O ser humano sempre teve um desejo inexplicável de explorar e conquistar a natureza, desde o momento em que aprendeu a polir pedras lascadas até adventos tecnológicos que o permitiu desbravar desertos inóspitos e oceanos traiçoeiros. É claro que essa irrefreável ambição foi levada aos cinemas das mais diversas maneiras, como visto no angustiante drama ‘O Regresso’, estrelado por Leonardo DiCaprio; no clássico ‘O Náufrago’, que nos presenteou com uma das melhores atuações de Tom Hanks; e no elogiado sci-fi ‘Perdido em Marte’, de Ridley Scott. E, este ano, somos convidados a conhecer a inspiradora e pouco conhecida história do explorador sherpa Tenzing Norgay com o drama biográfico ‘Tenzing’, que chegou recentemente ao catálogo do Apple TV.
A trama nos apresenta a uma das figuras seminais da primeira escalada bem-sucedida ao cume do Monte Everest, o ponto mais alto da superfície terrestre – o alpinista que empresta seu nome ao título do filme e que é interpretado, em sua fase adulta, pelo talentoso Genden Phuntsok. Tendo uma conexão de décadas com a montanha que enfeita sua cidade natal com sua majestosa presença e que é nomeada pelos sherpas como Chomolungma (Mãe Deusa do Universo, em tradução para o português), Tenzing sempre teve uma atração inexplicável em explorá-la, encontrando oportunidade ao se alistar aos incontáveis grupos de exploradores que também tinham o mesmo objetivo, servindo a princípio de guia.

Em 1953, Tenzing e uma grande equipe de montanhistas foram contratados pelo ex-oficial do exército britânico John Hunt (Willem Dafoe) para garantir um feito inédito: a ascensão completa ao Everest, que seria condecorado à Inglaterra e imortalizado nos livros de história como um lembrete do poder e da força de vontade do povo inglês. E, enfrentando incontáveis adversidades tanto humanas quanto naturais, Tenzing eventualmente ascende, ao lado do explorador Edmund Hillary (Tom Hiddleston), que se torna seu amigo e aliado inestimável, ao cume em um feito que é relembrado até os dias de hoje.
Toda a construção do longa-metragem, que se estende por mais de duas horas de duração, parte de princípio bastante característicos do gênero das biopics, encontrando um espaço seguro em tropos como flashbacks explorando a conturbada vida de Tenzing como bhoti, um forasteiro que era visto como servo de famílias mais ricas na região do Tibete; montagens aceleradas para denotar a passagem do tempo e as condições enfrentadas pelos alpinistas; e sequências reflexivas que trazem mais humanidades a célebres nomes que marcaram época.

A encargo da cinebiografia, temos Jennifer Peedom. A diretora já havia explorado o tema da escalada ao Everest no elogiado documentário ‘Sherpa’, que esquadrinhou as explorações e as condições de trabalho do povo nepalês-indiano em meio às expedições à perigosa montanha – e que trouxe gravações histórias envolvendo Tenzing e Edmund. Apoiando-se em uma extensa pesquisa e promovendo uma forte alteração estilística, o filme traz uma visão sólida e nada romantizada para um sólido resultado. E, conforme percebemos um embrace das fórmulas mencionadas acima, Peedom garante uma experiência sinestésica e imersiva que reitera sua enorme habilidade para produções visualmente espetaculares e inspiradoras.
Acompanhada do roteiro de Luke Davies, Peedom tem a clara ideia de reafirmar o absoluto protagonismo de Tenzing na conquista do Everest, optando por enquadramentos que a princípio o isolam em seu conhecimento inenarrável sobre o local e que, pouco a pouco, o fazem integrar um arco muito maior – sem pintar John ou Edward com traços de “salvadores brancos” ou “bons samaritanos”, e sim colocando-os em contato com algo que lhes foge o controle. Ao passo que utiliza o espaço para fazer breves comentários sobre neocolonialismo, identidade e servitude, a cineasta opta por quadros bem estabelecidos e práticos o suficiente para nos envolver do começo ao fim.

Deslizando aqui e ali com redundâncias desnecessárias – como a novelesca trilha sonora de Rebekka Karijord, que mais replica a atmosfera do que a adensa -, o destaque maior destina-se ao comprometimento primoroso de Phuntsok, cuja complexa personalidade ajuda a trazer ritmo à narrativa e a desviar de possíveis platôs; da química que firma ao lado de Hiddleston, e da sempre bem-vinda presença camaleônica de Dafoe, que serve como contraponto “vilanesco” de Tenzing, por assim dizer. Mais do que isso, o trio de atores auxilia a reiterar o caráter telúrico e admirável que Peedom procura trazer às telas (e que, sem sombra de dúvida, não deveria ter sido lançado apenas no streaming).
Mesmo singrando em território familiar, ‘Tenzing’ supera nossas expectativas pela predileção pelo contemplativo, tangenciando certos conceitos abstratos que colocam frente a frente a ambição humana e devoção espiritual – mostrando que a natureza sempre foi uma força de magnitude monumental e servindo como mais uma ótima adição ao catálogo do Apple TV.

