Crítica | Eu Vou Te Encontrar – Minissérie de Suspense da Netflix Entretém, Mas Poderia Ser Melhor

Em se tratando de Harlan Coben (que já emplacou três minisséries na Netflix), uma afirmação é fato: tudo que ele escreve se torna best-seller. E, consequentemente, se torna um produto audiovisual de sucesso. Autor de dezenas de livros, a maioria já virou uma produção nas mãos da Netflix – e as que ainda não viraram, vão virar, questão de tempo. Daí quando é anunciada uma nova série baseada na obra do autor estadunidense, a expectativa cresce, mesmo sabendo que, independentemente da qualidade, ela vai rapidamente figurar no Top 10 da plataforma. E foi exatamente isso que aconteceu com a minissérieEu Vou Te Encontrar’ (I’ll Find You), que, desde sua estreia na gigante do streaming vem se mantendo entre os mais vistos dentre os assinantes.

David (Sam Worthington, o protagonista queridinho de ‘Avatar’) está preso há cinco anos, acusado de ter assassinado o próprio filho pequeno. Ele já meio que aceitou seu destino e vive recluso, até o dia que recebe a inesperada visita de sua ex-cunhada, Rachel (Britt Lower, da série megassucesso ‘Ruptura’), que lhe mostra uma foto, dando a entender que o filho dele ainda está vivo. A partir desse momento, a vida de David entra em risco, quando pessoas dentro da cadeia tentam matá-lo. Sem entender o que está acontecendo, David só consegue ter em mente duas coisas: a primeira delas é que precisa sair dali para se manter vivo, e a outra é que precisa encontrar seu filho, e descobrir toda a verdade por detrás do crime que não cometeu.

Dividida em oito episódios de cerca de quarenta minutos cada, o roteiro da minissérie é marcado pela irregularidade. O primeiríssimo episódio apresenta, nos dez minutos iniciais, toda o enredo da série, e o faz de maneira atropelada. A primeira cena é David levantando de sua cela, surpreso em receber uma visita. A partir desse momento, tudo é mencionado pelos personagens: o crime, a aparição da criança, a motivação dos vilões, o isolamento do protagonista. Quer dizer, nada é exatamente trabalhado, as informações são faladas pelos personagens como que querendo informar o espectador, e não fazer com que a gente mergulhe na história. Isso se repete ao longo dos episódios, com informações sendo pronunciadas três vezes seguidas, como que querendo que o elemento seja sabido pelo espectador, mesmo se este não estiver olhando para a tela. Complicado.

Em termos de elenco, a coisa toda também fica irregular. Por um lado, temos a ótima Britt Lower, que mantém a impassividade mesmo em momentos de tensão da trama, e Sam Worthington, que tem aquela carinha de coitado-eu-não-fiz-nada, que se encaixa muito bem na situação do protagonista. Mas também temos os coadjuvantes, cujo talento abisma com o casal protagonista, dando a sensação de não terem sido preparados antes de entrar em cena – e, assim, temos situações de reações exageradas, incompatíveis com o entorno, e falas incoerentes, motivadas pelo além do roteiro preguiçoso de Robert Hull, que joga os dados e informações de maneira totalmente gratuita na trama.

Ainda que com tal falta de qualidade técnica, ‘Eu Vou Te Encontrar’ prende a atenção, afinal de contas, a história é do Harlan Coben (que, aliás, é bastante lido aqui no Brasil), o que significa muitas reviravoltas e um final satisfatório como um bom entretenimento para uma tarde diante da tv, misturando suspense e tensão psicológica sem elevar os nervos de ninguém. Partindo de uma trama bastante contemporânea, a minissérie é uma boa dica para maratonar, e justifica sua presença dentre os produtos mais vistos da Netflix.

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.