está inserida e como, desde pequena, foi forçada a jogar de acordo com as regras de um mortal jogo (“eu sei o padrão, a quem ele serve e quem ele machuca”) para sobreviver.
A verborragia da qual a artista se vale parece servir como justificativa para os atos da anti-heroína e singra por uma proposital dissonância acústica que nos envolve em uma montanha-russa de sentimentos – algo que apenas um nome como o do calibre de Apple poderia nos entregar e nos fazer ansiar por mais em uma enérgica catarse. E, à medida que a faixa caminha para um ecoante finale, sabemos que esse ciclo sem fim é justamente o que a torna diabolicamente saborosa.

