Rejane Faria é uma das grandes atrizes do contemporâneo. Com uma longa trajetória nos teatros, especialmente no triângulo mineiro, ela foi fisgada para as telonas pelos olhos do produtor Thiago Macêdo Correia (como ele mesmo diz publicamente), que enxergou o potencial dessa atriz e falou que ela precisava transpor pras telonas. Thiago é um dos produtores da Filmes de Plástico, importante produtora brasileira que vem dando visibilidade e fortalecendo, acima de tudo, atores e histórias mineiras. Uma trajetória de talento que culmina agora no drama ‘Vicentina Pede Desculpas’, que chega aos cinemas no próximo dia 5 de novembro, após sessões concorridíssimas no Festival do Rio, na Mostra de São Paulo e no Festival de San Sebástian esse ano, e que chega a partir de 20 de novembro na plataforma da Netflix.

Vicentina (Rejane Faria, de ‘Yellow Cake’) é uma senhora comum, idosa, que mora na sua casinha no interior de Belo Horizonte. Sua rotina simples é abalada após a trágica notícia de um acidente envolvendo seu filho, Wesley (Renato Novaes, de ‘O Natal dos Silva’), um motorista de ônibus que perdera o controle do veículo e que, por conta disso, diversas pessoas perderam a vida. A partir daí, tomada por um sentimento de culpa irremediável, Vicentina toma a decisão de buscar o telefone de cada um dos familiares das vítimas do acidente e entra em contato pessoa a pessoa, com um único intuito: pedir desculpas em nome de seu filho.
Existe uma universalidade e uma localidade em ‘Vicentina Pede Desculpas’ que torna este filme compreensível e emocionante por pessoas em qualquer parte do mundo. Porque sua história é simples – uma mãe que se sente culpada pelos atos de seu filho e decide pedir desculpas pelas escolhas dele. Se fosse nos Estados Unidos, por exemplo, essa mãe poderia estar se desculpando porque seu filho fora um atirador que invadira uma escola, por exemplo. Mas a história se passa no Brasil – e, mais particularmente, em Minas Gerais. Daí a particularidade de como a história se desenrola: só em Minas mesmo que uma senhorinha percorreria casa a casa para se desculpar, e seria recebida pelas pessoas com calma e tranquilidade; fosse em capitais caóticas como Rio ou São Paulo, provavelmente não seria nem recebida, até mesmo xingada. Ainda bem que Vicentina e Minas mantêm a ternura do gesto.

Esse olhar sensível sobre a tragédia (que pode ser intencional ou não, isso não é relevante nessa história) tem muito da forma como o diretor e roteirista Gabriel Martins vê e se posiciona no mundo. Vejam bem, ele é o nome por trás do tocante filme ‘Marte Um’, que conquistou o coração dos espectadores em 2022 por contar uma história de esperança através dos olhos de um menino sonhador. Gabito, como muitos o chamam, tece, com a calma de um mineiro, quase cento e cinquenta minutos de uma história que precisava de seu tempo para acontecer, para ser sentida, para ser perdoada, para ser absorvida pelo espectador. Tivesse uma hora a menos, talvez a gente não conseguisse alcançar a magnitude da dor dessa mãe.
Em determinado momento do filme um personagem diz “você não precisa pedir desculpas por nada não, quem fez foi seu filho”. Mas Vicentina acha que precisa. Ela sente isso. Porque é mãe, foi ela quem educou, e se seu filho agiu de uma forma que prejudicou o coletivo, ela se sente, sim, responsável pelas atitudes de seu filho. A isso damos o nome de moral, de ética. Vicentina se sente moralmente responsável pelas escolhas erradas de seu filho. Ela é uma mulher ética, que refletiu sobre a tragédia. Ética e moral, duas coisas as quais o mundo precisa voltar a pensar e debater sobre.
‘Vicentina Pede Desculpas’ é um trabalho doloroso e brilhante de Rejane Faria, que imprime todos os tipos de dor que essa mãe sente. É impossível terminar o filme sem sentir dó dessa personagem, e isso é fruto do trabalho dedicado de uma grande atriz.



