Um festival de cinema é sempre uma caixinha de emoções, em que você às vezes pode dar a sorte de tirar uma emoção bacana, às vezes pode tirar o divertidamente azulzinho, entediado. E tudo isso faz parte, pois, às vezes, a proposta é muito mais experimentar, propor novas formas e olhares, do que necessariamente criar uma história inesquecível. Às vezes, o inesquecível tem muito mais a ver com a forma com que se conecta com o cotidiano da pessoa comum. É mais nessa linha que se encontra a proposta do filme chileno ‘La Perra’, produção escolhida para encerrar o Festival de Gramado esse ano e que também teve exibições no Festival do Rio com a presença da diretora, mas que ainda não tem data para entrar em cartaz no circuito brasileiro.

Um dia, Silvia (Manuela Oyarzún) está na costa da ilha, como muitos outros moradores locais, quando filhotes de cachorro são resgatados do mar. De origem desconhecida, os filhotes ficam passando de mão em mão até que Silvia decide ficar com uma, uma fêmea, a quem dá o nome de Yuri. Os anos se passam e, mais que companhia, Yuri se torna o terceiro elemento na dinâmica que Silvia vive com seu companheiro numa casa grande na encosta de um desfiladeiro em uma isolada ilha no Chile. Uma dinâmica que consiste em coleta de algas do mar, tarefas do cotidiano e ruídos de uma terra vasta e cheia de ranhuras. Quando, após uma festa de ano novo, Yuri foge de casa, a ausência da cachorra desperta traumas não curados do passado de Silvia, os quais ela não estava preparada para ter que lidar e que despertam sentimentos que a faz duvidar de sua própria moral.
‘La Perra’ tem uma hora e cinquenta e dois minutos de duração, mas, por seu ritmo lento e falta de grandes acontecimentos na trama, somados a um pano de fundo com sensação de fim de mundo (afinal, é uma ilha com pessoas isoladas mesmo), a sensação é a de que o filme dura muito mais do que de fato é. E talvez, apenas talvez, se a diretora Dominga Sotomayor tivesse considerado o quanto a extensão de seu filme, somado a esses fatores, causam essa sensação de prolongamento ao espectador, talvez ela tivesse cortado um pouquinho das divagações.

Escrito por Inés Bortagaray e Pilar Quintana, o filme é traz um vai e vem temporal que, num primeiro momento, a gente nem se dá conta de que é isso que está acontecendo. Quer dizer, o primeiro ato é composto do tempo presente, da protagonista com a filhotinha de cachorro, cuidando dela (de uma forma meio desengonçada, como quem nunca cuidara de um outro ser vivo antes) até uma passagem de tempo onde a cachorra já está maior e as duas têm uma relação de cumplicidade, ao ponto de todos na vila saberem; então, quando a Yuri foge, a gente é transportado para um tempo passado, onde ocorrera uma fatalidade na infância de uma Silvia pequena ainda, cujo trauma ficara na periferia de sua memória até voltar à tona no tempo atual, que volta no terceiro ato com uma resolução completamente avessa ao que vinha sendo construído no enredo, causando confusão no espectador.
O filme ainda conta com uma participação especial luxuosa de Selton Mello como um pai brasileiro que vai visitar essa ilha no Chile, durante o núcleo do passado da protagonista. Ele tem influência direta na trama, é verdade, mas seu tempo de tela é tão pouco que não dá nem tempo de a gente vibrar.
No geral, ‘La Perra’ tem uma ideia razoável, mas se desenvolve de maneira lentíssima, bem sonolenta.



