A Variety publicou uma extensa entrevista com Zack Snyder, que fala abertamente sobre ter tido o universo de super-heróis da DC “tirado” de suas mãos, após comandar vários filmes do panteão para a Warner Bros. e deixar sua marca em muitos outros.
“As circunstâncias em torno disso foram muito particulares. A situação foi me envolvendo aos poucos. O que estava acontecendo comigo e com minha família era muito intenso”, disse o cineasta.
Embora Snyder sempre tenha sido bastante cordial e diplomático ao discutir o desfecho de sua saída da direção de ‘Liga da Justiça’ após a trágica morte de sua filha, Autumn, fica claro que sua relação com o estúdio estava, no mínimo, desgastada. Além disso — como sabemos agora graças ao lançamento de sua versão de diretor —, o filme entregue por Joss Whedon não se aproximava nem um pouco da visão original de Snyder.
“O barulho em torno disso era tão grande — aquela parte era tão barulhenta — que, olhando para trás… perguntavam: ‘como está o filme?’. E diziam: ‘ah, está tudo bem! Estão fazendo algumas refilmagens’. E eu respondia: ‘ah, ok. Dane-se’. Então, a Debbie foi assistir à versão do filme feita pelo Joss [Whedon]; quando ela voltou e me disse: ‘você nunca pode assistir a esse filme’, e percebi que haviam reescrito sessenta páginas de roteiro… Eu nunca vi o filme, então não sei dizer.”
Snyder conta que o estúdio resistiu à sua “visão para o universo DC” e queria mais controle — algo que ele compreende. No entanto, ele também acredita que, pelo menos algumas das pessoas no comando na época, viram uma oportunidade de assumir o controle após a morte da filha: “isso que aconteceu com o Zack é uma chance de retomarmos o filme agora”.
“Mas houve uma espécie de catarse: encontrei um executivo da Warner Bros. — que já não trabalha mais lá há muito tempo, então não vou dizer quem era — e ele me disse: ‘sabe, Zack, preciso te dizer uma coisa: você estava certo sobre tudo’. E eu respondi: ‘gentileza sua’.” E ele diz: ‘nós estávamos lutando contra você e, no fim das contas, você tinha razão'”.
Snyder foi questionado sobre James Gunn e Peter Safran à frente da DC Studios e revelou que ainda não viu ‘Superman’ ou ‘Supergirl’.
“Não assisti aos filmes. É algo um pouco pessoal demais para mim. Cedo demais, acho que se pode dizer. Eu gosto do James [Gunn]. E admiro a [visão] dele”.
O cineasta também confirmou que Gunn o consultou sobre o novo traje de super-herói usado por David Corenswet no filme de 2025, mas parece que o co-CEO da atual DC Studios não seguiu seu conselho.
“Ele me fez uma pergunta sobre a cueca. Sabe, nem consigo me lembrar agora, mas acho que era sobre a cueca. Desculpe, mas vou fazer um pequeno desabafo. ‘Watchmen’ é um filme de desconstrução de super-heróis — neuroses, impotência sexual relacionada aos trajes, o fetichismo, tudo isso. Não dá para desfazer isso. Eu penso em tudo dessa maneira”, ele explica.
“Então, a cueca por cima do traje de super-herói vem dos homens fortes da era vitoriana. Os vitorianos eram tão pudicos que usavam malhas cor de pele e depois vestiam a cueca por cima. Foi assim que começou. Na verdade, era apenas um reflexo do fato de os vitorianos não quererem mostrar pele de verdade, devido ao medo pudico da nudez. Para mim, isso é algo muito arcaico. Não pensamos mais assim. Vivemos em uma época em que ficamos bem sem colocar a cueca por cima. Mas talvez não estejamos bem! Talvez a mensagem seja que você coloca a cueca de volta no Superman porque ainda não superamos nosso pudor vitoriano. Mas eu achava que tínhamos superado!”.
Por fim, Snyder explicou por que uma adaptação em live-action de ‘O Cavaleiro das Trevas’ é o único filme da DC que ele ainda gostaria de dirigir.
“A razão pela qual eu escolheria ‘O Cavaleiro das Trevas’ — se alguém me permitisse fazê-lo fora do Universo DC, já que é uma obra que, por acaso, engloba super-heróis — é que, para mim, ‘Watchmen’ e ‘O Cavaleiro das Trevas’, lado a lado, representam o ciclo completo das histórias em quadrinhos de super-heróis. Não há como ir além dessas duas obras”.
“‘Watchmen’ surgiu no início da fase dos filmes de super-heróis; portanto, seria extremamente apropriado que ‘O Cavaleiro das Trevas’ chegasse agora, num momento que eu diria ser talvez… não quero chamar de ‘crepúsculo’, mas já percorremos um longo caminho no gênero de filmes de super-heróis, e acredito que o público entenderia o sentido disso. Não nos esqueçamos: ‘O Cavaleiro das Trevas’ foi escrito para um público de quadrinhos que estava muito saturado do gênero, assim como ocorria na época de ‘Watchmen’; logo, seria um ótimo momento para produzir esse filme voltado para pessoas que estão saturadas dos filmes de super-heróis”.

