É possível que todo mundo que tenha visto o trailer de ‘Espermagedom’ tenha duvidado da existência desse filme. Uns devem ter desconfiado de que e tratasse de alguma produção de inteligência artificial, tipo aquela novela de frutas; outros devem ter achado que era uma produção underground de fim de curso de algum estudante muito inspirado. Mas fato é que o filme de animação ‘Espermagedom’ existe, e chegou essa semana no circuito exibidor nacional para sanar a curiosidade dos mais precisados.

Jean (na voz de Gregório Duvivier) é um jovem adolescente indo viajar com os amigos pela primeira vez, e, numa rodada de verdade ou consequência ele acaba ficando com sua crush, Lisa (voz de Evelyn Castro). E dentre amassos e descobertas, os dois têm sua primeira vez. Mas, antes disso, uma verdadeira revolução acontece no corpo de Jean. É que antes da primeira grande vez do rapaz, todas as centenas de espermatozoides acumulados em seu saco escrotal passam por um verdadeiro treinamento de guerra, cientes de que apenas um conseguirá sair vitorioso na missão. Nesse treinamento, Sêmerson (Fábio Porchat) e Semília (Valentina Bandeira) viverão uma verdadeira jornada em busca do óvulo a ser fecundado, mas o caminho fica ainda mais difícil com o vilão Gozama (Ed Gama), um apelão que não medirá esforços para, literalmente, eliminar a concorrência.
Antes de começar a falar do filme em si, um aviso é importante ser feito: ao contrário da outra animação adulta que foi para os cinemas no Brasil (e que causou bafafá), ‘Espermagedom’ não é necessariamente um filme para adultos, mas se visto por menores de idade, é interessante que haja uma supervisão e uma conversa depois. Ao contrário de ‘A Festa da Salsicha’, cujo propósito era o humor escrachado com teor sexual e muitas obscenidades ditas, em ‘Espermagedom’ não há palavrão, não há a intensão sexual; ao contrário, o filme se propõe como uma surpreendente ferramenta para falar sobre sexo, sobre prevenção e sobre a primeira vez. Ou seja, é através da animação que o longa se coloca para falar do maior tabu de toda a sociedade: sexo.
E justamente por isso é um grande acerto o elenco escalado para emprestar suas vozes aos personagens – artistas de grande apelo e abertura principalmente dentre o público mais jovem, e inclui outros nomes como João Vicente e Chico Barney, garantindo a sintonia e a fluidez das falas que foram primorosamente traduzidas e adaptadas para a lógica brasileira – ou seja, piadas e piadocas de duplo sentido que só fazem sentido para a gente e aumentam a dose de humor das cenas.

Também surpreende o fato de esta ser não só uma animação, mas uma animação norueguesa (o que nos leva a refletir sobre a produção daquele país). Os protagonistas, tanto humanos quanto espermatozoides, mantêm um ar de inocente perante os fatos e vão descobrindo, pouco a pouco, a funcionalidade das coisas e as consequências de certas escolhas, o que aproxima o público-alvo (ali na faixa dos treze anos) a entender a revolução hormonal pela qual estão passando e visualizar como as coisas se dão no corpo dos meninos e das meninas. Novamente: se acompanhado de um debate com pais ou professores, ‘Espermagedom’ é uma ótima ferramenta para abordar o tema sem ser pedante nem ditatorial.
Com tudo indo bem de forma geral, é a última cena que pode dividir o público. Dentre tantos tabus e temas difíceis, o longa aborda o mais delicado de todos em sua última parte, e o faz de maneira divertida e alegre. Além de reacender polêmicas, a forma como este último tema é abordado (como se fosse algo corriqueiro) pode causar desconforto até mesmo naqueles que o defendem.
Lustroso, ‘Espermagedom’ tem seu brilho e é um filme muito gozado, que entra com força no circuito sem medo de ser feliz.


