Um super-herói só existe porque os humanos falham. Se o mundo fosse perfeito e todo mundo vivesse em linda harmonia, não teríamos (nem precisaríamos) de seres com superpoderes para cuidar da gente e combater o crime nas ruas. Porém, diante da realidade com violência para todos os lados, é preciso sonhar e acreditar que alguém, em algum lugar vai vir nos salvar e melhorará a segurança da vizinhança para sempre, combatendo os vilões e os colocando em seu devido lugar. Mas… o que aconteceria se justamente a pessoa em quem a gente depositasse todas as nossas fichas simplesmente fosse tão inseguro quanto a gente? Esse é o drama de ‘Overman’, filme de ação e aventura baseado no personagem homônimo dos quadrinhos criados pela cartunista Laerte Coutinho, que teve sua pré-estreia no Festival do Rio e chega essa semana aos cinemas brasileiros.

No passado, Overman (Caco Ciocler, de ‘As Polacas’) combatera um dos seus piores arqui-inimigos e todo mundo acreditou que ele havia sido preso. Porém, desde então, Overman se tornara meio obsoleto, e, aos poucos, afundara numa crise existencial que o levara a morar num muquifo compartilhado com Ésquilo (Victor Lamoglia, de ‘Tá Escrito!’), um rapaz tão desocupado e desempregado quanto ele. Para buscar soluções para sua vida sem propósito, o herói se consulta com Dr. Lights (Raphael Logam, o Evandro de ‘Impuros’), seu terapeuta. Porém, tudo está prestes a mudar pois o Governador (Otávio Müller, de ‘Privadas de Suas Vidas’) chamou Overman para cuidar da segurança de seu governo, ao que o herói aceita de bom grado, sem saber que dividiria o cargo com outra pessoa – Pâmela, a Mulher Cachorro (Karina Ramil, de ‘Os Sapos’), que ele viria a se apaixonar por uma influencer, Poline Pilsen (Maria Lucas) e que um antigo vilão voltaria à cena.
‘Overman’ é um herói cansado, em ruptura, em crise, cujo fardo que carrega é maior do que sua capacidade de suportar. Ele é humano, tem preguiça, tem medos, ele mente, esconde a verdade, camufla os fatos e tenta tirar benefício das situações que lhe caem bem. Um anti-herói. Quando publicado nas tirinhas de jornal, Overman era um personagem que, através do divã com Dr.Lights, fazia críticas sociais através de – justamente – o pensamento crítico que o atravessava e atravessava a sua moral, paralisando-o diante de um mundo que não o esperava. Assim como Chaves repete incessantemente que ninguém tem paciência com ele (e nós rimos), Overman repete a mesma coisa, mas, na vida real, ninguém tem paciência mesmo, e ninguém ri. Essa é a crise do herói.

Não é necessário tecer nem a trajetória nem a genialidade de Laerte, escritora e quadrinista que fez de seu personagem um questionador do contemporâneo, imprimindo-lhe uma preguiça eterna de se encaixar na sociedade. A partir daí, entraram os nomes do também quadrinista Arnaldo Branco e de Leandro Soares e Tomás Portella na adaptação destas tirinhas em um formato de aventura com uma ação e humor afiado, recheado de figuras de linguagem que trazem outras camadas para um texto já inteligente.
Em tempos de superproduções dos heróis, Tomás Portella faz uso da inventividade em botar de pé uma aventura cheia de personagens e efeitos com ares de anos 90 num filme de 2026, e, de alguma forma, consegue fazer com que as inquietações de então se conectassem com as angústias de agora. Para tal, contou com um debochado Caco Ciocler entregando trejeitos ao protagonista, além de um elenco que comprou a ideia de um filme de herói brasileiro que mais atrapalha o sistema do que ajuda, mais direcionado aos adultos pelo seu conteúdo que requer pensamento analítico em tempos acelerados.
Se ‘Overman’ existisse essa semana, estaria exatamente assim como Laerte o descreveu e como Caco o interpretou: fatigado. Mas mesmo com toda a tosqueria que tem que aturar no dia a dia, ele seguiria em frente, defendendo o povo, mesmo que a seu modo.



