Navegando por camadas que se abrem em torno da culpa e do luto, além daqueles momentos em que não sabemos lidar com uma situação traumática, O Amor de sua Vida chegou de mansinho ao catálogo do Prime Video. Um filme tocante que atravessa a vida de uma jovem de forma avassaladora, nos fazendo sentir cada gota dos conflitos que surgem diante das surpresas que o destino coloca em seu caminho.
Maya (Margaret Qualley) é uma enfermeira que teve que se tornar uma pessoa independente desde muito cedo. Um dia, conhece Charlie (Gabriel Basso), um simpático doutorando. Os dois logo se apaixonam e resolvem se casar. Durante a pandemia, Charlie, que é asmático, acaba morrendo vítima da COVID-19. Completamente devastada, Maya opta por sumir e vai pra Europa tentar se reencontrar, ou, pelo menos, sobreviver à perda. Por lá, se apaixona novamente, mas a dor e o luto a impedem de seguir em frente. Anos se passam, e ela parece estar preparada pra enfrentar os fantasmas do passado.

Dividido em algumas fases, o filme apresenta os recomeços e as angústias de forma bem próxima da realidade, com maturidade e sem tempo para superficialidades. Afinal, sabemos no lado de cá da tela que nem tudo vai acontece como queremos e que a felicidade pode não existir completamente, mas apenas momentos felizes. Por isso, o roteiro avança de forma dilacerante pelas pancadas que a vida nos dá e pelos caminhos que o destino nos leva a percorrer, além de colocar em desataque a importância de nos compreendermos a cada instante de nossas vida.

Dos amores, passando pelas decepções e distância dos amigos, sempre ligada a mesma perda, vamos entendendo os sentimentos de uma protagonista que prefere ir ao encontro do acaso, que usa a resiliência através do medo que faz fugir. Entre os 20 e pouco e os 30 e pouco anos de sua vida, marcada por um grande amor, atravessamos também a pandemia, um dos períodos mais terríveis da história, em mais um recorte impactante envolvendo de uma época onde milhares de pessoas perderam a vida.

A direção de Rachel Morrison é cuidadosa, potencializa a angústia e usa o silêncio como parte da experiência. No quarto de Maya e de seu marido, os contrapontos entre dois momentos se chocam, transformando a intimidade em um elemento que dilacera quando a perda se mostra presente. Ao mesmo tempo, o sentido de liberdade e a chegada de um novo amor, em uma Portugal belíssima, enchem a tela de positividade. Nos sentimos próximos da personagem, como se fôssemos observadores de suas aflições.
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Com uma trilha sonora que se aparece pouco, mas de forma cirúrgica e com ênfase em importantes momentos, inclusive com direito a ‘Diz que fui por aí’ tocando em uma vitrola antiga. Essa, uma música maravilhosa que, sem que soubéssemos, anunciava um prelúdio do que atravessaria os próximos passos da personagem: ela não levaria um violão debaixo do braço, mas sim a carga emocional de uma perda irreversível. Esse e outros pequenos detalhes mostram como o filme chega com força para explodir em tela as emoções vividas por Maya.

O Amor de sua Vida é de cortar o coração. Um daqueles filmes que nos fazem precisar de um lenço do lado, ao mesmo tempo que um sorriso pode aparecer. Uma jornada avassaladora por uma intimidade cheia de dores e amores que conquista do início ao fim. Belo filme.

